Clique abaixo para ouvir o tema musical.
Desenho animado com vozes de BÉATRICE BONIFASSI,
LINA BOUDREAULT, MICHÈLE CAUCHETEUX, JEAN-CLAUDE DONDA, MARI-LOU GAUTHIER,
CHARLES PRÉVOST LINTON, MICHEL ROBIN, MONICA VIEGAS.
Música: BENOÎT CHAREST.
Co-produção: PAUL CADIEUX.
Montagem: DOMINIQUE BRUNE, CHANTAL COLIBERT BRUNNER,
DOMINIQUE LEFEVER.
Desenho de produção: EVGENI TOMOV.
Produtores associados: REGIS GHEZELBASH, COLIN ROSE.
Produção: DIDIER BRUNNER, VIVIANE VANFLETEREN.
Concebido, escrito e dirigido por SYLVAIN CHOMET.
Estréia no RJ: 16.04.2004.
Sinopse e comentário.
Comédia. França. Integralmente devotada ao neto, a quem acompanha
todos os dias no treinamento deste para a competição de ciclismo "Tour de France", a Sra. Souza
é surpreendida com a descoberta do seqüestro do rapaz durante o torneio. Determinada e
incansável, parte acompanhada apenas do cachorro Bruno atrás do navio onde o neto está
trancafiado junto a outros dois competidores. Atravessando o oceano e chegando a outro
continente, a Sra. Souza vai parar em Belleville, cidade onde tanto as pessoas quanto as
edificações exibem opulência e gigantismo fora do normal. Sem saber para onde ir, sem dinheiro e
nem qualquer pista dos seqüestradores, a pobre avó acabará conhecendo três senhoras, trigêmeas
que no passado apresentavam-se como cantoras em bares e programas de TV, e que não apenas irão
recolhê-la, mas também ajudarão a encontrar o neto.
Filme como esse não aparece todo dia. O espectador que tem o costume de
sair de casa para ver desenho animado ou filme de animação vive numa encruzilhada entre os
desenhos da Disney e as recentes superproduções geradas por computador. Concebidos para seduzir
o público infantil sem livrar a cara dos adultos, esbanjam qualidade com personagens
carismáticos, roteiros divertidos e efeitos especiais de cair o queixo. Tão bons que há quem
pense que animação é só isso, e que a única alternativa seriam os tais "animes" japoneses. Houve
um tempo em que desenhos com traço realista entravam em cartaz no circuito comercial, e o
público podia assistir obras primas como o American Pop de Ralph Bakshi, ou o divertido
Heavy Metal - Universo em Fantasia, de Gerald Potterton. A única incursão recente no
gênero foi o instigante Waking Life, de Richard Linklater, curiosa mistura de estilos
que, por causa da temática filosófica, ninguém viu. Mas tem em vídeo.
Toda essa introdução é para expressar a surpresa que foi ver As
Bicicletas de Belleville. Rico na forma, poético no conteúdo, inteligente no conjunto, o
filme realiza com desconcertante sutileza a função de transportar o espectador para um universo
especial, conseguindo ao mesmo tempo provocar estranheza e causar nostalgia com a vidinha
minúscula de seus silenciosos e marcantes personagens. Devolve com observações certeiras as
lições aprendidas no manifesto surrealista, misturando beleza e delírios oníricos com ácidas
críticas ao sistema, ao consumo desenfreado que cria toda uma sociedade de gente gorda e
transforma seres humanos em objetos de apostas, dos quais se descarta quando não mais funcionam.
O traço caricatural, excessivo, ao mesmo tempo que gera criaturas peculiares em suas
deformidades (capangas em forma de tijolo, garçons retorcidos), expõe uma riqueza de ambientes
que impressiona pelas cores e detalhes. Sem deixar de enumerar citações, sendo a mais explícita
ao cineasta Jacques Tati.
A direção de Sylvain Chomet (também autora do roteiro) mantém o filme
bem longe de uma agitação desnecessária. Seu objetivo parece ser o de provocar no espectador o
sentimento de inadequação ao ambiente, transformá-lo no mesmo estrangeiro em que se tornou a
inesquecível Sra. Souza, portuguesa baixinha, manca de uma perna, de grandes olhos esbugalhados
escondendo-se atrás de grossas lentes que não se deixa abater nem com a ameaça de mafiosos. Suas
reações ao novo mundo, e aos costumes estranhos das trigêmeas que a recolheram, têm a mesma
aceitação muda e determinada que a fez reorientar toda a sua vida para atender à obsessão
ciclística do neto de panturrilhas gigantes. É humana de doer.
Outro achado do filme é a sua trilha sonora. O cabaré de abertura é tema
para entrar em antologia, e a partitura musical assinada por Benoît Charest leva à constatação
de como desenho animado e música parecem ter nascido um para o outro (coisa que Walt Disney já
havia percebido há décadas, e a quem a introdução do filme parece render homenagem). A registrar
também os engraçados coadjuvantes, como o motorista do furgão da Sra. Soza durante a "Tour de
France", o garçom retorcido, as próprias trigêmeas, o cachorro Bruno, o escoteiro gordão, o
capanga com feições de camundongo. E uma recomendação: não saia do cinema antes de terminarem
todos os créditos.
(M.L.)
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