American Splendor,
EUA, 2003.
Com PAUL GIAMATTI, HARVEY PEKAR, HOPE DAVIS,
JUDAH FRIEDLANDER, JAMES URBANIAK, TOBY RADLOFF, MAGGIE MOORE, MADYLIN SWEETEN, EARL BILLINGS,
JOYCE BRABNER, JAMES McCAFFREY.
Baseado nas revistas American Splendor, de HARVEY PEKAR,
e Our Cancer Year, de HARVEY PEKAR e JOYCE BRABNER.
Música: MARK SUOZZO.
Fotografia: TERRY STACEY.
Montagem: ROBERT PULCINI.
Produtor associado: JULIA KING.
Desenho de produção: THÉRÈSE DePREZ.
Produção: TED HOPE.
Roteiro e direção: SHARI SPRINGER BERMAN, ROBERT PULCINI.
Exibido no Festival do Rio em Setembro/Outubro de 2003.
Sinopse e comentário.
Biografia. EUA, década de 1960. Recém abandonado pela segunda esposa
e amargando um nódulo nas cordas vocais que o impede de falar direito, o solitário Harvey Pekar
é um arquivista no Hospital dos Veteranos cujos prazeres resumem-se à coleção de discos de jazz
e de gibis antigos. Desleixado e pessimista, certamente encerraria os dias numa vida sem
perspectivas, não fosse o encontro, numa garagem onde estavam sendo vendidos discos usados, com
um certo Robert Crumb, que começava a arriscar-se no desenho de historias em quadrinhos.
Encantado com a originalidade do trabalho de Crumb, de quem se torna amigo, Pekar passa a
escrever roteiros de histórias a serem ilustradas tanto por Crumb quanto por outros desenhistas,
dando início à revista American Splendor, que aos poucos vai tornando-se objeto de culto
junto ao público. Embora ainda sem conseguir viver dos quadrinhos, Pekar torna-se famoso na
vizinhança, e graças à revista conhece a depressiva Joyce Brabner, vendedora de uma loja com
quem acaba se casando. Alternando momentos de tranqüilidade e aborrecimentos, a vida de Pekar
seguirá com certa regularidade, até que a descoberta de um caroço na virilha levantará a
suspeita de um câncer.
Em suas histórias (onde é sempre o protagonista), Harvey Pekar segue à
risca o mote que criou: "A vida banal é uma coisa complexa". Para ele, interessa reproduzir o
cotidiano de um cidadão americano de classe média baixa, sem idealizações ou fantasias. É o
chamado anti-herói, que não apenas coloca fielmente no papel as suas neuroses e frustrações, mas
também as experiências e as pessoas de seu convívio. Algumas delas chegam a se tornar breves
estrelas, como o auto-intitulado "nerd" Toby Radloff, que está no filme e viria depois se tornar
apresentador da MTV. Tanto Pekar quanto Robert Crumb (este, protagonista de um imperdível
documentário dirigido por Terry Zwigof) são frutos de interessante e saudoso momento da cultura
americana, que é justamente a contracultura. Artistas talentosos de olhares alternativos ao da
indústria de entretenimento, sem a preocupação com o lucro imediato e mergulhando na
experimentação, trouxeram vida nova aos quadrinhos, à música e à literatura, influenciando
também muito do cinema que foi feito nos EUA nos anos 1960/70.
Hoje tenta-se recuperar isso, de forma profissional e ambiciosa, com
ajuda principalmente do computador e da internet (para onde a maioria dos fanzines acabou
migrando, surgindo ou renascendo). Embora desde os anos 1980 a iniciativa já tenha sido
absorvida pela indústria e boa parte desses novos artistas independentes não busquem outra coisa
além de entrarem no "sistema", há resultados que, pela inteligência e sinceridade, conseguem
escapar de um padrão narrativo e estético. Em seus quadrinhos, Pekar procurava ser absolutamente
sincero, mas, ainda que muitas vezes tratasse de temas amargos, seu olhar irônico e detalhista
sabia como revelar o que havia de interessante nos pequenos pedaços de história que colhia pelas
ruas, no trabalho ou em casa. É como ele mesmo diz, no filme, ao descobrir como a vida às vezes
é triste, e doce, e sedutora.
Amazing Splendor, o filme, é curioso na forma original com que
mistura ficcionalização e documentário. O próprio Harvey Pekar, que também narra e comenta,
surge às vezes em imagens de arquivo (como nas hilárias apresentações no show de David
Letterman) ou mesmo atuais, nos bastidores, dialogando com o verdadeiro Toby Radloff enquanto
seus intérpretes (os ótimos Paul Giamatti e Judah Friedlander) permanecem ao fundo, observando,
em interessante inversão de papéis. Deliciosas também são as intervenções dos quadrinhos na
narrativa. Volta e meia alguma cena é ilustrada em desenhos de gibi, geralmente reproduzindo
algum evento, e na seqüência do supermercado os pensamentos do protagonista surgem em balões.
Shari Springer Berman e Robert Pulcini, roteiristas e diretores, manifestam uma preocupação em
comparar e entrelaçar vida e arte, seja através das aparições de pessoas reais e de seus
comentários, seja na forma em que estes se observam sendo retratados, como se vê na cena em que
Harvey e Joyce vêem-se representados na versão teatral de American Splendor, num momento
de suas vidas que já havia surgido na tela tanto em filme quanto em quadrinhos. O mesmo momento,
visto de três formas distintas.
Há que se comentar também a figura de Harvey Pekar, exibida na tela com
seus olhos grandes e obsessivos, seu cabelo ralo, sua voz esquisita e suas manias, como a paixão
por refrigerante de laranja. Ele e a caladona Joyce formam um casal ao mesmo tempo comum e
singular, donos de uma humanidade e encanto que não se define com precisão, mas que se admira.
Justamente o inverso do que mostram as emissoras de TV que, teoricamente partindo do mesmo
pressuposto (expor o "homem comum"), forjam um naturalismo inexistente em "reality shows" e
afins, conseguindo apenas reduzir o ser humano a peças irrelevantes de um conjunto artificial. A
destacar ainda, no filme, a trilha sonora jazzística e a seqüência em que Pekar discute com Toby
a importância do filme A Vingança dos Nerds. Pena que, na comemoração final, não tenham
trazido o verdadeiro Robert Crumb.
(M.L.)
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