André Faxas
Tenho constatado um fenômeno curioso e assustador nos últimos anos. Fazendo uma análise dos
anúncios de peças de teatro, veiculados nos principais jornais de país, notei que a enorme
maioria dos espetáculos em cartaz são compostos de textos estrangeiros ou adaptações dos
mesmos. A minoria nacional é formada basicamente por autores que também produzem seus
espetáculos.
Ou uma coisa ou outra: os autores brasileiros são muito ruins, ou as peças estrangeiras são
maravilhosas, escritas por uma nova geração de Becketts e Shakespeares. O engraçado é que,
pelo que tenho pesquisado, os direitos desses espetáculos são muito caros. Mais duas opções:
ou os produtores de teatro brasileiro estão milionários, ou os dramaturgos nacionais são tão
ruins, que não merecem a esmola dos 12% cobrados pela SBAT. Será efeito da globalização? Ou
carência do bons textos nacionais inéditos? A segunda hipótese eu, sinceramente, descarto.
Prova disso são os quase 500 textos inéditos inscritos no 4° Concurso nacional de dramaturgia,
de Porto Alegre. Impossível, em tamanho universo de autores e textos, não se tirar algumas
poucas dezenas de obras representativas do Teatro Brasileiro.
Creio que o problema é mais complexo do que eu imagino, vai desde o espírito colonizado de
nossos produtores e diretores, passa pelo "gavetismo" de nossos jovens autores (como eu), pela
falta de meios de divulgação de nossas obras, pela precariedade da entidade que nos representa
(SBAT- não pela ausência de boa vontade de quem a dirige, mas principalmente pela nossa
desunião e individualismo) e termina na crise cultural e educacional que assola nosso país há
algum tempo.
É muito difícil escrever e fazer Teatro, tendo tantos meios de entretenimento como
concorrentes: internet, Tv por assinatura, DVD, Shoppings, Choperias. O Teatro no Brasil
está se resumindo à uma restrita elite de classe média alta, também globalizada e colonizada,
que economiza os dólares que gastaria assistindo à essas mesmas peças em Nova York. Dia desses
ouvi a bela, talentosa e dedicada Luana Piovanni, falando de seu mega-espetáculo "Alice no País
das Maravilhas". Ouvi a seguinte pérola: "...Nossa idéia ao montar a peça, foi resgatar o
Teatro Infantil no Brasil..." Com todo respeito à Luana, a quem admiro e respeito, mas resgatar
o Teatro infantil brasileiro com Lewis Carroll???? Em um país de Maria Clara Machado, Sílvia
Ortoff, Pernambuco de Oliveira???
Longe de mim querer ser retrógrado, preconceituoso ou xenófobo. Reconheço e aceito a evolução
dos tempos, não renego a globalização e a tecnologia. Mas creio que está havendo um certo
exagero por parte de nossos produtores e diretores. Principalmente no que diz respeito às
adaptações de clássicos da Disney para o teatro infantil, enxergo um certo oportunismo
econômico nesse tipo de coisa. Creio que há espaço para tudo, mas sinto que o Teatro Brasileiro
agoniza. Felizmente ainda suspira no interior do país, devido à meia-dúzia de heróis anônimos
que o mantém vivo. Guardadas as devidas proporções e contexto histórico, o Teatro do Brasil nas
décadas de 60 e 70 representou e divulgou muito bem a alma do povo brasileiro para o mundo. Foi
um foco de resistência à opressão, era formador de opinião e extremamente popular. É óbvio que
é impossível resgatá-lo da mesma forma, mas não me conformo com a extinção de um teatro
tipicamente nacional, que represente a essência de homens e mulheres do Brasil, com seus
problemas, alegrias e tradições. Um Teatro com sotaque caipira, nordestino, gaúcho, carioca
ou paulista; um Teatro comprometido com a formação de um público cativo, crítico, culto
politicamente.
Não prego de maneira alguma o engajamento do anos 70, mas renego a alienação globalizada que
impera na nossa arte. Odeio quando o governo mete o dedo em nosso trabalho, sou a favor da
livre iniciativa, acredito que o paternalismo do Estado não seja eficaz para a solidificação
de nossa arte. Mas ultimamente não tenho visto outra solução para o Teatro Brasileiro. Creio
que seja preciso que o governo mexa na Lei Rouanet, no patrocínio das estatais. Acho que será
preciso incentivar a montagem de textos brasileiros, restringindo financeiramente os apoios e
os incentivos fiscais aos estrangeiros. Talvez até seja preciso medidas mais radicais, como
cotas na Rede pública de Teatros a montagens de peças nacionais. Com isso, talvez nossos
produtores endinheirados não repitam o crime de deixar Plínio Marcos, já doente, trabalhando
como camelô na Praça da Sé.
E por onde anda a obra de João das Neves, Vianinha, Paulo Pontes, Armando Costa? E quando Naum
Alves de Souza voltará a implorar por ajuda financeira na internet??? E até quando jovens
autores, como eu, terão paciência e resistência para continuar escrevendo suas histórias para
um único par de olhos? Até quando as leis de incentivo à cultura só incentivarão os que não
precisam de incentivo? Por que os heróicos grupos de teatro amador não ganham um centavo para
suas competentes e dedicadas montagens? Por que o dinheiro do povo brasileiro só vai para os
globais e para os grandes produtores estrangeiros?
Perdoem-me se estou cometendo alguma injustiça, se generalizei em alguns momentos. Talvez até
esteja legislando em causa própria, admito. Mas eu cresci admirando o Teatro brasileiro,
gostaria muito de ter vivido na época do Arena, do Oficina, do Opinião. Gostaria de conhecer
Boal (mesmo com todas restrições que faço ao Teatro do Oprimido), Zé Celso, Zé Renato, Amir
Haddad. Felizmente ainda vivem, não perdi a esperança de um dia conceder-lhes meus
agradecimentos em nome do Teatro Brasileiro. Mas, para a fatalidade da nova geração, só lhes
restam os musicais requentados da Broadway, os Falabellas e sua turma, e a renovação do teatro
infantil brasileiro com "Alice no País das Maravilhas".
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