Brasil, 1988.
Com JOSÉ DUMONT, REGINA DOURADO, LUIZ CARLOS GOMES,
MARACY MELLO, PAULO HESSE, BENEDITO CORSI, RAFAEL DE CARVALHO, SÉRGIO MAMBERTI,
RUTHINEIA DE MORAES, RENATO CONSORTE, VILMA DE AGUIAR, DULCE MUNIZ, JULIO CALASSO, CARLOS BUCKA,
FLÁVIO PORTHO.
Música: JULINHO VICENTE, LUIZ CARLOS GOMES, DENOY DE OLIVEIRA.
Montagem: MILTON BOLINHA, RENATO NEIVA MOREIRA.
Fotografia: ALOYSIO RAULINO.
Produção executiva: MARACY MELLO, DENOY DE OLIVEIRA.
Argumento, roteiro, diálogos e direção: DENOY DE OLIVEIRA.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Drama urbano. Recém chegado a São Paulo, vindo do nordeste em busca
de uma vida melhor, o paraibano Lambusca vai morar na favela em casa do conterrâneo Antenor.
Enquanto se engraça com a vizinha Lindalva, é abordado na rua pelo malandro Remela, que lhe
oferece um emprego de cobrador, mas sem dizer que o patrão é uma quadrilha que vende proteção a
donos de estabelecimentos. A ostentação com os primeiros ganhos leva o ingênuo Lambusca a chamar
a atenção da vizinhança, e a envolver-se com a cantora Zuzu, ignorando que ela é amante do
chefão da quadrilha. A mordomia começa a acabar quando, ao pressionar um industrial para
estorquir-lhe dinheiro, Lambusca provoca um infarto no sujeito e foge com o pagamento pela
proteção. Passa então a ser perseguido tanto pela quadrilha quanto pela polícia, que dispõe de
um retrato falado do paraibano (divulgado pela imprensa como "o baiano fantasma", devido ao
costume paulistano de classificar todos os nordestinos como "baianos"), e é obrigado a
esconder-se.
Filme muito elogiado mas pouco visto (a distribuição precária fez com que
O Baiano Fantasma, produzido em 1981, só chegasse às telas sete anos depois) sobre a
migração nordestina para a região sudeste brasileira. Deixando de lado qualquer análise
sócio-econômica, o diretor-autor-músico Denoy (pronuncia-se "denuá") de Oliveira preferiu se
debruçar sobre o que há de mais humano na trajetória do migrante, explorando a solidão e a perda
das raízes dos que descem na rodoviária cheios de sonhos, e se encantam com o tamanho da cidade
que os acolhe. Fez aquilo que se convencionou chamar "cinema de resistência", no caso
resistência à perda da identidade cultural nordestina, e resolve de maneira sensível e
inteligente a transposição para a tela de uma opção política sem apelar para discursos engajados
ou panfletarismo barato. Sua narrativa é sincera e aberta, às vezes arrastada, e pontuada de um
humor espontâneo, que tenta evitar (nem sempre conseguindo) a caricatura e reproduzir o que há
de naturalmente engraçado nesse povo. Mas é através de rimas, inseridas sutilmente nos diálogos,
que Denoy aproxima a história de Lambusca de um ícone da cultura nordestina, que é a literatura
de cordel. O curioso resultado é o grande atrativo do filme, principalmente na cena do acerto de
contas entre o protagonista e o amigo Antenor, que praticamente se transforma num duelo de
repentistas.
A seqüência é o ápice da desilusão de Lambusca com a cidade grande. Já
vinha sendo obrigado a despir-se de seus valores ao ter de negar ajuda a um conterrâneo, e ao
ver rejeitados num baile os seus pedidos para que tocassem baião, e agora vê a traição e a
ameaça ocuparem o último ponto de contato com sua terra natal. A alcunha preconceituosa de
"baiano" (equivalente paulista ao "paraíba" usado no Rio de Janeiro) e "fantasma" servem para
aumentar ainda mais o processo de destruição da identidade e da individualidade do sujeito. O
que de fato ocorre com outro dos moradores do cabeça-de-porco, o mendigo interpretado por
Rafael de Carvalho, humorista que volta e meia surpreendia em papéis dramáticos como o magnífico
Vitorino, de Fogo Morto. Aqui, ele é um migrante como Lambusca, a quem chama de
"conterrâneo", vindo para São Paulo atrás de vida nova e também desiludido. Bêbado e vestindo
trapos, se torna motivo de chacota do lugar, e acaba enlouquecendo, arrancando as roupas e sendo
preso, inteiramente nu, na frente de todos, enquanto grita o nome da esposa que deixou para
trás. Além dele há o sempre ótimo José Dumont. Embora tenha confessado, em debate na TV
Educativa sobre esse filme, não ter ficado tão satisfeito com seu desempenho devido ao pouco
tempo de preparação para os diálogos rimados, a riqueza de detalhes com que constrói Lambusca é
digna de atenção. Dumont é exemplo de ser humano completo, e nos traços de sua cara pode se
encontrar essas emoções todas que formam essa coisa chamada gente. É desses atores que dão gosto
ver em cena, e que jamais terão o reconhecimento merecido por não possuírem nem a cara de galã,
nem as amizades certas. A destacar, ainda, a beleza de Regina Dourado.
(M.L.)
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