Adaptation,
EUA, 2002.
Com NICOLAS CAGE, MERYL STREEP, CHRIS COOPER, CARA SEYMOUR,
TILDA SWINTON, MATTHEW OSCEOLA, JAY TAVARE, ROGER WILLIE, JIM BEAVER, DOUG JONES,
STEPHEN TOBOLOWSKY, CURTIS HANSON, JUDY GREER, MAGGIE GYLLENHAAL, RON LIVINGSTON, BRIAN COX.
Música: CARTER BURWELL.
Fotografia: LANCE ACORD.
Montagem: ERIC ZUMBRUNNEN.
Desenho de produção: K. K. BARRETT.
Produção executiva: CHARLIE KAUFMAN, PETER SARAF.
Produção: EDWARD SAXON, VINCENT LANDAY, JONATHAN DEMME.
Baseado no livro de SUSAN ORLEAN.
Roteiro: CHARLIE KAUFMAN, DONALD KAUFMAN.
Direção: SPIKE JONZE.
Estréia no RJ: 21.02.2003.
Sinopse e comentário.
Drama. Com o sucesso do filme Quero Ser John Malkovich, o
tímido roteirista Charlie Kaufman é convidado para adaptar O Ladrão de Orquídeas, livro
da jornalista Susan Orlean narrando sua experiência com o perito John Larouche, sujeito rústico
que se considera o maior entendido em orquídeas no mundo. Atravessando uma forte crise
existencial (aos 40 anos, considera-se gordo, careca e repulsivo), Charlie vai se vendo incapaz
de transformar em roteiro a sensibilidade encontrada no livro de Orlean, por quem acaba
platonicamente se apaixonando. Ao mesmo tempo, Donald, seu irmão gêmeo, resolve seguir-lhe os
passos e está escrevendo também um roteiro, uma história de suspense nos moldes hollywoodianos
(tudo o que Charlie mais despreza). Com o tempo passando, as cobranças aumentando e o roteiro
não saindo, o autor parte para uma busca dentro de si mesmo, e do que entende como sua "patética
existência": enquanto acompanha no livro de Orlean a relação de insatisfação e encantamento com
a vida, e o horizonte aberto pelo feio e fascinante Larouche, Charlie acaba se colocando na
história, narrando em paralelo a sua dificuldade em estar no mundo e lidar com seus habitantes.
Com a ajuda do irmão Donald, porém, terminará descobrindo que Orlean não é a pessoa iluminada
que imagina, e a inofensiva pesquisa empreendida pelos dois gêmeos irá revelar um segredo que
porá a vida de ambos em perigo.
A mistura de ficção e realidade já se anunciava como obsessão do
roteirista Charlie Kaufman e do diretor Spike Jonze no filme anterior da dupla, o ótimo
Quero Ser John Malkovich, cujos bastidores aparecem neste Adaptação. O outro
tema que parece fascinar Kaufman e Jonze é a questão da criação, ou melhor, da autoria. Não
é à toa que o alucinado início do presente filme inclui até um rápido clipe com a criação do
mundo, mostrando em segundos a cidade de Hollywood há 40 bilhões de anos atrás até chegar ao
nascimento do protagonista. O princípio, a criação, a vida. É como se não houvesse um
"mistério", e para criar bastasse, obviamente, viver. Viver e reconhecer as diversas formas com
que a vida se manifesta. Mas como não sabe "viver", Charlie empaca no momento de criar. A
inspiração começa a surgir no livro que tem nas mãos, e na descoberta (que ele partilhará com
a autora) do fascínio com as coisas que à primeira vista pouco valem, como flores ou homens em
cuja boca faltam os dentes da frente.
O filme estabelece uma corrente de observação do outro. Acompanhamos
Kaufman observar Orlean que observa Larouche que observa as orquídeas. Que, como no poema, não
observam ninguém, e vivem apenas para serem polinizadas por uma espécie de inseto que a
natureza criou especificamente para elas. Observações como esta, ilustradas pela câmera
extravagante de Spike Jonze, são os pequenos grandes ornamentos que enriquecem a narrativa e
fazem de Adaptação um filme singular. Cenas como a de Charlie, solitário e perdido numa
exposição de orquídeas, admirando as diferentes mulheres que lhe surgem no caminho e de quem
jamais se aproximaria, pelo simples medo de as decepcionar, são de tão desconcertante
sensibilidade que não se entende o que deu na cabeça dos realizadores no terço final do filme.
Depois de toda a crítica aos vícios narrativos do cinema americano, com
as hilariantes discussões entre Charlie e Donald sobre construção e estrutura de roteiros,
Adaptação dá uma radical guinada na visão anti-conservadora que vinha defendendo e
adere, espontaneamente, a todos os padrões que parecia evitar. Houve quem enxergasse nisso um
genial exercício de cinismo. O protagonista só consegue sobreviver e ser feliz porque enfim
passa a seguir as regras do mundo que o cerca, ou seja, enfim se "adapta", mesmo que para isso
tenha de sacrificar a sua criação. Para esse missivista, no entanto, não há nada de genial em
entusiasmar o espectador com uma obra inteligente e sensível para, logo depois, frustrá-lo com
cenas previsíveis e moralizantes. Recursos como este revelam não apenas falta de criatividade
do autor, mas também de respeito para com o público. A destacar, os ótimos desempenhos dos
sempre carismáticos Nicolas Cage e Meryl Streep.
(M.L.)
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