Arístocles Lima
O trabalho é sagrado
Quando gastei minhas últimas reservas em um café com leite, pão e manteiga, três conhaques,
vinte cervejas, um cigarro de maconha e uma carreirinha de pó, percebi que minha hora de
laborar havia chegado. Raspei do morro armado com duas pistolas e fui fazer a féria do dia no
asfalto. Pelejei mais de uma hora para encontrar um carro sem blindagem: daqueles modelos
encouraçados que a gente anuncia o assalto para uma janela com vidro especial de uma polegada de
espessura e o motorista abre um sorriso deishte tamanho, mostrando uma banana jocosa para nós
pobres operários que acreditamos na redistribuição heterodoxa das rendas. O veículo comum que
encontrei pertencia a uma professora, infelizmente a tia não tinha mais do que quatro notas de
cinco na carteira, mandei ela embora e segui na batalha. Tentei arrombar um caixa eletrônico e
uma sirene disparou estridulosa, comprometendo meu empreendimento. Só fui conseguir levantar
algum capital para a semana em uma vendinha. O dono do empório bem que tentou empatar meu
ofício, mas um disparo em sua perna deixou claro que minha dedicação profissional estava acima
de tudo.
O outro lado da lua
Vinte e oito anos atrás eu tive um caso com uma dama casada. Na época eu contava com tenras 16
primaveras e a moça em questão não tinha mais do que 17. Ontem me liga o marido traído dizendo
que descobriu tudo; ao ler nossas estripulias de adolescentes apaixonados em um velho diário da
esposa infiel. O camarada jurou que iria mandar dois capangas seus acabar com minha raça.
Felizmente mudei de sexo há mais de uma década. Os jagunços ao baterem na minha porta
encontraram o transexual Darcy de Oliveira de longas madeixas louras, nádegas grandes e redondas
como melancias, seios de melões e não um homem de meia-idade gordinho, bigodudo e calvo. Ao dar
com uma senhora gostosona na sua frente, ambos os pistoleiros caíram na risada, pouparam minha
vida e foram-se embora comentando um com o outro:
"Carai! O pratão é cornio e a pratoa é
lésbia!"
Estraga prazeres
Quarenta anos
atrás eu vinha voltando da escola com meus irmãos
menores, tropecei em um galho seco no meio da
Praça Buenos Aires e caí de peito sobre um pedregulho
do tamanho de uma manga. Perdi o fôlego imediatamente
e fiquei me debatendo no chão até o ar voltar a enfunar
meus pulmões. Senti a morte passar bem perto de mim
e ao me recuperar completamente escutei meu mano caçula protestando junto ao resto da prole:
"Que droga, se ele tivesse
morrido a gente nem precisava ir pra escola amanhã!".
O centenário
Meu bisavô estava
fazendo cem anos e seus onze filhos, dezoito netos e vinte e dois
bisnetos resolveram lhe prestar um homenagem, organizando uma
grande festa. Alugaram salão, contrataram um bufê caríssimo,
convidaram um quarteto de cordas e chamaram a parentalha
inteira - veio gente até do outro mundo para a comemoração
secular. Depois de cantado o parabéns-a-você meu avô botou
seu macróbio pai em cima do palco, na frente de um microfone
e perguntou ao aniversariante, apontando um dedo para toda
a família, como é que aquilo tudo havia começado. O bisa abriu
a braguilha, sacou seu bingolim murcho e disse rouco e azafamado:
"A maioria deste povo saiu daqui ó!".
Fenômeno cooperativo
Ao manobrar o caminhão
da Companhia Piriri de Força e Energia um motorista barbeiro esbarrou
em uma árvore, dando um sustão tamanho em uma cadelinha que dormitava
tranqüila à sombra. O animal amedrontado deu um salto mortal, se embaraçou
nas pernas de um rapaz mal-ajambrado, que caminhava apressado pelo passeio,
e o derrubou. O infeliz desabou no chão como um saco de ferraduras e perdeu
os sentidos na hora. A cachorra saiu ganindo em desabalada carreira e sumiu
das minhas vistas. O funcionário da CPFE tratou de se mandar dali às rápidas:
quase não tive tempo de anotar-lhe as placas. Um mendigo que ia passando
roubou os sapatos do acidentado desacordado, dando à luz a um par de meias
rotas: a destra furada no calcanhar e a sinistra com um rombo na ponta que
deixava todos os artelhos à mostra - fiquei sem saber qual dos dois me
causava maior dó. Corri ao telefone e chamei por socorro, só então comecei
a rir dos inopinados que se sucedem neste mundão velho e sem porteira.
As escolhas da vida
- Mãe, quando a gente gosta muito de alguma coisa e aparece outra melhor é pecado se fazer um
negócio?
- Não, meu querido, veja só: eu era casada com um outro homem até conhecer o seu pai, então
terminei o primeiro casamento e me casei com o papito e tive você, que é a coisinha mais linda
deste mundão de meu Deus: smack!
- Certo, então arrume suas coisas que você vai morar na casa do Fabinho, que é órfão. Eu acabo
de trocar a senhora pelo vídeo game dele que é um Dreamcast equipado com: CPU Hitachi SH4 RISC
que roda a 200MHz e tem um desempenho de 360 MIPS/1 e 4FLOPS! Placa de vídeo NEC PowerVR
já na segunda geração, capaz de renderizar 3 milhões de polígonos num piscar
de olhos! Memória 16 MB para o principal, 8 MB apenas nas texturas e 2 MB
de som! Mídias de armazenamento GD ROM desenvolvido pela fábrica
de motos Yamaha, em formato proprietário que guarda 1 GB de dados! Som
de Chip capaz de falar com até 64 vozes juntas e com som ambiente em 3D!
Habilitado para modem de fábrica de 56Kbps, com correção de erros por software!
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