Argentina/Brasil/Chile (P&B), 1967.
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Filme em episódios.
Noite Terrível. Com JORGE RIVERA LÓPEZ, SUSANA RINALDI,
FEDERICO LUPPI, CORRADO CORRADI, MARTA GAM, GLORIA PRAT, LOLA PALOMBO, MIGUEL N. BRUSE,
ADRIANA AISENBERG, MARIA LUISA ROBLEDO, HÉCTOR PELLEGRINI.
História: ROBERTO ARLT.
Adaptação: FRANCISCO URONDO, CARLOS DEL PERRAL,
C. FERNANDES MORENO, RODOLFO KUHN.
Fotografia: JUAN J. STAGNARD.
Música: OSCAR LÓPEZ RUIZ.
Montagem: ANTONIO RIPOLL.
Produção: MARCELO SIMONETTI.
Direção: RODOLFO KUHN.
Mundo Mágico. Com MIGUEL LITTIN, CECILIA PAEZ,
PATRICIA MENZ, MARIA EUGENIA CAVIERES, PATRICIA GUZMAN, MARIA F. BARRENECHEA, CLARA MESSIAS,
COCA MELNICK, TENNYSON FERRADA, RAUL ESPINOSA, JORGE GUERRA.
Fotografia: FERNANDO BELLET.
Montagem: ANTONIO RIPOLL.
Música: TITO LEDERMANN.
Produção: JORGE LUIS CONTRERAS e HELVIO SOTO.
Argumento e direção: HELVIO SOTO.
O Pacto. Com REGINALDO FARIAS, VERA VIANA, JÔFRE
SOARES, VIRGINIA VALLI, ISABEL RIBEIRO, MÁRIO PETRAGLIA, CLÁUDIO McDOWELL, PAULO CEZAR.
Fotografia: DIB LUFTI.
Montagem: NELLO MELLI.
Música: SIDNEY WAISMAN.
Voz: DULCE NUNES.
Produtor associado: LUIS CARLOS PIRES.
Produtores executivos: MARCOS FARIAS, LEON HIRSZMAN.
Argumento e direção: EDUARDO COUTINHO.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Drama existencial dividido em três episódios, cada um produzido por
um país sul-americano (Argentina, Brasil e Chile, justificando o ABC do título). O primeiro, o
argentino Noite Terrível, narra o dilema de Stephens após deixar em casa a noiva Júlia,
na noite anterior ao casamento. Sentado num restaurante e observando a família da mesa ao lado,
começa a considerar as possibilidades que tem pela frente: pode fugir do casamento, e ser
perseguido pelos irmãos de Júlia; pode casar e ver, já no dia seguinte, desaparecer o desejo e
seguir uma rotina triste com uma mulher sem personalidade e sofrer as pressões da família; ou
pode simplesmente dizer a verdade e fazer o que tem na cabeça. É o episódio mais interessante
dos três, demonstrando ousadia e inteligência num roteiro cheio de idas e vindas no tempo, com
excelente uso dos pensamentos dos personagens e alternância entre o drama e o humor (como na
cena em que os irmãos de Júlia, procurando Stephens em tudo quanto é lugar, interrompem a
caçada para ouvir no rádio a transmissão de um jogo de futebol), e comentários sutis que ora
lembram Nelson Rodrigues ("É quase como um assassinato" , pensa Stephens, enquanto faz
amor, no meio da rua, com a noiva) e surpreendem em trechos como a comparação entre o casamento
e o macarrão sendo regurgitado. Como curiosidade, a semelhança física entre o ótimo ator Jorge
Rivera López e o cantor Michael Stype, vocalista do grupo R. E. M.
Em Mundo Mágico, o episódio chileno, o protagonista já casou e
teve um filho, mas é tão insatisfeito quanto o do filme anterior. Diretor de televisão que tem
um caso com a ambiciosa apresentadora de um programa de astrologia, Jorge não consegue realizar
sua paixão nem terminar o casamento fracassado. Pior: o engajamento político e a desilusão com
o momento de seu país acabam intervindo em sua vida particular, principalmente durante a
realização de um documentário numa favela, onde uma moradora acaba de perder o filho. A
tumultuada narrativa acompanha o desespero de Jorge, o que acaba tornando o filme fragmentado e
confuso. Aparentemente autobiográfico (Helvio Soto, o diretor, é também egresso da TV),
Mundo Mágico desmantela a impressão de elaborada experimentação do filme anterior (que,
além do bem escrito roteiro, traz uma requintada fotografia repleta de sombras), e adquire o
aspecto rústico dos filmes brasileiros do movimento cinemanovista.
Finalmente, em O Pacto um jovem conquistador aposta com os amigos
que conseguirá dobrar a bela Inês, virgem criada por pais rigorosos. Embora ela corresponda a
seu interesse, a proibição de encontrar com o namorado secreto leva-os a furtivos encontros no
cinema, no zoológico ou num elevador, que nunca chegam a termo. Ela então resolve desafiá-lo,
exigindo que ele prove seu amor num pacto de morte, onde ambos tomariam veneno após irem para
a cama. A despropositada história, que até pode ser rica em leituras psicológicas, teve uma
realização mediana, onde o que salta aos olhos é a paisagem do Rio de Janeiro, mostrada de
forma extremamente feliz no passeio de lambreta do casal, que vai da Zona Norte à Zona Sul,
passando pelo Maracanã e os Arcos da Lapa, além da seqüência num dos antigos cinemas da Rua do
Passeio. A trama, no entanto, pouco oferece para que o espectador sinta-se atraído, e o
previsível desenlace tampouco causa a surpresa pretendida. Como curiosidade, a ponta de Pedro
Paulo Rangel, novíssimo, na festa inicial, e o nome de Joana Fomm como assistente de direção,
nos créditos finais.
É curioso que co-produções como essa não tenham sido realizadas às
pencas pelo cinema nacional. Em debate na TV Educativa/Rede Brasil, o produtor associado Luís
Carlos Pires informou que filmes como este acabam saindo baratos, pois têm o custo de um
curta-metragem e o retorno de um longa. O formato também permite uma maior liberdade de
linguagem, sendo normalmente utilizado como laboratório para exercícios de imaginação. Sem
contar, no caso particular deste ABC do Amor, o registro de um momento histórico que
proporciona interessantes comparações com o atual estágio de nossa sociedade: se por um lado
a repressão familiar e a submissão feminina diminuíram consideravelmente com o passar das
décadas, a situação dos pobres e a hipocrisia dos ricos não mudou nada.
(M.L.)
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