The Motorcycle Diaries,
EUA / Alemanha / Reino Unido / Argentina, 2004.
Com GAEL GARCÍA BERNAL, RODRIGO DE LA SERNA, MIA MAESTRO,
SUSANA LANTERI, MERCEDES MORÁN, JEAN PIERRE NOHEN, GUSTAVO PASTORINI, JAIME AZÓCAR,
ULISES DUMONT, FACUNDO ESPINOSA.
Fotografia: ERIC GAUTIER.
Desenho de produção: CARLOS CONTI.
Montagem: DANIEL REZENDE.
Produção executiva: ROBERT REDFORD.
Produção: MICHAEL NOZIK, EDGARD TENENBAUM, KAREN TENKHOFF.
Baseado no livro De moto pela América do Sul,
de ERNESTO "CHE" GUEVARA,
e no livro Com Che pela América do Sul,
de ALBERTO GRANADO.
Roteiro: JOSE RIVERA.
Direção: WALTER SALLES.
Estréia no RJ: 07.05.2004.
Sinopse e comentário.
Drama social. Argentina. Em 4 de janeiro de 1952, o jovem estudante
de medicina Ernesto Guevara e o amigo, o bioquímico Alberto Granado, lançam-se numa viagem pelo
continente latino-americano, a fim de conhecer aquilo que só sabem dos livros. Montados numa
motocicleta que, apesar de batizada como "La Poderosa", está caindo aos pedaços, a dupla planeja
seguir da Argentina até a Venezuela, percorrendo em 4 anos os oito mil quilômetros que separam
os dois países. A viagem, que nos primeiros momentos renderia divertidas situações, se revelará
no entanto uma experiência além do passeio turístico, quando Guevara e Granado, ao travarem
contato com a relação desigual entre os mineradores chilenos e a multinacional que controla a
região, começam a conhecer a miséria e a injustiça, gerando um sentimento de revolta que só fará
crescer até a chegada ao leprosário de San Pablo, na Amazônia peruana.
O Ministério da Saúde poderia advertir a nossos jovens que viagens pelo
interior do país (ou do continente) fazem bem para a formação social. Aos 23 anos, Ernesto
Guevara de la Serna era um tímido e desengonçado rapaz de classe média, muito longe do mito que
se tornaria, ao liderar com Fidel Castro a Revolução Socialista Cubana e tomar parte na luta
revolucionária internacional, até ser executado em 1967, na Bolívia. Hoje Guevara é símbolo de
rebeldia no mundo inteiro, e sua cara barbuda e adornada com uma boina se tornou a imagem mais
estampada pelas camisetas do planeta. Foi essa viagem, realizada junto com o amigo gordinho e
gaiato Alberto, que germinaria no ainda estudante o sentimento de revolta contra a miséria, a
desigualdade e a injustiça, tanto através do contato físico quanto pelas leituras que o
acompanhavam a cada cidade onde vinha parar. Mais do que revolta, havia também em Guevara uma
determinação em mudar esse estado de coisas, coisa rara de ser ver em tempos atuais de
ignorância, comodismo e salve-se quem puder. Hoje, tudo aquilo que o futuro revolucionário
combatia piorou, a miséria que se escondia no interior veio para a cidade, e para vê-la basta
pôr o pé fora de casa. Por que não surgem então dezenas de "Ches", um em cada esquina? Porque o
leprosário que antes era confinado em ilhas distantes mudou de lugar, e agora está dentro de nós.
Na cadeira de diretor, o brasileiro Walter Salles parece sentir-se em
casa. Trabalhando novamente com o que deve ser seu gênero favorito, o filme-de-estrada, e que já
lhe rendeu a obra-prima Central do Brasil, Salles desta vez ampliou seus horizontes, e,
da terra natal, trouxe ao público a beleza assustadora da paisagem de nossos vizinhos
latino-americanos. Mas o espectador acostumado com seus filmes só deve estranhar o idioma, pois
há muito de familiar em Diários de Motocicleta: estão lá a mesma paixão pelo ser humano,
o mesmo prazer em descobrir e revelar, a mesma câmera intimista, mostrando de forma quase
romântica (por mais que documental) aquela gente que nos passa despercebida e cujo simples ato
de sobreviver as faz maiores do que os que as roubam, maltratam ou apenas ignoram. Salles tem os
olhos voltados sempre para eles, e seus personagens acabam indo na mesma direção. O rito de
passagem por que passam Guevara e Granado é também tema recorrente na obra do cineasta, sendo
que aqui foi maior a preocupação em que essa passagem fosse a mais sutil possível, visto que o
personagem retratado é uma figura histórica cujo destino o público já conhece. Assim,
procurou-se de humanizar ao máximo a figura do Che, e para isso Diários de Motocicleta
inicia leve e engraçadinho. Trapalhadas como as quedas de "La Poderosa", confusões com mulheres
(e seus respectivos maridos) nas cidades por onde passam, o tiro no pato, o cachorrinho chamado
Come Back. Tudo isso serve para, além de gerar identificação com os simpáticos protagonistas,
desviar a expectativa de quem assiste para a gradual mudança narrativa. O filme aos poucos vai
ficando denso, primeiro com a senhora doente que Guevara vai tratar. Depois com os mineradores.
E quando se dá conta o espectador já está diante de um jovem que diz ao amigo que "uma revolução
sem armas é impossível".
Diálogos de Motocicleta tem uma narrativa correta, correta até
demais. Previsíveis, as seqüências no início não escondem a função de ocupar o tempo até a
segunda metade do filme, e não têm sustentação própria. Chega a surpreender como um narrador
sensível e inteligente como Salles não foi capaz de construir momentos melhores do que a estada
dos protagonistas na casa de Chichina, a namorada de Ernesto que depois o abandona. E é curioso
como, e isso já foi dito por outros críticos, ao tentar humanizar o mito, Salles só fez
aumentá-lo, afastando-o de qualquer complexidade. Por mais que bem interpretado pelo simpático
Gael García Bernal, o Guevara de Walter Salles é bonzinho, muito bonzinho, muito ético e valente
até o fim. Não tem indecisões, jamais recua, não erra, e ainda arrisca-se ao se atirar nas águas
geladas de um rio, à noite, para juntar-se aos leprosos. Mais um pouco e, no lugar de nadar,
Guevara caminharia sobre as águas. Seus únicos momentos de humanidade são durante as crises de
asma, uma delas fortíssima e angustiante, com o barulho da respiração pesada entrando pelos
ouvidos do espectador e por pouco não o levando a sufocar junto com o protagonista.
O Há em Diários... uma proposta claramente política, e esta não é
glorificar Che Guevara ou propor a luta armada. No único discurso proferido em todo o filme,
Ernesto faz uma declaração de amor à América Latina e a seu povo, e incita as freiras, os
médicos, enfermeiros e leprosos ao redor rumo ao caminho da necessária integração do continente.
A mensagem, mais oportuna e atual impossível, já vinha sendo transmitida desde o começo do
filme / viagem, e ao explicitá-la Salles obteve, aqui, seu momento de maior emoção e
importância, de que seqüências seguintes, como as das imagens em preto-e-branco das pessoas
vistas pelo caminho, ou mesmo a do rio, seriam apenas confirmação. A destacar, ainda, a atuação
de Rodrigo de la Serna, primo em segundo grau de Che Guevara na vida real: seu Alberto Granado,
mais do que engraçadinho, é tudo aquilo que falta a Ernesto. Com demonstrações de fraqueza,
egoísmo e sarcasmo alternando com a profunda admiração pelo amigo, Alberto termina por tornar-se
figura mais convincente do que o próprio Che.
(M.L.)