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Ugo Giorgetti: urbano, paulista e perplexo
Maurício Limeira
Um mendigo andando pela rua, nu da cintura pra baixo, brada alegremente que "estamos
todos fodidos". Um velho jogador de sinuca arranca uma página de um guia de filmes eróticos e,
após guardá-la dentro do sapato, diz que "com tanta sacanagem, meu pé vai ficar quentinho". Um
jogador de futebol congela na noite paulista enquanto o colega de quarto leva uma fã para a
cama. Em todos esses momentos há, mais do que o deboche ou o gosto pelo nonsense, uma sensação
de espanto diante da vida. Há também um observador muito atento a detalhes que, mesmo
acontecendo bem do nosso lado, nos passam despercebidos. Um observador irônico e generoso, que
gosta de mostrar aos outros o que vê e, bom de conversa, não se furta a comentar a estranha
realidade em que se insere.
"Peraí, tu tá entrando na do escamoso. Aqui ninguém
vai te proibir de fazer pôrra nenhuma não."
O nome desse observador é Ugo Giorgetti. Paulista que ganha a vida com a
publicidade, embora tenha cursado Filosofia na USP e seja mais conhecido como diretor de
pequenas obras primas do cinema brasileiro, Giorgetti vem desde 1985 (ano em que estreou no
longa-metragem de ficção, com Jogo Duro) se dedicando a construir uma filmografia inquieta e
surpreendente. Cada filme, que ele também escreve, é um exemplo do que se pode fazer com poucos
recursos e muito a dizer. Seu universo é urbano, e, como a cidade em que vive, claustrofóbico,
confuso e plural. Daí ser comum ver, debaixo de um mesmo teto, músicos excêntricos e executivos
bêbados, produtoras de TV e agentes funerários, lutadores de boxe e corretores de imóveis. Seu
ponto de partida é a estranheza do encontro, seja entre classes (e mundos) diferentes, ou, como
em seus filmes mais recentes, entre tempos que, por uma razão ou por outra, se separaram.
"Putz, logo no dia de um Coríntians e
Palmeiras me aparece um rabo desses."
É sobre essa razão que Giorgetti se debruça. Mesmo que não traga respostas. Mesmo sem
querer ensinar nada a ninguém. Mesmo levando-nos a rir. Filmes como Festa,
Sábado e Boleiros - Era uma Vez o Futebol, têm uma notável capacidade de criar
situações que, sem jamais ultrapassar a fronteira do realismo, mostram o quanto o absurdo faz
parte de nossa condição social. Neles, questões como moradia e desemprego tornam-se razão de um
riso esquisito, quase nervoso, porque o humor que leva a este riso não está lá para esconder o
problema. Pelo contrário, escancara-o até o limite (do qual jamais passa) da caricatura. A
identificação é imediata, mesmo que se trate de um guarda que nunca deu um tiro, ou de um garçom
argentino obrigado a carregar um enorme cachorro. Os personagens são tão bem construídos e
interpretados que, muitas vezes, a impressão é de que se assiste um documentário, tamanha a
riqueza de detalhes de suas falas, sotaques, gírias e gestos.
"Muito prazer. Amigo do Esteves
é meu amigo também."
Não dá pra falar dos filmes de Ugo Giorgetti sem citar seus atores. Adriano Stuart e
Otávio Augusto são obrigatórios. O primeiro, um inesquecível jogador de sinuca em Festa,
faria depois pequenas pontas em Sábado e O Príncipe, e seria um dos protagonistas
de Boleiros. Stuart tem uma fala mansa e um jeito meio malandro e debochado que cai fácil
no gosto do público. Não é ator de grandes recursos dramáticos, mas tem carisma, inteligência e
humor suficientes para manter sobre si a atenção do espectador, e com isso fazer-se querido. Já
Otávio Augusto é ator completo. Pode ser agente de funerária gago, métrie rabugento, juiz ladrão
ou intelectual desiludido numa cadeira de rodas. Cada personagem seu é uma transformação que ele
realiza, e, assim como Stuart, dá gosto vê-lo em cena. Há também o Jesse James, coadjuvante que
protagonizou Jogo Duro (e que curiosamente não dá as caras em O Príncipe) e que é
uma espécie de marca registrada do diretor.
"Os Mesquita? Não, eles não fazem mesquita, não.
Eles fazem jornal."
Na crítica social que Giorgetti imprime a seus filmes verifica-se, mais do que revolta,
o espanto. É com perplexidade que o autor constata o resultado de tantas relações sociais mal
traçadas. A vida parece uma luta contínua por espaço, seja físico ou social, e do poder que
decorre daí e orienta o relacionamento entre as partes em conflito. O protagonista de Jogo
Duro usa o poder (mesmo que aparente) para seduzir a invasora; a equipe de filmagem de
Sábado faz da chantagem (fornecendo alimentos) o meio para que os moradores do edifício
aceitem não apenas a violência da invasão, mas o abuso na retenção do elevador. Assim o autor
vai, sutilmente, colocando diante do público a sua estranheza, o seu desconforto, ainda que
disfarçados pelo humor, que já disseram ser a melhor forma de criticar.
"Esses homens me odeiam...! Isso que ele
está dizendo é pura luta de classes... Mas que filho da puta!"
Em O Príncipe isso parece ter mudado. Embora haja alguns momentos de humor, o
novo filme de Ugo Giorgetti é um drama amargo e melancólico. Aqui ele deixou para trás o olhar
carinhoso sobre personagens humildes, voltando sua câmera para as elites intelectuais e
aumentando de maneira impressionante a contundência de sua crítica. O convívio com essa gente
(Giorgetti integrou conselhos de cultura) deve ter-lhe dado elementos de sobra para construir o
personagem Marino Esteves, um empresário da área cultural que vê a mesma apenas como mais uma
mercadoria. Pensamento que é regra em qualquer direção que se procure olhar, fazendo com que as
exceções sejam relegadas para algum canto obscuro do reconhecimento. Produto cultural é aquele
que se vende, e aquele que se vende é aquele que não propõe mudanças. É o que pode até vestir
uma capinha de insatisfação, mas que no fundo está aí para perpetuar o jogo cínico dos
privilégios. A estranheza, a perplexidade de Giorgetti, são assim, substituídas, em O
Príncipe, pela recusa. A reação do protagonista Gustavo, ao final curto e grosso do filme,
certamente já passou pela cabeça de muita gente. Surpresa é a reação do personagem Mário.
Cansado da exclusão do Brasil no processo das conquistas mundiais, propõe como única alternativa
a inclusão através da via imaginária: só inventando uma nova História do Brasil, como fazem os
anglo-saxões recusando o pioneirismo de Santos Dumont, é que poderia se dar a inserção do mesmo
no cenário mundial. Só inventando vários Santos Dumont, e repetindo à exaustão essa mentira até
torná-la realidade, é que nos tornaríamos enfim uma potência.
No caso do cinema, não precisamos inventar. Ugo Giorgetti é o nosso Santos Dumont. Só
falta os distribuidores perceberem isso, e darem ao grande público a chance de confirmar.
(As citações entre os parágrafos são de filmes de Ugo Giorgetti,
cujos títulos intencionalmente não incluímos.)
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