Almandrade*
"Este mundo é dado ao homem como um enigma a resolver" (1)
A simplicidade de uma imagem urbana pode condensar fisionomias diferentes de uma cidade. Se num
primeiro instante ela não nos conta nada, somos obrigados a sonhar diante do seu silêncio e
falar diante de nossa impertinência de pescar significados naquilo que se entrega à percepção.
Estamos sempre a falar da paisagem urbana a partir de suas relações com as contradições sociais,
com o passado que a memória não esqueceu ou com os conflitos e harmonias que fazem o presente;
encontramos enfim uma causa, uma explicação para as imagens onde a cidade se deixa perceber.
Mas é nas imagens poéticas que a cidade provoca a imaginação e solta os seus enigmas.
"Em
torno de cada imagem escondem-se outras. Forma-se um campo de analogias, simetrias e
contraposições". (2)
1. O Olhar Discreto
Se a cidade é um pedaço do mundo, suas imagens são enigmas que ao tentarmos decifrá-las,
lançamos sobre elas também nossas interpretações subjetivas. Discretamente o olhar sonha e
encontra outras razões diante das imagens da cidade. Um filósofo apaixonado, perambulando pelas
ruas de Moscou, imagina suas imagens sobre aquelas que o olho vê; Walter Benjamim no "Diário
de Moscou" (3), ao projetar suas fantasias e esperanças, escreveu um precioso documento
pessoal sobre essa cidade. As imagens de uma cidade não se resumem ao que é visto na sua
objetividade, livre das desordens do desejo e do devaneio de um sonhador; são todas as
fotografias por ele imaginadas. A cidade enquanto paisagem tem a imaginação como uma faculdade
fundamental de sua interpretação. Os devaneios atribuem sentido na leitura da imagem urbana,
para o filósofo francês Gaston Barchelard, eles são indispensáveis à vida. Na leitura de uma
cidade, precisamos ter cuidado para não confundirmos as imagens do mundo real e as que são por
nós inventadas, motivadas por um desejo de ver e encerrar dentro de um conceito ou dentro de um
repertório o objeto observado. É preciso dizer que por trás das imagens oferecidas à
objetividade do olhar, existem outras que se mostram em doses homeopáticas, que são aquelas
imagens instantâneas, surgidas da relação direta do sujeito com a cidade, principalmente quando
ele é dominado por um estado de devaneio.
Em "Incidentes" (4), Roland Barthes é um turista no Marrocos, e ele registra o que vê e ouve do
cotidiano de um lugar, ao sabor de um fascínio imediato, sem uma exigência metodológica. A
cidade é uma escrita que o intelectual lê nas horas de recreio e identifica outras imagens,
livres de teorias, mas imagens singulares que apontam para a particularidade de um lugar e de
quem o observa e imagina. A cidade é um espetáculo de imagens e de metáforas. O técnico, muitas
vezes limitado dentro do seu próprio saber, é um mero espectador, na sua observação passiva nada
pode fazer, a não ser traduzi-la para um código que demande uma intervenção técnica. Quando se
desconhece o encanto das imagens inventadas sobre as imagens percebidas, se apaga a poética.
2. O Armário do Tempo
A passagem do tempo imprime no corpo da cidade um mundo de imagens que falam de várias
histórias. Passado, presente e possibilidades de futuro são acidentes geográficos que marcam a
linguagem urbana. Para Bérgson:
"...se aprendemos as coisas sob forma de imagens, é em função
de imagens que devemos colocar o problema." (5) É na forma de imagens que a cidade ganha uma
existência concreta na memória de seus habitantes e visitantes, e documenta as mensagens do
tempo. Sem as imagens que habitam sua própria memória, a cidade estaria perdida num fragmento do
tempo, sem as recordações o presente não teria continuidade. É nas suas lembranças e recordações
que ela tece a sua história, e busca na infância os antecedentes de sua contemporaneidade.
É graças à magia de uma memória que as imagens do seu passado não se precipitam num abismo
escuro onde o tempo se esconde. Através de imagens os enigmas do tempo se acumulam e datam um
território geográfico. Quando o homem quer penetrar em seu próprio passado, ele recorre a essas
imagens, e encontra nelas motivos para recordações. É sempre possível a partir de imagens
urbanas de outros tempos, como a arquitetura, ruas, praças e monumentos que caracterizam um
centro histórico, encontrar a infância da cidade. O passado já não é mais para os olhos do
presente. As imagens que armazenam ou evocam a memória é um túnel que nos leva a revisitar o
passado, dentro de um contexto que deverá nos ajudar a dar sentido ao presente através do qual
vamos compreender este passado. Os vários tempos vividos de uma cidade estão encenados nas
imagens de seu espaço físico, nos significantes de seus núcleos históricos e nas imagens
inventadas por um sonhador urbano que revive na imaginação aquilo que o progresso anulou.
"E o sonhador se transforma no ser de sua imagem."(6) Fisionomias de outrora retornam em
forma de imagens de sonhos diurnos.
3. Multiplicidade da Aparência
A cidade nos fornece simultaneamente imagens dispersas e contraditórias que vão se infiltrando
na percepção e fazendo provocações à memória. "As verdadeiras imagens são gravuras. A imaginação
grava-se na memória. Elas aprofundam lembranças vividas para se tornarem lembranças da
imaginação."(7) As imagens urbanas gravadas na memória se multiplicam na imaginação. A cidade
além de ser o território onde fixamos imagens que nos levam a um pedaço do passado, às vezes
muito particular, um passado que nos pertence, ela é reconstruída pela imaginação em outras
imagens, em outros cenários; múltiplas imagens que podem apontar ainda para um tipo de
organização social, uma apropriação estratégica do espaço, a política ou a economia dominante da
cidade. Existem várias hipóteses para se decifrar os enigmas das imagens urbanas, quando elas
não são efêmeras imagens da publicidade, onde o enigma se desfaz no consumo. Na cidade moderna
há um excesso de imagens, na maioria das vezes, imagens sem passado e sem futuro, passageiras. O
mundo imaterial é mais sedutor que o mundo real, tudo se transforma em imagens. A ôPop-artö
percebeu a força e a importância dada a essas imagens e fez delas as naturezas mortas da
sociedade moderna, o próprio Andy Warhol fez de seu corpo uma imagem da mídia americana. O
cinema também compreendeu o que significava a imagem da cidade moderna. Em
ôWeekendö de Godard: a primeira imagem da cidade é um longo engarrafamento, o ícone do desespero
de um fim de semana de uma sociedade motorizada. Em "Paris, Texas" de Win Wenders: a cidade tem
uma semelhança com o deserto pela falta de intimidade. No deserto há quase uma ausência de
imagens, ao contrário da cidade onde há um excesso. O personagem do filme não se identifica nem
na ausência nem no excesso de imagens. "Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de
imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos
segundos na televisão."(8) Na civilização da imagem as faces da cidade são estilhaços de
linguagens que acendem e apagam como néon. Chuvas de imagens multiplicam e diversificam sua
aparência como espetáculos.
Notas:
1. BATAILLE, George - A Experiência Interior, Trad: Celso Libanio Coutinho,
Magali Montagne e Antonio Ceschin; São Paulo, Ática SA û 1992. p 7.
2. CALVINO, Ítalo - Seis Propostas para o Próximo Milênio, Trad: Ivo Barroso.
São Paulo; Companhia das Letras, 1990. p 104.
3. BENJAMIM, Walter - Diário de Moscou. Trad: Hildegard Herbold. São Paulo;
Companhia das Letras, 1989.
4. BARTHES, Roland - Incidentes. Trad: Julho Castañon Guimarães. Rio de
Janeiro; Guanabara, 1977.
5. BERGSON, Henri - Matéria e Memória. Trad: Paulo Neves da Silva. São
Paulo; Martins Fontes, 1990. p 1
6. BACHELARD, Gaston - A Poética do Espaço. Trad: Antonio da Costa Leal. São
Paulo e Lídia do Valle Santos Leal. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores, 1979. p 310.
7. Op. cit. p. 217.
8. CALVINO, Ítalo - Op. cit. p. 107.
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