Les Enfants du Paradis,
França (P&B), 1945.
Com ARLETTY, JEAN-LOUIS BARRAULT, PIERRE BRASSEUR,
MARCEL HERRAND, MARIA CASARÈS, LOUIS SALOU, PIERRE RENOIR, GASTON MODOT, MARCEL PÉRÈS,
JANE MARKEN, ETIENNE DECROUX, PIERRE PALAU, FABIEN LORIS, ALBERT REMY, PAUL FRANKEUR,
LÉON LARIVE, JACQUES CASTELOT, JEAN-PIERRE BELMON, JEAN GOLD.
Escrito por JACQUES PRÉVERT.
Fotografia: ROGER HUBERT.
Direção de arte: ALEXANDRE TRAUNER, LÉON BARSACQ,
RAYMOND GABUTTI.
Figurino: ANTOINE MAYO.
Montagem: HENRI RUST, MADELEINE BONIN.
Música: JOSEPH KOSMA, MAURICE THIRIET, GEORGES MOUQUE.
Produção executiva: RAYMOND BORDERIE, FRED ORAIN.
Direção: MARCEL CARNÉ.
Estréia no Brasil: 15.08.1949.
Sinopse e comentário.
Drama. Paris, década de 1830. O "Boulevard du Temple" (chamado "do
Crime" por estar localizado em região de assaltos, e mesmo de assassinatos) é a grande avenida
onde apresentam-se toda sorte de artistas populares. Também é lá que estão casas de espetáculos
como o Teatro dos Funambules, em cujo palco apresenta-se o mímico Baptiste Debureau, que vem
atraindo multidões para vê-lo em cena. É nesse ambiente que chega Frédérick Lemaître, talentoso
e ambicioso ator em busca de emprego, e que é contratado para fazer pequenos papéis nas peças
de Baptiste, de quem se torna amigo, indo morar na mesma pensão de Mme. Hermine. Acostumado a
vagar solitário pelas ruas à noite, o mímico é levado pelo mendigo e falso cego Fio de Seda ao
bar A Garganta Vermelha, onde vê Garance, a mulher por quem é apaixonado, em companhia do ladrão
e assassino Lacenaire. Ignorando o perigo, o tímido e romântico Baptiste corteja Garance, e,
embora seja correspondido, é expulso do local por Lacenaire. Terminará a noite, no entanto, com
Garance, a quem leva para a pensão de Mme. Hermine mas não consegue, devido a timidez, consumar
fisicamente seu amor, deixando-a sozinha no quarto. Só que, no quarto ao lado, o sedutor
Frédérick descobre a nova vizinha e tem um caso com ela. Além de prejudicar sua atuação no
teatro, a desilusão amorosa fará com que Baptiste enfim se case com a colega de cena Nathalie,
ao mesmo tempo em que Garance, acusada injustamente de um crime cometido por Lacenaire, sucumbe
ao assédio do Conde de Montray, casando-se com ele para escapar da prisão. Por sua vez,
Frédérick deixa o Funambules em busca de papéis de maior destaque que lhe tragam o sucesso
cobiçado. Mas o destino se encarregará de, com o passar dos anos, reunir todos novamente.
Luchino Visconti e David Lean consideravam este um dos dez melhores
filmes de todos os tempos. François Truffaut, depois de espinafrar o diretor Marcel Carné na
revista Cahiers du Cinema, confessou que trocaria todos os filmes que fez por O Boulevard
do Crime. Independente de superlativos, exageros e listas de "dez mais", o fato é que o
filme da dupla Carné-Jacques Prèvèrt (o segundo, roteirista de boa parte dos principais filmes
que o primeiro realizou) continua sendo, desde a estréia, uma das mais felizes homenagens ao
teatro já feitas pelo cinema. Com uma narrativa capaz de unir elementos de dramalhão e
genialidade, e diálogos que tanto podem, numa conversa aparentemente trivial entre dois
personagens, tecer com inteligência comentários a respeito da arte teatral, O Boulevard do
Crime consegue ser, ao mesmo tempo, grandioso, profundo e acessível.
A conturbada produção foi realizada na França sob a ocupação nazista, e
o próprio tema escolhido para evitar as mensagens políticas dos filmes anteriores de Carné. A
idéia surgiu de um fato narrado pelo mímico e ator Jean-Louis Barrault num encontro com o
diretor e o roteirista, acerca do famoso mímico Baptiste Debureau (que, como outros personagens
do filme, realmente existiu): após matar a bengaladas um desconhecido que importunava sua
esposa na rua, Debureau foi preso e levado a julgamento, ao qual toda a população de Paris
acorreu para assistir, curiosa para ouvir a sua voz. Daí nasceria o interesse em Carné-Prèvèrt
para contar uma história não apenas sobre o teatro, mas, principalmente, a pantomima, que no
filme Lamaître define como "a arte de comunicar-se com o público sem falar". É pura poesia a
associação que o filme promove entre arte e vida, levando-as a coexistirem e mesmo a
interferirem uma na outra. O triângulo Baptiste-Garance-Frèdèrick, que ocorre na vida,
reproduz-se no palco, e é no palco que Baptiste (sob a famosa caracterização do Pierrô)
finalmente abrirá os olhos para o que vem ocorrendo.
O filme é cheio desses pequenos encantos e coincidências, e bebe na
mesma fonte do teatro para provocar a emoção no público, que é a importância da harmonia entre
o texto e aquele que o interpreta. A narrativa, riquíssima em termos de construção de
personagens, divide-se em pólos definidos de interpretação e de espetáculo. De um lado está
Lamaître (em interpretação impecável de Pierre Brasseur), sempre inteligente, divertido,
falante ("Posso morrer de silêncio como quem morre de fome ou de sede!", brada, não suportando
mais os papéis sem falas da pantomima), é o responsável por uma visão da vida que, ainda que
sarcástica, não deixa de ser alegre. São seus os mais engraçados momentos do filme, quando, ao
corromper em cena todo o texto de uma peça que julgava medíocre, recebe os aplausos da platéia.
Mesmo ao admitir a inveja que sente por Baptiste, a quem chama de maravilhoso, o faz de forma a
torná-la interessante, até mesmo produtiva. De outro lado, está o lado obscuro representado
pelo assassino Lacenaire, inteligente, egocêntrico e cruel, capaz tanto de observações amargas
da vida e da arte ("Atores não são gente. São todos e não são ninguém", diz), quanto de mudar
literalmente com as próprias armas o destino das pessoas, para que a vida (que ele enxerga como
uma grande peça) tenha o final adequado. Pairando sobre tudo isso como um anjo todo de branco
está Baptiste, personagem puro e romântico, comovente quando entra em cena para narrar toda uma
história através de gestos. Não há como não encantar-se com o trecho em que seu Pierrô, após
descobrir a traição, tenta se matar enforcando-se numa árvore e é impedido por uma criança,
que lhe pede a corda para brincar.
O título original (que por pouco não foi apenas Funambules)
Les Enfants du Paradis, "as crianças do paraíso", é uma referência justamente aos
atores, as "crianças" ou "filhos" do público que freqüentava as galerias dos teatros, o tal
"paraíso". Referência que prossegue no subir e descer das cortinas quando o filme inicia e
termina. Mas O Boulevard do Crime, apesar de toda a beleza, não escapa da suntuosidade
que fez com que seus realizadores lhe dessem uma metragem excessiva. O filme é tão longo que,
à época, cogitou-se em dividi-lo em dois, mas ante a recusa de Marcel Carné resolveu-se pelo
acréscimo de cenas e a separação em duas épocas, exibidas juntas mas com um intervalo entre
elas e com ingresso a preço mais elevado. O resultado foi um filme de 195 minutos onde em
muitos instantes o espectador não consegue evitar a olhada no relógio. A poderosa e instigante
estrutura narrativa, que entrelaça ótimos personagens tal qual um romance bem escrito,
plantando lapsos de tempo e ocultando do espectador momentos-chaves (como o duelo, ou o
casamento de Garance), termina por sofrer os acréscimos de gordura, tendo que arrastá-la até o
grandioso final no enorme cenário da avenida inteiramente tomada por transeuntes durante o
Carnaval.
Uma curiosidade: o ator que interpreta o nervoso Anselme Deburau, pai de
Baptiste que provoca uma briga de verdade em cena entre todo o elenco, foi interpretado por
Etienne Decroux, mestre de mímica tanto de Jean-Louis Barrault quanto de Marcel Marceau.
(M.L.)
Fonte: Revista Cinemin, n° 11, outubro/ 1984, Editora Brasil-América (EBAL).
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