Almandrade
A arquitetura se renova e modifica a visualidade urbana através de uma mistura de imaginação e
realidade, ela é também feita de sonho e de informações armazenadas na história que contribuem
para pensar o presente. Mesmo que o discurso da arquitetura moderna negue o passado, tenha a
pretensão da funcionalidade e da racionalidade; na concepção formal ou na solução espacial
moderna existe algo compreensível somente pela arte ou pelo mundo do sensível.
O acervo arquitetônico conserva para a memória uma imagem do tempo e uma poética, documenta
modelos de vida e de conhecimento. Quando deparamos com uma produção arquitetônica que tem como
princípio básico a economia do metro quadrado, adequação e construção de espaços por solicitação
do mercado imobiliário ou para solucionar problemas de ordem social, é porque estamos vivendo
numa cidade onde a carência permeia todas as atividades urbanas. Neste caso, o arquiteto nada
mais é do que um artesão da sociedade de massa, ele projeta e constrói abrigos, habitações,
fortalezas para alojar o homem e suas máquinas.
É preciso prestar um pouco de atenção ao inútil, à fantasia. Habitar e pensar são atividades do
homem. Vivemos em espaços arquitetônicos, mas a arquitetura não se resume a ambientes
construídos para acomodar o corpo, ou a fachadas escandalosas ilhadas na totalidade de sua
indiferença. Ela marca a cidade, a memória e a psicologia de quem nela vive. Como a fantasia
da casa natal que nos fala Barchelard, ela sempre estar de volta nos sonhos. Se a arquitetura
não se preocupa com a cidade, com o pensamento, não é uma idéia antes de ser uma construção,
não participa do processo cultural, não significa uma época, é um acúmulo de prédios ou
monumentos sem identidade, a não ser a de uma sociedade que reduziu tudo ao valor de troca e
negou os valores humanos sem cotação no mercado.
A arquitetura sempre foi entendida como a arte de construir espaços, e compete a arte devolver
ao homem seu desejo ferido de imortalidade, inventar símbolos e deixar que a imaginação projete
neles sentimentos que contornam a monotonia da existência ou do destino. A arquitetura antes de
ser um espaço concreto e seguro destinado às funções da vida pública e privada, é um lugar
simbólico, um depósito da memória, um problema cultural inscrito na história. As grandes obras
de arquitetos consagradas pelo tempo são imagens perseguidas por uma idéia de arquitetura.
Sem dispor de uma teoria e o conhecimento da história fica-se impossibilitados de tomar
partido, de fazer avaliação crítica. O discurso da mídia descaracteriza significados, dita
modas que encenam o presente, muitas vezes sem participar da rede de conhecimentos e reflexões
indispensável ao exercício de um fazer profissional. E tudo vira genial, como certos edifícios
chamados de "pós-modernos", mas no sentido pornográfico, que fingem renovar com equívocos
indiferentes ao moderno. Uma arquitetura que não leva em conta particularidades da natureza e
da cultura, é o produto de uma sociedade extravagante que gasta sua própria imagem construindo
obras para desperdiçar tecnologias.
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