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Brilho Eterno de uma
Mente Sem Lembranças


Eternal Sunshine of the Spotless Mind,
EUA, 2004.


Com JIM CARREY, KATE WINSLET, KIRSTEN DUNST, TOM WILKINSON, MARK RUFFALO, ELIJAH WOOD, THOMAS JAY RYAN, JANE ADAMS, DAVID CROSS, RYAN WHITNEY, DEBBON AVER.

Música: JON BRION. Fotografia: ELLEN KURAS. Montagem: VALDIS OSKARSDÓTTIR. Desenho de produção: DAN LEIGH. Produção executiva: DAVID L. BUSHELL. Produção: ANTHONY BREGMAN, STEVE GOLIN. História: CHARLIE KAUFMAN & MICHEL GONDRY & PIERRE BISMUTH. Roteiro: CHARLIE KAUFMAN. Direção: MICHEL GONDRY.

Estréia no RJ:








Sinopse e comentário.



    Drama. Ao acordar de manhã com uma estranha sensação, Joel Barish resolve, no lugar de cumprir a rotina de ir para o trabalho, tomar um trem rumo a uma praia distante. Buscando algo que mude a sua vida, Joel acaba conhecendo Clementine, bela e inquieta jovem de cabelos azuis, com quem termina passando a noite. Quando vai visitá-la no trabalho, porém, surpreende-se não apenas ao ser recebido como um estranho, mas ao vê-la com um namorado. Confuso e desiludido, Joela vem descobrir que Clementine, utilizando os serviços da Lacuna Inc., empresa especializada em apagar as lembranças desagradáveis de seus clientes, simplesmente retirou-o de sua memória. Revoltado, Joel se submeterá ao mesmo processo para esquecê-la, só que, ao arrepender-se durante o procedimento, terá de lutar contra o tempo, numa desesperada fuga cerebral, antes que os técnicos da Lacuna eliminem todos os vestígios da passagem de Clementine por sua vida.


    Em tempos onde pouco ou nenhum valor se dá à memória, um filme como esse torna-se, só pela temática, no mínimo importante. Co-escrito por Charlie Kaufman (o inquieto e instigante autor de Quero Ser John Malkovich e Adaptação), Brilho Eterno de uma Noite Sem Lembranças empreende novamente um curioso jogo narrativo cuja ação se dá principalmente dentro da cabeça do protagonista, conseguindo situar o espectador num cenário caótico de lembranças que se misturam, se atropelam, se atravessam e lutam para não se perder. A direção de Michel Gondry (francês diretor de clipes de Björk, Chemical Brothers e Rolling Stones, entre outros, e do longa A Natureza Quase Humana, também com roteiro de Charlie Kaufman) obtém pleno sucesso tanto nas soluções encontradas para mostrar o desmantelo na mente do protagonista, com suas idas e vindas entre lugares - e tempos - desconexos, as figuras sem rosto, as repetições e vertigens, quanto no trabalho com um elenco primoroso. Jim Carrey mostra mais uma vez (já o fizera em O Show de Truman e O Mundo de Andy) o quanto é bom ator. Ostentando timidez e introspecção até no timbre de voz, ele se revela comovente sem deixar de fazer rir. Verdade que interpretar alguém que se apaixona por Kate Winslet não é tarefa das mais difíceis, mas ainda assim seu Joel Barrish encanta pela fragilidade que tenta esconder atrás dos silêncios de que Clementine tanto reclama.


    O filme envereda por vários caminhos para tratar da memória, e é feliz em mostrar o quanto o esquecimento é mais doloroso que a lembrança. Esquecer é perder. Sempre. E o roteiro diz isso de forma sutil, nos pequenos detalhes que irão provocar tanto a separação quanto o reatamento dos amantes que se transformaram em estranhos. Justamente os instantes de intimidade, seja para o carinho ou para o conflito, que ficam na lembrança não importando quantas folhas do calendário se tenha virado. No filme, é o encontro noturno sobre o lago congelado, são os apelidos, os diálogos espontâneos (às vezes parecendo improvisos), e mesmo as discussões e lavagens de roupa suja. É através da naturalidade, e do carisma da dupla de intérpretes, que o filme cativa o espectador.


    Mas não fica por aí, pois Brilho Eterno... é também uma curiosa fantasia futurista com direito a questionamentos éticos em relação aos avanços por que a medicina vem passando, que culminam em alucinada perseguição ao local no cérebro onde Joel teria escondido as últimas lembranças de Clementine. A seqüência é deliciosa com o protagonista atravessando cenários de seu passado e carregando a amada para os tempos de criança, e tem desdobramentos na história da personagem Mary, funcionária da Lacuna (empresa para a qual foi criada até página na internet, em http://www.lacunainc.com)vitimada pelo mau uso do poder. Com direito a um relacionamento desses de dar inveja, um final criativo e quase surpreendente, e uma trilha sonora pronta para amolecer o mais duro dos corações, Brilho Eterno... é filme para se ver abraçado. (M.L.)





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