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Racontos 3
Arístocles Lima



O Chamado

    O telefone tocou e não apareceu ninguém para atender aquela joça: nada de mulher, filhos ou empregada; assim, atendi eu mesmo todo jovial: "Prossiga!"; a pessoa do outro lado da linha perguntou pelo meu primogênito. Expliquei que não havia ninguém na casa naquele momento, mas que eu poderia anotar o recado. Meu interlocutor hesitou por um instante e disse, com voz embargada, que deveria estar havendo algum engano e afirmou que o meu garotão era órfão há mais de dois anos: "A tragédia aconteceu em meados de 2001...", arrematou pesaroso o moço. Gritei que aquilo era um trote muito do sem graça e bati o fone com força no gancho. Furibundo, me dirigi ao banheiro para lavar o rosto e espantar a raiva. Enxerguei, então, minha imagem ir sumindo no espelho do banheiro. Foi aí que percebi que eu tinha morrido mesmo...


Moeda Corrente

    Eu vinha cansado, mas vi uma dama em apuros com um pneu furado e parei para dar uma mãozinha. Meu espinhaço doía horrores; depois de um dia inteiro de estiva qualquer um - por mais taludo que seja - fica extenuado. Porém, o caso era de cavalheirismo e um filho de Deus nunca deixa uma senhora embaraçada. Quando desci da minha bicicleta, e perguntei para a dona se ela precisava de ajuda, notei que aquela mulher era a coisa mais feia que eu já tinha visto entre o céu e a terra. Um estropício coberto com uma pelanca mórbida, olhos do tamanho de ovos de pata, sem cor e muito estrábicos, cabelos crespos e desgadelhados, presos em um ridículo coque no cocuruto, pernas tortas: aquilo era o capeta lambendo tamarindo! Ela aceitou meu socorro e em oito minutos seu carro estava em condições de rodar novamente. Então, o canhão me ofereceu uma nota de um real pelo serviço. Expliquei que não precisava e ela dobrou a parada. Tornei a declinar da gorjeta e a mocréia gritou que os homens eram todos iguais, arrancou o vestido por cima da cabeça e trovejou: "Tudo bem, pode usar meu corpo como pagamento, desgraçado!"; nunca pedalei tão rápido em todo minha vida!


Mulher Bomba

    Um canibal voltou da caçada trazendo um presente para a indiaria tudo. Presa por uma coleira vinha um loura de pernas longas, busto enorme e bunda que mais se parecia com uma melancia; de tão grande e redonda que era. A antropofagatada em peso lambeu os beiços gulosa - e era cada uma beiçola deishte tamanho! O pajé meteu a borduna nos cornos da presa e tacou a galega no caldeirão de ponta cabeça mesmo. As cozinheiras da tribo jogaram água e cenoura dentro do panelão e coentro, bastante sal, mais um pouco de pimenta do reino, muita mandioca e pregaram fogo na lenha. Não deu vinte minutos de cozimento e bum!, a caçarola estourou. O almoço foi aos ares esbagaçado em milhares de pedaços. As ocas que ficavam no perímetro da fogueira foram para a casa do cacete também. O cacique, com as fuças chamuscadas e o cocar estorricado, bateu a mão no rosto, foi descendo até o queixo e lamentou, soltando fumaça pelos poros da cara: "Silicone outra vez!".


Refazendo

    Deu uma chuva torrentosa para as bandas da minha favelinha. Teve barraco que desceu a encosta na velocidade dos carros de fórmula um. Consegui tirar meu povo do morro em tempo, mas não salvei nada de dentro do cafofo: perdi geladeira, fogão, camas, cobertores, mantimentos, televisão e nossas roupas. Só se salvaram as vestimentas do corpo. No dia seguinte estiou um bocadinho e tentei subir pelo barro para vasculhar no meio dos escombros, a ver se conseguia encontrar alguma coisa. Peguei uma carona com um tatu de chuteiras que ia galgando solerte a lama e cheguei ao local onde um dia foi minha casa. Estava tudo revirado, paredes no chão, cagador sobre a pia da cozinha, panelas atiradas no meio do terreiro, penico vestido na cabeça do mourão que sustentava o telhado; uma zona. Catei tudo o que pude e meti dentro de uma sacola de lona. Bati palmas e chamei a atenção de alguns urubus que adejavam preguiçosos no topo da colina. Aquelas aves de mau agouro desceram solícitas e me carregaram para o sopé da montanha novamente. Juntei as tralhas com a família e fui caçar outro canto para erigir um novo lar.


Safári na roça

    Quando criança morei em um sítio. A lida com lavoura e criação era muito pesada, de maneira que tínhamos uma diarista negrona, de nome Georgina, para ajudar na labuta. A mulher tinha uma disposição para o trabalho que poucos homens têm, pesava oito arrobas e passava dos dois metros - na altura e no diâmetro! Certa segunda-feira nossa ama chegou atrasada para o serviço, papai ralhou e ela se defendeu dizendo que havia se atracado com um lobo grandão no caminho. Achamos que era mentira e ela mostrou a prova. Tirou um saco de cima de sua mula e atirou o conteúdo no chão. Era uma cabeça de urso toda ensangüentada! Ficamos estarrecidos! Onde cargas-d' água nossa giganta de ébano teria encontrado aquela fera!? Depois ficamos sabendo pelo rádio que alguns animais haviam escapado de um circo, entre Cotia e Vargem Grande. Pelo resto da semana Georgina foi trazendo seus troféus: o escalpo de um leão, a tromba de um elefante, ambas as corcovas de um camelo, a pele listrada de um tigre, a dentuça de um gorila. Domingo era sua folga e ela ficou em sua casa descansando, afinal, ninguém é de ferro...


Sociopatas

    Três camaradas, cerceados do seus direitos universais de ir-e-vir, confabulavam em cárcere privado. Um dizia que tinha ido bater as costas ali no xadrez, só porque havia empurrado um ancião para debaixo de um ônibus e dava detalhes sórdidos: "O busão passou por cima da barriga do velhote, aí ele começou a botar cocô pela boca e as tripas pelo fiofó: foi o maior barato!". O segundo não deixou por menos: "O barraco desabou pro meu lado quando montei clínica de olhos de araque, meus dez primeiros pacientes ficaram cegos com os colírios que eu mesmo inventei: a base de clorofila, metanol e soda cáustica.". Então foi a vez do terceiro contar seus périplos: "Tive uma discussão no trânsito, um motorista me chamou de corno e fugiu! Fiquei com uma pulga atrás da orelha, voltei para casa correndo e atirei na primeira vizinha que cruzou meu caminho. Do portão da minha garagem, acertei um balaço na testa de uma dona que botou a cabeça para fora da janela de um prédio. Depois fiz dois olhos na nuca da minha mãe; que tentava correr para o quintal. Chamaram a polícia e vim parar aqui em cana.", os outros dois enclausurados, perplexos, perguntaram por que cargas-d'água ele não matou a esposa infiel apenas e ele respondeu sonso: "Nunca tive mulher nenhuma...".




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