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03.10.2004
Entre a cultura e o mercado
Almandrade
"A insuficiência da estrutura de museus e galerias, por mais avançadas que sejam, é hoje em
dia flagrante e trai, em muitos casos, o sentido profundo, a intenção renovadora do artista"
(Hélio Oiticica). Com o triunfo do mercado de arte, esta insuficiência que nos fala Oiticica
passou do estrutural, do físico, para o cultural. Os espaços destinados ao trânsito dos objetos
de arte são sinalizados por outros códigos que até desprezam a arte como um fazer mental. O
mundo dos patrocinadores, do público das vernissagens é dominado pelo olhar do turista que viaja
em busca de estereótipos, para uma rápida relação de divertimento, de algo que agrade e alimente
um status. Um ambiente de amenidades, de rara descontração, solene, afasta o público que poderia
ter uma compreensão mais natural dos processos simbólicos. O espaço social / cultural é
restrito, contornado pelo mundano. No que tange a circulação e divulgação, a arte acabou sendo
condenada às regras e aos mecanismos do mercado, com seus espaços seletivos, cujos critérios se
limitam aos da sociedade de consumo. Muitas vezes vai-se a uma exposição por um compromisso
extra cultural, uma obrigação social. E do ponto de vista do mercado a obra é apenas uma opção
de investimento.
A arte trabalha o inconcebível, a experiência sensorial recalcada nas operações
mercadológicas. Esta extravagância de transformar um produto destinado ao pensar em fetiche
cultural de um público privilegiado economicamente, (sua condição de mercadoria levada ao
extremo), faz da arte, por uns momentos, um produto descartável, fora do valor de troca. É o
mercado que financia a publicidade do trabalho, paga a crítica e sustenta o artista numa
sociedade dominada pelo capital, neste caso não podemos negar sua importância. O ambiente do
mercado de arte, pouco fascinante para quem busca o essencial da cultura, afasta o pequeno
público mais ligado ao saber, sem dispor de poder aquisitivo indispensável para o consumo de
obras de arte. Mas nada impede a quem dispõe de um mínimo de capital intelectual de ver uma
exposição, a entrada é franca, e com sentimento de "penetra" é possível se apropriar através do
olhar de um bem ou meio de conhecimento, a princípio endereçado ao outro.
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