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07.11.2004
Rubem Valentim
Almandrade
Um artista intuitivo que logo cedo teve a sorte de descobrir Cézanne, aprendeu noções de
espaço na pintura e percebeu ainda que pintar era um trabalho minucioso e rigoroso. Aliás, "o
verdadeiro destino de um grande artista é um destino de trabalho" (Bachelard). E foi justamente
esta dedicação a uma vida de trabalho que fez de Rubem Valentim um mestre virtuoso; talvez o
primeiro pintor baiano a enfrentar de frente a modernidade. A cultura popular, as imagens
afro-brasileiras eram materiais de pesquisa plástica, matéria-prima para sua arte, submetida a
uma disciplina e organização rigorosa, se constituíam em imagens pictóricas no espaço da tela
aspirando uma universalidade. Sua arte acabou se aproximando da tendência construtiva emergente
na arte brasileira na época. Não era, com certeza, um artista concreto, mas chegou a representar
o Brasil, na I Bienal de Arte Construtiva, em Nuremberg, juntamente com o ortodoxo concretista
paulista Waldemar Cordeiro.
Valentim desenvolveu sua arte a partir de signos da cultura afro ao som de atabaques que
reclamavam uma erudição. O artista ao reduzir o símbolo à sua essencialidade primária,
submetia-o à lei da pintura: proporção, simetria, cor, etc. Portanto, a importância do seu
trabalho não se resume à origem de sua sintaxe, ou ao que ela pode representar. O trabalho tem a
autonomia de sua fantasia e assim será lido em tempos futuros. Conhecido principalmente como o
geômetra da cultura afro-brasileira, sua pintura ultrapassa essa objetividade mais visível. Na
definição do próprio artista: "A arte é um produto poético, cuja existência desafia o tempo e
por isto liberta o homem. Isto me afeta porque sou o indivíduo tremendamente inquieto e
substancialmente emotivo".
O artista é sempre um personagem do romance real que passa vida querendo ver, trabalha os
signos até transpor sua realidade social e histórica, como se fossem imagens de sonho. Por trás
dessas figuras emblemáticas da pintura deste "monge do candomblé", há um mundo de inquietações,
revoltas e angústias, que faz parte da intimidade e da cidadania do artista. Um imaginário.
A arte para Valentim era mais que um trabalho, era um vício; era mais que um rito, era um
raciocínio delirante. Era um artista capaz de passar 24 horas, sem parar, falando de arte, sem
perder o entusiasmo e sem esgotar tudo o que deseja falar. "O tempo é minha grande preocupação û
uma das minhas angústias é ver chegar o tempo final sem poder realizar tudo que imaginei"
(Depoimento do artista, 1976). A arte para Valentim era um sonho imprescindível à vida, e
interminável porque a imaginação estava sempre em atividade.
Através do olhar do artista, signos secretos provenientes da cultura popular passaram para o
mundo complexo da arte onde são contemplados como sintaxe do belo, assim como Claude Monet
contemplou as ninféias. Somos então convidados a participar de um ritual, olhar estes símbolos
de contornos rigorosos, com profundidade, distância e tranqüilidade. Não estamos diante de
coisas, mas elementos simbólicos de uma outra religião secreta, inventada pelo artista.
Fantasia? A obra não responde, nos devolve as indagações. Era um artista que acreditava na arte
como motivo essencial da vida, ou quem sabe, que a arte pudesse substituir a religião e até
estruturar o cotidiano.
Mas o que mais marca o trabalho de Rubem Valentim é sua proposta de coerência como método de
construção da obra. Pintor de vocação construtiva, seu trabalho passou por diversos momentos,
sempre marcado por uma paixão: a vontade de refletir e pintar com austeridade. Dentro de uma
atmosfera mítica, como se pintar fosse dialogar com alguma divindade. Nos momentos de plenitude
ou vazio, de excesso ou contenção pictórica, da cor ao mergulho no silêncio do branco; quer
sejam: pinturas, relevos, objetos, esculturas; o desejo de uma ordem construtiva estava presente
sinalizando a coerência de um artista. Avesso às modas e sem fazer concessões: uma lição de
mestre.
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