Principal
Editorial
Tonitruâncias
O Cisco de Olho
Colunas
Cinema & TV
Filmoteca
Programação
Teatro
Poesia
Quadrinhos
Ciscando
Galeria
Livros do Cisco
Todos os Autores
Grupo de Discussão
Piadas
Doações
Serviços
Créditos
E-mail
leitor(es) de bom gosto online
|
|
O Descaso pela Arte
Almandrade
"Na época atual, a fatalidade de toda e qualquer arte é ser contaminada pela inverdade da
totalidade dominadora."
(Adorno)
A arte como um trabalho intelectual que amplia a experiência que o homem tem do real e do
imaginário, se opõe ao trabalho alienante da sociedade moderna. Por outro lado, no meio de arte
convivem compromissos e interesses alheios à própria arte; suas condições de produção se
encontram dentro de um campo social e político, sujeito a um conjunto de pressões. O Estado, os
patrocinadores e o mercado, visando interesses imediatos, privilegiam, muitas vezes, artistas
cujas obras pouco acrescentam ao mundo da inteligência.
No espetáculo montado pela política, tudo se confunde, tudo passa pela ideologia do poder e
pela estética do espetáculo, como: a educação, a economia, a ecologia e os discursos políticos.
Nesse palco, a cultura foi relegada a uma coisa mundana, uma espécie de conhecimento ornamental
que serve à mídia e ao jogo social; a arte perdeu sua singularidade e suas qualidades que a
colocavam acima das banalidades do cotidiano, deixando de ser o olhar que interroga, que
transforma cores, texturas, formas, experiências sensoriais em meio de conhecimento. Nesta
relação cultura e poder, insere-se a "crise da arte", onde o poder tem prevalecido diante da
pesquisa estética.
Enquanto trabalhos que têm alguma importância pela pesquisa neles investidos, passam
despercebidos trabalhos diluidores da informação, reproduções de clichês divulgados pela mídia
são celebrados pelos consumidores de decorações e divertimentos culturais. Uma sociedade sem
demandas culturais acaba fazendo da arte uma atividade menor. O cotidiano da política e da
economia faz o discurso que se infiltra em todos os espaços, expulsando a cultura para a
periferia dos interesses da cidadania. Os artistas, que mesmo sem construírem uma obra, tem os
seus reconhecimentos garantidos pela indústria da publicidade, se sobrepõem àqueles que tem uma
vida dedicada à pesquisa e ao trabalho de edificar uma linguagem, contribuindo para a demolição
da ética e do pensamento crítico.
Sem uma consciência crítica e sem uma convicção ética, artistas, críticos, intelectuais,
administradores culturais inventados pela mídia e pelo poder político tomam posição e decidem
contra a autonomia e a independência do trabalho de arte. Promovem e divulgam os bens culturais
em proveito próprio, para se sustentarem de forma privilegiada numa relação de poder. û Nada
mais paradoxal, por exemplo, do que essas leis de incentivo a cultura. Por que incentivar a
cultura se ela é um componente essencial para o enriquecimento da sociedade? Antes de ser uma
questão de lei, a cultura é uma questão de sensibilidade e de cidadania.
Há um desinteresse geral pela cultura, que ocupa um lugar cada vez menos importante nos
discursos do cotidiano. Para ser artista, antes de mais nada, é preciso um tráfego de
influências pessoais, acesso à mídia e aos patrocinadores, que fazem da arte um produto incapaz
de atribuir um sentido à existência da sociedade. E quem realmente patrocina a arte? û "Os
contribuintes pagam aquilo que as empresas recuperam através de isenções fiscais pelas suas
doações, e somos nós que verdadeiramente subvencionamos a propaganda." (Hans Haacke). Numa
sociedade comandada pela economia, tudo se resume à lei da oferta e da procura.
A arte, burocraticamente falando, é mais uma imagem carente de sentido que divulga um certo
prestígio social e econômico, e menos um meio de conhecimento indispensável para o homem
contemplar o mundo. Se a obra de arte é expressão de uma sociedade, testemunho de um tempo, de
um estágio de conhecimento, renunciar à sua inteligibilidade é renunciar à história.
A política, por sua vez, apropriou-se da cultura e fez dela um verniz para animar ou dar um
polimento ao discurso político. A arte perdeu sua inocência, ela agora é objeto do mercado, do
Estado e de outras instituições que desconhecem seus mecanismos de produção e sua história. Se
os partidos políticos que falam de cultura em seus programas de campanha querem fazer alguma
coisa pela cultura, não deveriam fazer coisa alguma, e sim, devolverem aos intelectuais, aos
artistas, a quem trabalha diretamente com a cultura, o poder de decisão e o comando do processo
cultural. É preciso devolver à arte seu território perdido.
Quem atualmente exerce o poder sobre o destino dos bens culturais, trabalha, direta ou
indiretamente para o mercado, ou é burocrata de carreira que pouco entende das linguagens
artísticas e suas leituras. Acabam desprezando os seus valores à serviço do senso comum. Muitas
instituições que lidam com a arte, sem recursos econômicos e sem um corpo técnico ligado à área,
perderam a importância e a autonomia, quando não são agências de eventos irregulares sem um
projeto definido. A mídia dominou a cultura e o artista deixou de lado a indagação da linguagem
da arte, abandonou a solidão do atelier, para se tornar um personagem público do teatro social.
E a proliferação de um produto designado como arte e do discurso estético, sem a arte, pode
significar o desaparecimento da própria arte.
Comente esse texto:
comentário (s) até agora.
Outros textos do autor
Volta a O Cisco de Olho
Volta a todos os autores
|
|
Mala direta

|