El Crimen del Padre Amaro,
México/Espanha/Argentina/França, 2002.
Com GAEL GARCÍA BERNAL, SANCHO GRACIA, ANA CLAUDIA TALANCÓN,
DAMIÁN ALCÁZAR, ANGÉLICA ARAGÓN, LUISA HUERTAS, ERNESTO GÓMEZ CRUZ, GASTÓN MELO, ANDRÉS MONTIEL,
GERARDO MOSCOSO, ALFREDO GONZÁLES, PEDRO ARMENDÁRIZ JR., VERÓNICA LANGER, LORENZO DE RODAS,
ROGER NEVARES, BLANCA LOARIA.
Baseado no romance de JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS,
escrito em 1875.
Roteiro: VICENTE LEÑERO.
Música: ROSINO SERRANO.
Fotografia: GUILLERMO GRANILLO.
Montagem: OSCAR FIGUEROA.
Produtores associados: CLAUDIA BECKER, SCOT EVANS,
ATAHUALPA LICHY.
Produção executiva: LAURA IMPERIALE.
Produção: ALFREDO RIPSTEIN, DANIEL BIRMAN RIPSTEIN.
Direção: CARLOS CARRERA.
Estréia no RJ: 21.02.2003.
Sinopse e comentário.
Drama. México, 2002. Recém ordenado e gozando da simpatia do bispo,
o jovem padre Amaro chega à cidadezinha de Los Reyes para acompanhar o padre Benito. O contato
com a comunidade aos poucos revelará que são bem distintos dos pregados pela Igreja os valores
que regem as relações na cidade. Acobertado pelo bispo (e pelo prefeito, que fecha os olhos a
tudo), o padre Benito mantém íntima porém discreta relação com Don Chato, chefe local do
narcotráfico, que usa a construção de um hospital para lavagem de dinheiro. Padre Benito mantém
ainda um romance secreto com Agustina, dona da taberna local, ao mesmo tempo em que se manifesta
contra opiniões progressistas, como o fim do celibato dos padres, e mesmo a Teologia da
Libertação, pregada pelo Padre Natário, acusado de apoiar os guerrilheiros e por isso mesmo
ameaçado de excomunhão. Procurando manter-se alheio a isso tudo e limitando-se a obedecer as
orientações de Benito (por mais que lhe pareçam eticamente duvidosas), Amaro terminará por
conhecer a bela Amélia, jovem filha de Agustina, nascendo daí um romance proibido que, como em
toda comunidade pequena, não ficará por muito tempo em segredo. Ruben, o jovem jornalista
rejeitado por Amélia, ao fazer uma reportagem denunciando as relações de Benito com Don Chato,
terminará sendo afastado do jornal por pressões da Igreja, representada no caso por Amaro, com
quem irá fatalmente se chocar.
Não é novidade nem surpresa que este filme não tenha obtido as graças da
Igreja. Tanta podridão dentro de tão sagrado ambiente, partindo de pessoas cuja obrigação seria
justamente a de preservar a pureza (da alma, pelo menos) da comunidade em que se insere, provoca
natural repulsa nos setores ultraconservadores desta instituição. Tanto melhor. Relações
promíscuas entre padres e fiéis (e entre a Igreja e o poder), a imprensa não se cansa de
mostrar, ocorrem com freqüência, e negar isso é perpetuar crimes bem piores como a pedofilia,
que aliás o filme não cita. Fora as referências ao narcotráfico, a discussão maior de O
Crime do Padre Amaro limita-se mesmo ao tal pecado da castidade, a grande aberração da
Igreja católica, que ao obrigar ao celibato os seus agentes, seres humanos antes de qualquer
outra coisa, os leva a agir contra a sua própria natureza. Não seria exagero sugerir que a
própria Igreja corrompe os seus padres, proibindo aquilo que é natural, e, portanto, divino. No
caso de Amaro e Benito, e de tantos outros de que não temos conhecimento, a proibição levou à
desobediência. E a primeira desobediência, por parecer tão pequena, levou à segunda, gerando um
círculo vicioso de "pecados", e de mentiras para encobrir tais pecados. O resultado foi a
tragédia.
Há no filme a clara intenção de humanizar ao máximo, através da exibição
de seus defeitos, os personagens. Assim, mostra-se o grotesco de figuras como Dionísia, a
religiosa louca que rouba hóstias para dar aos gatos e leva jovens grávidas para suspeitas
clínicas de aborto. Ou o próprio bispo, exibido de forma grotesca entrando nu na banheira,
gordo como um Nero pronto para cair na farra, corrupto como um senador brasileiro, cínico como
a grande maioria dos homens que utilizam o poder em benefício próprio. Há Getsemani, infeliz
doente mental de que se aproveitam os amantes usando-a como álibi para seus encontros. E há
Amaro, jovem, belo e ambicioso, cuja paixão o torna profano a ponto de dizer que Amélia, vestida
com a manta destinada a uma imagem de Nossa Senhora, "é mais linda do que a Virgem". Mas
calculista o bastante para rejeitar a opção de largar a batina e exigir de Amélia os piores
sacrifícios para manter o romance em segredo. Ninguém parece prestar nessa história, e, ao
contrário do que afirma o bispo, a graça não "sobreabunda" onde o pecado abunda.
Com uma narrativa direta e, como disse Susana Schild no site
www.criticos.com.br, " sem enveredar por sutilezas, ambigüidades, metáforas, ou simbolismos", o
filme ainda assim obtém momentos de notável sensibilidade protagonizados pelo casal
Amaro/Amélia. As seqüências no confessionário e a do primeiro beijo, por mais que sejam óbvias,
carregam um romantismo que sempre atinge o seu objetivo, no caso graças ao desempenho dos
atores. Gael García Bernal surpreende conseguindo transmitir todas as nuances do jovem padre em
crise que se deixa vencer pelas tentações, enquanto que Ana Claudia Talancón esconde atrás de
um delicioso rostinho angelical suas limitações como atriz.
(M.L.)
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