Casino,
EUA/França, 1995.
Com ROBERT DE NIRO, JOE PESCI, SHARON STONE, JOHN WOODS,
DON RICKLES, ALAN KING, KEVIN POLLAK, L. Q. JONES, DICK SMOTHERS, FRANK VINCENT, JOHN BLOOM.
Abertura: ELAINE & SAUL BASS.
Montagem: THELMA SCHOONMAKER.
Desenho de produção: DANTE FERRETTI.
Fotografia: ROBERT RICHARDSON.
Baseado no livro de NICHOLAS PILEGGI.
Roteiro: NICHOLAS PILEGGI & MARTIN SCORSESE.
Produção: BARBARA DE FINA.
Direção: MARTIN SCORSESE.
Estréia no RJ: 15.03.1996.
Sinopse e comentário.
Filme de gângster. EUA, década de 1980. Jogador inveterado e
consciente, capaz de realizar os mais minuciosos cálculos e obter as informações mais
confidenciais para vencer tanto nas corridas de cavalos quanto na roleta, o judeu Sam "Ace"
Rothstein acaba sendo convidado pela máfia para dirigir um cassino. Se sai tão bem que os
chefões mafiosos, ao abrirem uma nova casa de jogos em Las Vegas (como forma de lavar dinheiro
sujo), o Tangiers, lhe entregam a direção geral, chamando ainda o criminoso Nicky Santoro,
amigo de infância de Rothstein, para servir-lhe como uma espécie de guarda-costas. Entre as
necessidades de agradar com cargos e privilégios a sociedade local, cuidar dos trambiqueiros e
verificar cada detalhe do cassino, Rothstein conhecerá a prostituta Ginger McKenna, por quem se
apaixonará a ponto de pedir-lhe em casamento, mesmo após ela dizer-lhe que não o ama. A
proposta que ele faz, no entanto, é tão vantajosa financeiramente que ela aceita, e logo
engravida. Mas os contatos com o cafetão Lester, que ele julgou ter cortado para sempre, irão
permanecer, além do fato de Ginger tornar-se uma viciada em bebida e drogas. Ao mesmo tempo,
por demitir um funcionário que é parente de um juiz, Rothstein começará a ser pressionado por
causa da prestação de contas do Tangiers, problema que se unirá à perseguição do violento Nicky
(cujo nome está intimamente ligado ao seu) pela polícia, e ao caso que seu amigo terá com
Ginger.
Conta o personagem de Robert De Niro que Las Vegas foi construída no
meio do deserto para que lá se enterrem os problemas. Conta também que os buracos onde os
"problemas" serão enterrados já deverão estar prontos, a fim de evitar perda de tempo e risco
de testemunhas. A cidade é um bem organizado sistema de pequenos e grandes roubos, desvios de
dinheiro, corrupção, trocas de favores. Tudo minuciosamente manipulado, para que nada escape ao
controle, como se seus dirigentes fossem os mais civilizados empresários. Só que Las Vegas,
como toda grande metrópole, é uma cidade de criminosos, e as noções de civilidade irão por água
abaixo cada vez que a ganância falar mais alto. E sempre fala.
Retomando a parceria com Nicholas Pileggi (autor com quem já havia
trabalhado no excelente Os Bons Companheiros, que, como este Cassino, baseou-se em
fatos reais), o cineasta Martin Scorsese quis conhecer as embreagens desse sistema. E não
deixou barato. Sua câmera curiosa invade corredores, entra na tesouraria, mostra esquemas
de roubos, acompanha técnicas de trapaças nas mesas de jogos, desfaz noções de amizade e amor,
ensina como burlar leis e fugir da vigia do FBI, e exibe com estilo o despencar de uma vida
feita de excessos e vícios (inclusive com uma tomada reproduzindo a visão de dentro do canudo
onde a cocaína está sendo sugada). Cassino acompanha dez anos da história da formação
dessas casas de jogo e crime, mostra o processo de transformação que acabou com os negócios
familiares e fez de Las Vegas um verdadeiro pólo industrial do entretenimento (para desgosto
de Rothstein, acostumado a conhecer de perto cada cliente).
Neste novo épico sobre a formação da sociedade americana contemporânea
através do crime, Scorsese sai de New York para Las Vegas, mas parece querer dizer que nada
mudou. O crime é o mesmo, as formas de sobreviver são as mesmas e as pessoas são as mesmas.
A semelhança deste filme com Os Bons Companheiros não é fruto do acaso, o que a
reprodução quase literal do personagem de Joe Pesci não deixa dúvidas. Agora que já sabe no que
o indivíduo se transforma, Scorsese quer descobrir as diferentes maneiras em que se dá essa
transformação. Ele bem que poderia abordar, num filme próximo, o império das telecomunicações
nos EUA. Ou, especificamente, a indústria cinematográfica, que conhece tão bem.
Com um Joe Pesci previsível e um Robert De Niro contido, sobra espaço
para Sharon Stone se sobressair no elenco. Sua Ginger é uma desequilibrada que vai rolando até
o fundo do poço e que não se importa em mentir, roubar, fazer escândalo, consumir drogas e dar
todo tipo de mau exemplo à filha (chega mesmo a amarrá-la na cama enquanto vai pro bar). Ciente
de que estava diante de um papel importante para dar uma guinada em sua carreira de musa
erótica, a atriz agarrou o papel com unhas e dentes, e é visível o esforço e a entrega com
que compõe a personagem. Há que se destacar ainda os ótimos diálogos, a bela fotografia, a
abertura já tradicional de Elaine & Saul Bass (antigos colaboradores de Alfred Hitchcock) e
seqüências de um humor irônico como a do avião do FBI sem gasolina, pousando no campo de golfe
de Rothstein.
(M.L.)