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A Obra de Arte e o Espectador
Almandrade


O olhar cretino
do voyeur
perfura o quadro
e descobre uma ilha.


   Será que o azul do quadro representa o céu? - E se o céu fosse vermelho e as nuvens amarelas, responde o pintor. - O olhar ansioso do espectador se perde diante da obra de arte, na busca desesperada de um sentido que possa ser traduzido na fala. Estamos num mundo dominado pela fala. É sempre a mesma interrogação: o que significa? O que quer dizer o artista? Com a ajuda da imaginação, o olhar do espectador descobre um mundo, onde os sentidos pousam e decolam como os aviões nos aeroportos. Tudo pode ser acrescentado à obra, mas ela está sempre se deslocando para outras possibilidades de significação.

   Nas palavras de Merleau-Ponty:

   "Não temos outra maneira de saber o que é um quadro ou coisa senão olha-los, e a significação deles só se revela se nós os olhamos de certo ponto de vista, de uma certa distância e em um certo sentido; em uma palavra, se colocamos nossa conivência com o mundo a serviço do espetáculo".

   Entre o objeto de arte e o espectador existe uma experiência, um aprendizado, um saber utilizado pelo olhar. Há um poder do olhar em inventar sentidos sobre o que se vê e, na medida que a percepção se abre para o mundo particular do objeto, instala-se no seu circuito. O olhar responde às suas provocações desenhando imagens imaginárias, cujos contornos não são reflexos de verdades prévias, mas a realização do espetáculo de reaprender a ver. O conhecimento não tem total domínio na leitura do objeto de arte, ele pode ser aquilo que se vive em um determinado instante. Se as novas evidências são verdades, na arte essas verdades são inesgotáveis.

   Para Cézanne, um quadro não representa nada. Ele é aquilo que percebemos, o seu sentido não é aquilo que é transformado em idéia, em fala; é aquilo que ele é antes de ser enquadrado em qualquer tema ou teoria. É algo que toca num determinado ponto singular da sensibilidade do observador. Só se tem acesso à arte a partir da própria obra, através de um contato direto com ela, um processo ligado à experiência e ao pensamento. É fundamental ir do conceito ao objeto e do objeto ao conceito. Uma obra de arte é a soma de tudo que ela contém: forma, cor, linha, volume, textura, gesto, conceito, idéia, etc..., ela constrói um campo visual que solicita do olhar o exercício do conhecimento e da imaginação.

Quem não sabe olhar
jamais contemplará
a escuridão.


   Olhar uma obra de arte é adquirir uma sabedoria e um estilo de ver. Ela não se limita ao desejo do observador, que procura relacionar tudo que vê a uma referência que ele tem do mundo e das coisas. Por estar inserido numa sociedade e numa linguagem que ele não tem poder de controle, por onde aprende a ver, pensar, sentir; sua percepção é determinada pela capacidade de mergulhar no mundo da linguagem. Perceber uma obra de arte é confrontar-se com uma linguagem que esconde um segredo inviolável perseguido pelo olhar que multiplica suas imagens na imaginação.

Uma pintura:
Meditações
de um pincel
que disseca
a beleza.




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