Chicago,
EUA/Canadá, 2002.
Com RENÉE ZELLWEGER, RICHARD GERE, CATHERINE ZETA-JONES,
QUEEN LATIFAH, JOHN C. REILLY, TAYE DIGGS, LUCY LIU, CHRISTINE BARANSKI, COLM FEORE,
DEIRDRE GOODWIN, DOMINIC WEST, MYA HARRISON, CHITA RIVERA, EKATERINA CHTCHELKANOVA.
Canções: JOHN KANDER.
Música: DANNY ELFMAN.
Fotografia: DION BEEBE.
Montagem: MARTIN WALSH.
Desenho de produção: JOHN MYHRE.
Produção executiva: JENNIFER BERMAN, SAM CROTHERS, NEIL MERON,
MERYL POSTER, BOB WEINSTEIN, HARVEY WEINSTEIN, CRAIG ZADAN.
Produção: MARTY RICHARDS.
Baseado na peça de MAURINE DALLAS WATKINS,
e no musical de BOB FOSSE e FRED EBB.
Roteiro: BILL CONDON.
Direção: ROB MARSHALL.
Estréia no RJ: 07.03.2003
Sinopse e comentário.
Musical. Chicago, década de 1920. Fascinada pela cantora e bailarina
Velma Kelly, que foi parar na cadeia após matar a irmã e o marido (a quem flagrou na cama), a
candidata a vedete Roxie Hart acaba indo parar no mesmo presídio, quando derruba a tiros o
amante que a enganou prometendo apresentá-la às pessoas certas no "showbiz". Atrás das grades,
Roxie vem a saber que Velma é não apenas uma espécie de "rainha da detentas", mas que será
impossível aproximar-se dela, pois é rechaçada pela própria a cada tentativa. É a carcereira
Mama Morton, espécie de comerciante local, capaz de vender desde um cigarro até um telefonema
às pessoas certas, que indica a Roxie a saída dali: contratar o famoso advogado Billy Flynn,
especialista em casos como o dela e vitorioso em todos os que participou. Sem querer saber se
Roxie é ou não inocente, Flynn aceita o novo trabalho, vislumbrando o prestígio e o dinheiro que
o caso lhe trará. E é através da divulgação de informações falsas e farta exposição na imprensa
que Roxie se tornará uma estrela atrás das grades, "a homicida mais adorável de Chicago", a
ponto de todos os seus pertences serem vendidos como peças de colecionador, convencendo até
Amos, o ingênuo marido traído de Roxie, que sonha em tê-la de volta. Quem não fica satisfeita
com a história é Velma Kelly, que, relegada a segundo plano por Flynn, decide se juntar ao
promotor Harrison (que sonha em ser governador) na tentativa de destruir Roxie.
Depois que Moulin Rouge abriu os olhos dos produtores americanos
para o fato de que o gênero musical ainda rende nas bilheterias, Hollywood foi buscar na
Broadway a nova fonte de lucros. Encontrou Chicago, musical criado pelo
autor-diretor-coreógrafo Bob Fosse a partir de uma peça escrita em 1926 narrando a história de
duas vedetes assassinas que alcançaram a popularidade em cima dos cadáveres dos maridos. Com a
morte de Fosse em 1988, a natural adaptação para a tela grande seria adiada até cair nas mãos
do diretor Rob Marshall, que até então era um estreante vindo do teatro. O resultado é um
espetáculo colorido, delirante, cheio de humor e charme, e ágil como pedem as platéias
contemporâneas (mas sem o desespero narrativo do já citado Moulin Rouge).
Ainda que o início não provoque comoção maior do que a causada pelo
impacto de ver o quanto Catherine Zeta-Jones está deliciosa e exuberante, Chicago cresce no
decorrer da trama. As estratégias utilizadas por Flynn para manipular a imprensa e o público
ávidos por sangue, e "preparar" a ré para o julgamento, ensinando-lhe truques e mentiras as
mais deslavadas, são cínicas e divertidas, e os números musicais (que no início vão pouco além
do convencional) tornam-se mais elaborados. O filme opta por comentar, com as canções, os fatos
que a trama apresenta, e com isso cria momentos interessantes como a seqüência do ventríloquo
(que comenta a primeira entrevista coletiva de Roxie), ou a da execução da presidiária húngara
(vista como um número circense de desaparecimento), até o clímax hilariante do julgamento, onde
Richard Gere assume toda a sua canastrice e entrega-se de corpo e alma ao exagero, conseguindo
enfim um momento memorável em sua carreira de galã sem talento.
O caráter de superprodução, que dá ao filme o luxo e a aparência
grandiosa por mais que a história se passe praticamente num único cenário (o do presídio), deve
ter possibilitado ao diretor Marshall realizar o pretendido sem restrições, inclusive com a
contratação de estrelas para os papéis principais. Nisso, além do deleite que é ver e ouvir a
citada Catherine Zeta-Jones, sobressai-se uma engraçadíssima e carismática Renné Zellweger, que
mesmo magricela e com uma vozinha anasalada se torna irresistível. Mas as pontas dessas
estrelas não parecem se encaixar, pois embora todas elas (inclusive os coadjuvantes Queen
Latifah, como a carcereira, e John C. Reilly como Amos) demonstrem forte capacidade para a luz,
não se vê a existência de uma química nas seqüências em que contracenam. Rob Marshall não
conseguiu fundir o brilho de seus atores nas cenas em que os coloca juntos, seja pelos ângulos
escolhidos, pelo exagero e artificialismo da narrativa, ou pela própria formação e estilo dos
atores. Embora tal falha seja ofuscada pelos cenários e pela montagem delirante, o que se
evidencia no visualmente impactante número em que as duas vedetes dançam juntas, fica-se a
imaginar o quanto Chicago seria melhor se seus atores, mais do que funcionar bem,
funcionassem bem juntos.
(M.L.)
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