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05.12.2004

O olhar infantil da máquina fotográfica
Almandrade




   Antes de mais nada, o fotógrafo necessita não só dominar o aparelho e a técnica fotográfica como também uma aparelhagem teórica/crítica, meios indispensáveis para inventar uma forma de visualidade. Acreditar na maravilha de um aparelho que tem o "real" como interlocutor? Eis a questão: o realismo fotográfico com suas manias de reconstruir a cena com a precisão e a matemática do olhar dominante, o perfeito análogo do outro.

   Um pequeno detalhe para provocar nossa desconfiança com relação à legibilidade das imagens: estamos trabalhando com signos e códigos, sinalética ligada a uma forma de pensar. Não há momentos de neutralidade, uma política de orientação da visualidade organiza a superfície fotográfica. Na facilidade de expor com grande habilidade técnica, na foto não pensada, tudo aparece ligeiramente feliz, parado no tempo e longe dos conflitos. Até a miséria nos é mostrada fantasticamente na "banalidade do belo". Seu método (se podemos falar em método), neste caso, é o empirismo de ver e como resultado o bloqueio da indução ao raciocínio.

   Somente a produção de "realidades" deveria interessar na fotografia para provocar os estereótipos de reproduzir o chamado real que diariamente é preparado e veiculado na indústria cultural. A simplicidade quase clássica com que o olhar/cego da máquina fotográfica capta o "real" e o mostra misteriosamente, dispensa uma operação de pensamento. Quando a pura intuição dirige os fotógrafos, não se violenta os princípios de verossimilhança determinados pelo olhar institucionalizado. É preciso pensar, fazer cuidadosas analogias, ter uma intencionalidade, preparar o que se vai fotografar para se evitar as situações de comodidade. A propósito, das fotos que nos são mostradas cotidianamente, poucas conseguem desorientar a percepção condicionada. É mais ou menos como se alguém pensasse por nós. Um discurso fechado.

   Tecnicamente, podem ser consideradas perfeitas, mas signos excessivamente corretos e puros, enxertados de uma cultura ou uma moral, despossuídas de ambigüidades. Nada resta para nos despertar um pouco de dúvida. A "verdade" se apresenta indiscutível no código fotográfico. Existe uma superfície previsível com a qual a fotografia transa, é preciso violentá-la e não reproduzi-la na sua materialidade, para se observar os vazios que a disciplina camufla e a distância entre a linguagem e a concepção de realidade.

   A fotografia e o compromisso com aquilo que se chama ideologia do olhar não é discutido. Fomos hipnotizados por este voyeurismo requintado e ainda não notamos nossa prisão ao código, ao truque da perspectiva, ao realismo. Reconstrução do espaço renascentista. Um problema se coloca ao fotógrafo: como se pensar por imagens, como se inventar acessórios de intervir na própria convenção fotográfica? Para muitos, é muito simples, basta saber manejar uma câmara fotográfica e tudo está resolvido. Assim sendo, tudo se resume ao senso comum, ao naturalismo tradicional, o que não era visível continua invisível. Um espetáculo grosseiro de imagens que não proporciona a distanciação nem a catarse crítica.







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