Arrogância
Átila Nunes
Quando uma empresa não responde às reclamações de seus clientes, isso se chama
arrogância. Arrogância em achar que está à margem da lei, à margem do que pensa
o seu cliente, do que pensam os leitores dos jornais, do julgamento das autoridades
ou do seu conceito no poder judiciário.
O Código de Defesa do Consumidor é uma lei. Na verdade, é muito mais
do que isso. Depois do voto, é o maior instrumento de cidadania até hoje criado
no país.
Mas a arrogância dos que violam o código tem várias faces. Uma delas é a omissão.
É o silêncio. É a indiferença. É a típica atitude de quem se finge de morto
e aposta no esquecimento, no cansaço do consumidor ou na demora de uma decisão
judicial.
Nas previsões dos supermercados, sempre é considerado um por cento de prejuízo
em razão de furtos. Algumas empresas devem trabalhar com a mesma filosofia.
"Ora, se temos tantos clientes, ignorar as reclamações de alguns não significará
tanto no nosso resultado financeiro." - essa é a filosofia.
Para se ter uma idéia de como funciona o sistema, é preciso entender que é
necessário um advogado júnior (R$ 1.000,00 mensais) para cuidar de 40 processos
administrativos nos órgãos de defesa de consumidor ou na Justiça mensalmente.
Quer dizer: uma grande empresa gasta apenas R$ 25,00 por cada reclamação
que chega ao juizado especial cível. Como a maioria dos consumidores não tem
meios (e tempo) de recorrer à defensoria pública (leia-se filas intermináveis),
são poucos que realmente dão dor de cabeça a essas empresas.
Para essas empresas, é uma questão de custo-benefício. Para uma reclamação
de uma cobrança indevida de R$ 200,00 numa conta telefônica, por que não a
empresa "investir" R$ 25,00 (custo dos serviços profissionais de um jovem advogado)
para adiar uma solução? As chances são grandes. Afinal, o consumidor pode ficar
intimidado em brigar na Justiça. Fica com medo de brigar "com gente grande".
Dependendo do valor (acima de 20 salários mínimos), o consumidor tem que contratar
um advogado (quem tem um?). São meses de briga inglória, enquanto seu nome
já foi parar no SPC e no Serasa.
Ganham no cansaço. Eu disse ganham? Então eu me equivoquei. De fato, essas
empresas que apostam no cansaço do consumidor, não ganham. Ao contrário, perdem.
Perdem o respeito da sociedade brasileira. Perdem clientes que multiplicam
seu ressentimento em rodas de conversas com amigos, parentes, vizinhos e colegas
de trabalho. Aí funciona o marketing boca a boca negativo. Que aniquila inúmeras
empresas todo ano. Todo mês. Todo dia. A toda hora.
Essa é a maior punição de uma empresa arrogante: o descrédito nas ruas retratado
nas charges dos jornais. Sua morte é uma questão de tempo.
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