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Depois de Horas


After Hours,
EUA, 1985.



Com GRIFFIN DUNNE, ROSANNA ARQUETTE, VERNA BLOOM, THOMAS CHONG, LINDA FIORENTINO, TERI GARR, JOHN HEARD, CHEECH MARIN, CATHERINE O’HARA, DICK MILLER, WILL PATTON, ROBERT PLUNKET, BRONSON PINCHOT, LARRY BLACK, MURRAY MOSTON.

Produtor associado: DEBORAH SCHINDLER. Desenho de produção: JEFFREY TOWSEND. Música: HOWARD SHORE. Montagem: THELMA SCHOONMAKER. Fotografia: MICHAEL BALLHAUS. Escrito por JOSEPH MINION. Produção: AMY ROBINSON, GRIFFIN DUNNE, ROBERT F. COLESBERRY. Direção: MARTIN SCORSESE.

Estréia no RJ:





Sinopse e comentário.



    Comédia urbana. Programador cansado da rotina do trabalho, o franzino Paul Hackett leva uma vida tediosa e solitária. Mas o acaso parece enfim lhe sorrir, e num café Paul conhece Marcy, linda garota com quem marca um encontro no badalado bairro do SoHo, onde ela mora com uma amiga artista plástica. A caminho do encontro, no entanto, o desastrado Paul deixa que o vento carregue sua única nota de 20 dólares pela janela do táxi, ficando sem dinheiro mas indo assim mesmo ao encontro. A noite, que parecia promissora, começa a ir por água abaixo quando ele, desconfiado e impaciente com o comportamento paranóico e depressivo dela, a abandona após uma discussão. Perdido, sem dinheiro, longe de casa e na chuva, Paul acaba entrando num bar, onde é cortejado por uma garçonete de comportamento ainda pior do que a mulher que acabara de deixar. Tem início então uma longa noite de desencontros, confusões, mal entendidos e até morte, e, após conhecer as pessoas mais estranhas, Paul terminará acusado de roubo e tendo de fugir, com a vida em risco e perseguido pelas ruas por um bando de vigilantes que o confundiram com um ladrão.


    Quando lançado nos cinemas brasileiros, um crítico disse que Depois de Horas servia apenas como exercício de estilo do diretor Martin Scorsese, pois não trazia qualquer conteúdo. Engana-se o crítico. No filme, estão muito bem retratados o ritmo de vida dos centros urbanos, a solidão e a confusão social que leva, entre outras conseqüências, ao individualismo, à desconfiança e ao conflito. A mesma insatisfação que acomete o protagonista também é encontrada tanto no caixa da lanchonete (que ensaia passos de dança enquanto atende os fregueses) quanto na garçonete que "odeia" o emprego. As tribos urbanas dividem-se e isolam-se, recusando o contato de outros que lhe sejam diferentes (o que acontece com Paul, quando tenta entrar na festa punk). Pessoas carentes levam para dentro de casa estranhos que acabaram de conhecer na rua. A população vive um duelo entre a solidão e o medo, e o risco acaba se tornando um paliativo para a falta de soluções.


    Mas o filme, no entanto, não é nenhum tratado ambicioso ou depressivo sobre a paranóia urbana nos anos 1980. O que Martin Scorsese quis demonstrar, através de um humor nervoso e uma narrativa alucinada, é o completo absurdo da vida contemporânea, e como a noite e o dia podem separar mundos completamente diferentes. "Depois da meia-noite as regras mudam", diz um personagem. O que não quer dizer que mudem sempre para melhor. Para Paul Hackett, o que a princípio parecia interessante e tentador (o despojamento inicial de Marcy, o flerte com a amiga desta, vivida por uma deliciosa Linda Fiorentino em começo de carreira), aos poucos se revela estranho e obsessivo, e quando ele se dá conta está envolvido num turbilhão de eventos dos quais não consegue escapar. De repente, aquilo que não passava de desconforto no uso das palavras erradas (e Paul parece não dar uma dentro), é visto como agressão violenta, e a inofensiva vontade de voltar para casa se transforma em desespero, a ponto de, num dos melhores momentos do filme, o protagonista cair de joelhos no meio da calçada e gritar para os céus: "O que você quer de mim? Eu sou só um programador!".


    Como Paul Hackett, o até então apagado Griffin Dunne parece ter encontrado o papel de sua vida. Suas expressões, que começam com o tédio, passam para o estranhamento (e são ótimos os olhares desconfiados que ele lança quando, por exemplo, a garçonete pergunta se ele gosta dos Monkees) e descamba na completa histeria, levam muitas vezes a gargalhadas cúmplices de quem já se viu em situação parecida. Seja a falta de dinheiro, ou a descarga do banheiro que vaza, ou a incapacidade de usar o telefone, é imediata a identificação com o anti-herói. Que explode em revolta, no momento em que narra sua jornada ao homossexual que o recolheu, para depois implorar pela vida enquanto dança com uma outra mulher, ao som da bela Is that all there is? , na voz de Peggy Lee (que transmite todo o abandono do protagonista). A música no filme acaba sendo outro ponto alto. Das peças clássicas às canções tradicionais, passando pelo belo e sutil tema de Howard Shore, o inusitado tem sua representação musical garantida. A destacar, ainda, a beleza de Rosana Arquette, a inventividade do roteiro de Joseph Minion (que, como Griffin Dunne, depois desse filme não faria mais nada de interessante) e a ponta do diretor Scorsese na festa punk, segurando um refletor. (M.L.)










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