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05.09.2004
Acidentes ecológicos: triste divertimento
Almandrade
Os inúmeros desastres ecológicos, que vêm conduzindo o mundo a um estado melancólico, não passam
de discursos que se acomodam tranqüilamente no cotidiano da mídia. A preocupação com o meio
ambiente, com o equilíbrio ecológico, é objeto de vários discursos da cultura dominante,
mostrando as agressões e os perigos que nos ameaçam como uma naturalidade da era industrial. Ou
um acidente apenas desagradável. Essa racionalidade que rege o progresso do mundo moderno
desprezou a afetividade como uma referência para a convivência das pessoas e estabeleceu uma
dicotomia entre o homem e a natureza. O homem moderno é o principal predador do seu próprio meio
ambiente, o dominador da natureza.
O meio ambiente nos meios de comunicação vive sua "oralidade", mas longe da reflexão, as
questões passam para o plano do discurso, mantendo a natureza como produto de consumo. A fala
sobre a preservação da natureza é filtrada por interesses políticos e econômicos. Existe um
cuidado da mídia em mostrar e investigar a realidade espetacularizando-a e disfarçando as causas
principais. Fazendo do espectador um voyeur romântico de um divertimento triste. Nossa paixão é
canalizada para saber mais sobre o fato, a denúncia, o esclarecimento minucioso e histérico da
verdade, e não para reagir ao fato. O humor da sociedade capitalista se apropria de tudo,
inclusive dos protestos e dos discursos sobre as agressões ao meio ambiente, para seu próprio
gozo ligado ao lucro e para disfarçar responsabilidades.
São irreversíveis os danos ecológicos e acabam por apressar o tempo do próprio homem. A
estupidez da economia moderna em pensar o homem como exclusivamente força de trabalho, sem
sentimento e sem emoção substituiu o desejo pelo desejo de consumo e conseqüentemente a
psicologia dos sujeitos. Nunca se falou tanto sobre meio ambiente e passivamente estamos
assistindo os desastres ecológicos como um acontecimento ou um destino histórico, isto é, como
se o modo de produção, o modelo de desenvolvimento econômico e os interesses de classe nada
tivessem a ver com os fatos em questão. Essa idéia de desenvolvimento econômico é insustentável.
No desespero da ampliação produção / consumo, uma guerra é inevitável contra a natureza, a ética
e quaisquer princípios de valores. No vale tudo por dinheiro não há limites.
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