Almandrade
1
A arte é uma fala singular, especializada, que permite operacionalizar o absurdo, o
contrário, a inversão. A seriedade do riso. A economia da emoção. Importantes são os seus
problemas, o uso de uma formalização mais precisa contra a superstição de um saber fácil e a
ilusão de uma totalidade sem relações verticais. Como desmontar esta máquina semiótica
(objeto/arte) ou acioná-la? É a grande dúvida. O segredo íntimo que irrita a ansiedade de uma
satisfação imediata dos sentidos. É oportuno se falar de uma política localizada; a ocupação do
aparelho arte em construir, a um certo nível, um código incomunicável, intrigante, que altera a
disciplina que rege o consumo de signos.
2
A obra de arte é portadora de uma profundidade ruidosa; o sentido, um buraco de atrito para
os olhos.
3
Designamos como arte um saber, uma experiência ligada ao sensorial, privilegiando ou
problematizando o olhar. Um espetáculo. Um enunciado do silêncio, de um silêncio tagarela,
provocador de retóricas. A minha experiência na arte me transporta a viver dialeticamente entre
o riso e a seriedade. Um projeto voltado para as relações de pensamento com a visualidade (ou
melhor, o sensorial). Um olhar debruçado sobre si mesmo. Desenhos, pinturas, objetos, esculturas
e instalações, diferentes suportes articulados entre si, por uma noção de ordem do mínimo;
economia de traços, de cor, de gestos, de materiais, uma assepsia construtiva como se houvesse
um cálculo frenético por trás do fazer.
4
A minha razão constrói as minhas fantasias e os meus sonhos diurnos, na tentativa de
transformar descontentamentos da vida em sensações agradáveis, inventando uma ilusão, que é este
enigmático objeto do olhar: a "obra de arte". Talvez um pequeno exercício de deslocamento para
chamar a atenção de particularidades e de um olhar além das aparências. O destino destes objetos
fantasmáticos, construídos no território da arte, é acionar o pensar e o sensível. Meditam sobre
o trabalho da arte. Estabelecem sutis pontos de equilíbrio entre contemplação e raciocínio, cor
e espaço, luz e sombra. Insinuam um modesto conhecimento sobre o mundo.
5
Arte ou produto de uma ciência maldita que goza de suas próprias "inutilidades"?
6
O olhar depende da luz. E a arte depende do olhar e da imaginação. Nem tudo é possível ao
processo de verbalização, existe uma intimidade da obra impenetrável aos conceitos, que
pertencem a regiões obscuras, apenas experimentada nas sensações dos observadores. A arte escapa
das definições, nunca é totalmente apreendida e resolvida, ela sempre remete a outras leituras e
conceitos.
7
Um dos grandes incômodos da arte para o espectador é descobrir o seu sentido, um enigma que
o exercício de olhar e o tempo vão se encarregando de decifrar ou de formular hipóteses de
leituras ou soluções.
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