Misto de seção de cartas, livro de
recordações, agenda, diário, mural de recados, livro-caixa, manual
do escoteiro, guia de viagem, lista de compras, bloco de anotações,
caderninho de telefones.
É mais difícil lutar contra o mercado do que contra a
ditadura, porque você não sabe quem é o mercado. Ditadura você sabia: eram aqueles milicos
querendo prender a gente, dar porrada e cortando o que a gente fazia. O mercado está em volta
da gente mas não sabemos se estamos de frente ou de costas para ele.
Hélio Jaguaribe, o cartunista Jaguar, completando 71 anos
de vida e 51 de carreira, em entrevista ao jornal carioca Bafafá
A Letra A é o quarto álbum solo de Nando Reis e o primeiro após a sua
saída do Titãs, em fins de 2002, e a morte de Cássia Eller, sua maior intérprete.
Lançado por uma nova gravadora, produzido e composto pelo artista, segue as
referências de sempre: o folk rock de Neil Young e o soul rock
americano dos anos 1970. As canções ultrapassam o tradicional formato pop de 3 minutos
de duração, e têm, em suas letras barrocas, cheias de imagens - como ele mesmo
define -, o amor por tema principal. Quase todas são inéditas - exceto Luz dos
Olhos, Mesmo Sozinho e E tudo Mais - e contam com as participações
de Peter Buck, guitarrista do R.E.M., em duas faixas, e com o vocal de sua filha
Sophia, na faixa título.
Outro elemento de destaque do disco é o belíssimo projeto gráfico de Rodrigo Andrade,
todo em cor parda, com as letras reproduzidas em tipos de máquina de escrever. Belo
padrão, presente também na surpreendente e bem bolada tiragem especial em vinil duplo,
a qual poucos felizardos terão o privilégio de possuir. Essa foi uma idéia do próprio
Nando, referência proposital à forma como ele aprendeu a gostar de música, em vinil, e
sempre tendo o prazer de mudar o velho bolachão de lado.
Poderia se dizer que é um álbum nostálgico. Poderia se esperar uma ruptura. Nem uma
coisa, nem outra. O novo trabalho de Nando Reis é uma continuação. Como se
estivéssemos mudando um bom vinil de lado. (Cláudio Beserra)
Uma banda ensaiando no porão de uma alfaiataria é o ponto de partida para uma rara incursão num
universo de anônimos compiladores de coincidências, detectores de mensagens satânicas em discos
de vinil, autores profissionais de revelações obscuras, doentes de irrealidade crônica, agentes
imobiliários arrependidos, sociedades secretas e outros sonhadores, solitários e afins.
O criador dessa extensa galeria de personagens tão excêntricos quanto fascinantes é o português
José Carlos Fernandes. Seu álbum de quadrinhos O Quiosque da Utopia, primeiro
volume da série A Pior Banda do Mundo, é obra surpreendente para os padrões brasileiros
de HQ adulta. Do humor discreto e reflexivo não raro escapa um ar melancólico, enquanto o traço
rápido e expressivo carrega em tons pastéis. A coisa toda fica com cara de nostálgica, e quando
se vira a última página a vontade é de que a Editora Devir, que está publicando a obra no Brasil,
em Portugal e na Espanha, lance logo O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante, o
segundo volume da série.
"O que incomoda na solidão é passar tanto tempo da vida
sendo mais uma criatura sobre a face da terra, depois
de já ter sido a mais feliz e a mais importante."
Mario Cravo Neto iniciou-se na fotografia graças a um acidente de carro que o deixou sem
andar. Antes era escultor e produzia instalações. Com a câmera na mão, tornou-se dedicado
observador das particularidades de sua terra natal, a Bahia, e acumulou apresentações nos EUA e
na Europa, foi diretor de fotografia de filmes brasileiros e tem 14 livros publicados sobre sua
obra.
Na Terra_Sob meus pés, a exposição que vai até 21 de setembro no Centro Cultural Banco
do Brasil, é um exemplo pequeno do que ele faz. Em imensos slides vê-se de galinhas sacrificadas
a corpos semi-nus, de closes expressivos como o da foto ao lado a festas de rua. Cravo Neto
mistura sombras e cores quentes, é suave e feliz nos registros poéticos de pessoas e costumes.
Mas essa exposição, ainda que enriquecida com um fundo musical reproduzindo a batucada do
candomblé, deixa a dever em termos de quantidade. Melhor mesmo olhar a página oficial do artista,
em http://www.cravoneto.com.br.
A mocinha de sorriso esquisito é Sandra Brandão. De acordo com a revista Information
Week Brasil, que a colocou na capa de sua edição de 23.07.2003, Sandra é "responsável
por change management em TI da Shell". Na mesma frase, a revista informa que
"implementação de ERP virou benchmark global em satisfação do usuário". O leitor
carioca Alexandre Kogut, que nos mostrou a revista, ficou tão espantado quanto nós
(e você) com esse amontoado desnecessário de jargões em inglês. Há quem considere
demonstração de status, ou ache que a troca do termo "gerente" por "manager"
signifique uma promoção. Para nós, não passa de cafonice.