Amen,
França / Alemanha / Romênia / EUA, 2002.
Com ULRICH TUKUR, MATHIEU KASSOVITZ, ULRICH MÜHE,
MICHEL DUCHAUSSOV, ION CARAMITRU, MARCEL IURES, FRIEDRICH VON THUN, ANTJE SCHMIDT,
HANNS ZISCHLER, SEBASTIAN KOCH, ERICH HALLHUBER, BURKHARD HEYL, ANGUS MacINNES,
BERND FISCHERAUER, PIERRE FRANCKH.
Baseado na peça Der Stellvertreter, de ROLF HOCHHUTH.
Música: ARMAND AMAR.
Produtores associados: PIERRE GRUNSTEIN, DIETER MEYER,
ROLAND PELLEGRINO.
Fotografia: PATRICK BLOSSIER.
Montagem: YANNICK KERGOAT.
Desenho de produção: ARI HANTKE.
Produção: CLAUDE BERRI, ANDREI BONCEA, MICHÈLE RAY-GAVRAS.
Roteiro: COSTA-GAVRAS, JEAN-CLAUDE GRUMBERG.
Direção: COSTA-GAVRAS.
Estréia no RJ: 25.12.2003.
Sinopse e comentário.
Drama histórico. Alemanha, 1936. Enquanto investigava a morte de sua
sobrinha, assassinada numa câmara de gás por ser doente mental, o agente especial nazista Kurt
Gerstein, químico especializado na área de higienização, é enviado para os campos de
concentração de Auschwitz, na Polônia, a fim de acompanhar o tratamento dado aos judeus dados
como deportados do país. Aterrorizado com a visão do massacre em massa nas câmaras de gás, que
até então desconhecia, Gerstein retorna a Berlin com a certeza de que deve denunciar a ação do
governo de Hitler, para que o povo se rebele contra o ditador. Não lhe dão ouvidos, no entanto,
os pastores da Igreja protestante da qual faz parte, da mesma forma que vira-lhe as costas a
Igreja católica, cuja ação do Papa seria essencial para um recuo da política nazista. Sofrendo
intensa pressão pelo cargo que ocupa (e pelas aparências que tem de manter), e recusando-se a
deixar a Alemanha, Gerstein receberá a ajuda do jovem padre jesuíta Riccardo Fontana, cuja
proximidade de sua família ao Papa Pio XII poderiam fazer chegar ao mundo as informações quanto
à matança em escala industrial de seres humanos realizada na Alemanha. Assim, enquanto aguarda a
ação de Fontana junto à Igreja, e do embaixador da Suíça junto ao governo americano, Gerstein
põe em risco a própria vida fazendo tudo para retardar o processo de fabricação e transporte do
gás Zylon, utilizado nas câmaras, e sendo cada vez mais pressionado por seus superiores para
aumentar aquilo que chamam de "produtividade".
Quando escolheu tema tão provocante para seu filme, o diretor grego
Constantin Costa-Gavras poderia esperar tudo, menos indiferença. Amém, sua visão quanto
ao silêncio da Igreja católica frente ao holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, foi alvo
de críticas tanto da instituição chefiada pelo Papa quanto da imprensa. Falou-se que o filme
tratava de assunto batido, sem trazer nenhum elemento novo ao debate. Reclamou-se do estilo
"conservador", da narrativa tradicional e da falta de contundência, comparando este a outros
filmes do diretor, principalmente Z e Sessão Especial de Justiça. Por outro lado,
defendeu-se que Amém estaria na verdade usando o passado para falar do presente, e que seu
verdadeiro questionamento seria quanto à omissão da comunidade mundial diante da miséria que a
globalização financia.
Exageros à parte, se há pecados a apontar o principal deles é o da
promessa não cumprida. No pôster de Amém (criado por Oliviero Toscani, o publicitário
polemizador famoso pela campanha da Bennetton), uma cruz funde-se à suástica, sugerindo um
acordo diabólico entre católicos e nazistas com vistas ao extermínio dos judeus. À imagem forte
e provocadora, no entanto, contrapõe-se um filme contido, um comentário quase tímido onde se
esperava uma polêmica manifestação. Ao que parece, Costa-Gavras preferiu fazer cinema do que
redigir um panfleto. Contou uma boa história, com princípio, meio e fim, apresentou um
personagem interessante (Kurt Gerstein, que realmente existiu, ao contrário do fictício Padre
Fontana), e o pôs vivendo uma trama envolvente e repleta de possibilidades dramáticas.
Historicamente, se acertou ao mostrar a preferência de Pio XII por Hitler como um mal menor,
diante do verdadeiro diabo que seria o comunismo representado por Stálin, escorrega ao tirar
tanto do Papa quanto do Cardeal qualquer ambigüidade. Para o cineasta, Pio XII era um banana
hesitante, que sofria mais com a destruição de uma biblioteca eclesiástica do que com os fiéis
que estavam dentro dela no momento do bombardeio aliado. A fim de enfatizar a luta solitária do
cidadão contra o sistema, o roteiro utiliza o recurso de dar a todos os demais personagens uma
visão negativa, vilanesca e bidimensional, inclusive minimizando a importância histórica da ação
da Igreja que, apesar de apresentar posições anti-semitas, deu abrigo a um número considerável
de famílias judias, salvando-as da morte. Também é correto o temor, mostrado no filme, do
Vaticano no caso de um pronunciamento direto contra a Alemanha. A resposta, uma imediata invasão
de Roma, representaria não só o fim de uma ajuda, ainda que tímida, aos perseguidos judeus, como
colocaria os próprios católicos na lista de perseguidos.
Em entrevistas, Costa-Gavras lembrou que na época não havia sindicatos,
nem uma imprensa organizada; tinha a Igreja, assim, a obrigação de informar o mundo e
posicionar-se frente ao genocídio em massa (mais de quatro mil seres humanos eram enviados por
dia às câmaras de gás) que vinha sendo perpetrado dentro da Alemanha. Há quem diga tratar-se de
um conflito mais ético do que político. No entanto, Eugenio Pacelli, o Pio XII, estava longe de
ser o ingênuo que o filme apresenta. Em artigo no Jornal do Brasil, Francisco Carlos Teixeira
da Silva, professor de História da UFRJ, lembra que, antes do papado, a atuação religiosa como
núncio em Berlim permitiu a Pacelli travar relações com a alta hierarquia militar alemã. Não lhe
eram desconhecidas as posições nazistas, tampouco a ação criminosa. Era inclusive dado como
certo que, após eliminar os judeus, Hitler não tardaria em partir para cima dos cristãos.
É cinematograficamente que Amém distancia-se ainda mais de sua
propaganda. A tal narrativa "tradicional", tão criticada, acaba revelando-se um acerto, em face
do que poderia ser se o diretor resolvesse inovar ou abraçar estéticas pós-modernas. O drama de
Gerstein é construído, contextualizado e didaticamente apresentado, e em torno de sua dolorosa
frustração com o Estado a que serve Costa-Gavras cria um universo de suspense e angústia digno
dos melhores narradores. Acompanhada de poderosa e melancólica trilha sonora (a cargo de Armand
Amar), a imagem dos trens partindo cheios de judeus e retornando vazios vai se repetindo com
tamanha freqüência que se torna enervante (e houve quem criticasse a excessiva utilização do
recurso). A violência e o terror, embora presentes em cada cena, jamais chegam diretamente ao
espectador. É através de Gerstein, de seus olhares e da movimentação de seus músculos faciais
(que sempre o traem, segundo um oficial nazista) que o público entende que se está diante da
morte e da crueldade. Interpretado de forma magnífica por Ulrich Tukur, o personagem é o herói
típico dos filmes de temática social, que se recusa a fechar os olhos e luta praticamente
sozinho contra a injustiça cometida por seus pares. Pena ser o filme dublado (Amém é falado em
inglês, e a versão aqui exibida parece ser a francesa). O público só teria a ganhar assistindo
Tukur e o resto do elenco falando com suas próprias vozes.
O filme mostra também a maneira como o governo alemão manipulava a
opinião do povo, principalmente das crianças, que adoravam a saudação nazista. Seja nas canções
infantis ou nos livros didáticos, o que se vê é a tentativa de convencimento através da sugestão
quase subliminar de uma ideologia. Detalhes como esse só enriquecem Amém, que,
independente do estardalhaço causado (ou da decepção, dependendo do ponto de vista), certamente
será desses filmes que se tornam ferramenta de estudo em sala de aula. Assisti-lo é, mais do que
outra coisa, um prazer. Prazer de se ter diante de si uma história que, além de qualquer
pretensão, emociona, prende a atenção, entretém e faz refletir. Não são muitos os filmes que
conseguem isso.
(M.L.)
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