Um homem de cabeça quadrada tentou estuprar uma dona avançada em anos e o
bicho pegou legal. A senhora não gostou da investida e retalhou com enorme
violência. Sucedeu
mais ou menos assim: o tarado estava malocado em umas das muitas quebradas
desta cidade desalmada, quando uma representante do sexo frágil idosa,
completamente indefesa,
adentrou neste território sinistro e foi abordada por seu agressor de
moringa quadrangular.
O degenerado do crânio paralelepípedo pulou na frente da velha mulher com
seus documentos
à mostra. Num átimo a atacada sacou de um tesourão de desbastar touceiras e
capou seu desafeto em uma única tesoirada: "Zlupt!", a benga do sacana bateu no chão e
ficou pulando feito rabo de lagartixa podado. Sem dó nem piedade a velhota pisou no
pistolim, cuspiu em cima e disse com um vozeirão de tenor entre galhardas gaitadas: "Meu negócio
é outro!".
Rio de Janeiro, RJ - "Continuamos a 'deglutir vanguardas' ou tem-nos sido empurrado
goela abaixo toda a sorte de informações? O que fazer com a impossibilidade de
assimilação, o estado de aceleração, a síndrome do excesso de informação (dataholics),
os milhões de estímulos visuais, auditivos, diários, que crescem em ritmo
diametralmente oposto a reflexão?"
Assim o carioca Michel Melamed justifica o conceito de seu espetáculo teatral.
Regurgitofagia seria, ainda segundo ele, "vomitar os excessos a fim de
avaliarmos o que de fato queremos redeglutir". A proposta deu origem a um espetáculo
curioso e provocante, que retorna aos palcos depois de extensa temporada que confirmou
o sucesso de público e crítica.
Poeta, roteirista e apresentador, Melamed é dono de invejável capacidade de improviso
e verbalização. Tem intimidade com as palavras, carisma e talento. Em seu espetáculo
interpreta inesperados poemas e critica debochadamente os programas populares de TV e
mesmo alguns vícios do teatro. Não satisfeito, inventou uma coisa batizada de
"interface pau-de-arara": durante todo o espetáculo o artista mantém condutores de
eletricidade presos aos pulsos e aos calcanhares, ligados a uma parafernália sensível
ao ruído. Qualquer risadinha ou tosse da platéia, e Melamed leva um pequeno choque.
As pessoas se divertem com a maluquice, espécie de mini ritual de sadomasoquismo, mas
independente disso Regurgitofagia é muito bom. Está em cartaz até o fim do
no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema.
O Verde no Vermelho
O incansável cartunista Biratan Porto não pára. Tanto que esse paraense já
está lançando mais um livro na praça. "O Verde no Vermelho" é uma coletânea de cartuns
ecológicos publicada com o apoio da Prefeitura de Belém, que teve lançamento na
Arena do Memorial dos Povos, na mesma cidade. Mais informações:
biratan@amazon.com.br.
Filme Noir
Rio de Janeiro, RJ - Não é pra qualquer um reproduzir num palco os elementos que
consagraram um estilo essencialmente cinematográfico. Pois a Cia. Pequod - Teatro de
Animação, trouxe para o teatro todo o ambiente esfumaçado, as sombras, os personagens
tortuosos, a narração em off, a mulher fatal, o anti-herói decadente e até mesmo
o preto-e-branco que caracterizavam esse quase gênero tipicamente americano, criado
nos anos 40. Filme Noir é um curioso espetáculo de bonecos que não se limita
em reproduzir uma linguagem num ambiente para a qual não foi criada, mas perverte-a
com humor e um inteligente discurso metalingüístico. Com direção e roteiro de Miguel
Vellinho, está em cartaz no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, até o fim do mês. Mais
informações em www.pequod.com.br.