Diracy Vieira
O relógio marcava uma da tarde quando entrei correndo no quarto. Vi minha mãe aos berros em cima
da cama. Não me contive, gritei desesperada: morreu? Não. Os olhos dele encontraram os meus com
espanto. Morri eu. Seus olhos fixos no nada. Talvez quisessem dizer alguma coisa. Não conseguia
mais falar nada. Olhava para mim. Aquele olhar que pedia socorro e deixava-nos em pânico. Seu
corpo sedado, apenas esperava a hora de ir embora para nunca mais. As pessoas se batiam dentro
do quarto. Uns choravam, outros se afligiam em silêncio. Eu contemplava a sua face calma,
enigmática, observando cada movimento nosso.
Seus olhos pareciam procurar os meus. E talvez tentassem entender o nosso desespero. Suas mãos,
espalmadas na cama, pareciam entregar os pontos, entregar os minutos, entregar os bons e maus
momentos que vivemos, os dias frios, os dias sem graça nenhuma. As brincadeiras de criança,
esqui nas corredeiras da chuva, os casamentos de bonecas de papel com pilhas ray-o-vac médias.
Casinha de boneca no fundo do quintal. Comidinha feita em panelas de barro compradas na feira. O
sonho de ser gente grande. A nossa infância atropelada.
Enfermeiras verificavam o seu pulso minuto a minuto. Ele lutava, ia e vinha numa luta desigual
contra a doença. Podia ainda ouvir a sua vozinha, na noite anterior, pedindo-me para dormir com
ele. Era minha folga. Estava indo para casa. Ele insistia: dorme comigo, dizia numa voz quase
infantil. Um menino grande com voz infantil.
Nunca tivemos uma festa de aniversário quando crianças. Fomos obrigados a crescer logo. Mas
lembro de minha mãe a entrar no quarto em cada aniversário com uma rosa nas mãos.... Nunca
esqueceu nenhum dos três. Três irmãos. Onde será que havíamos perdido a nossa infância?
Enquanto me lembrava do seu último aniversário, observava seus olhos vagantes indo e vindo, como
se resistisse ao inevitável. No dia do seu aniversário, não pensamos em comemorar. 31 anos.
Ninguém agüentava. Apenas o cumprimentamos. Sábio, escondido dentro de si mesmo, ele apenas
fechou os olhos naquele quarto e fez-se de morto, com a antiga mania de avestruz a enterrar a
cabeça na areia. Era um domingo sem graça. Na quarta-feira, resolvi que não podíamos deixar de
festejar. E fizemos um bolo. No quarto do hospital, dormi abraçadinha a ele, com medo de que os
médicos me mandassem sair de cima de sua cama. Aproveitei que conseguiu dormir às cinco da manhã
e corri a pregar bolas e cartazes por todo o quarto, voltando em seguida para a cama. Fiquei
quietinha, esperando-o acordar. Abriu os olhos ainda na! penumbra do quarto e observou
lentamente as bolas coloridas. Esfregou os olhos. Outra vez. Não acreditava no que estava vendo.
Sussurrou algo como: nunca tive uma festa de aniversário. E eu chorei caladinha. Ele sabia que
algo não estava bem. Parecia que compreendia que estava indo embora. Passou a quarta-feira
distribuindo fatias de bolos aos médicos e às enfermeiras. Estava feliz na sua condição de
adulto que voltava a ser criança. Onde será que havíamos perdido a nossa infância?
As horas se passavam. Seu olhar ainda vivo. Parecia me contar os seus segredos. Eles falavam.
Ele morria. Era muito esquisito eu não conseguir chorar. Ele ia embora e eu ouvia os sons das
crianças brincando no pátio do hospital, alheias ao que se passava dentro do quarto. Minha mãe
chorava desesperada. Meu pai, viajando em seu mundo pessoal, falava amenidades. Acho que ele
tinha medo de aterrizar. Acho que meu pai sempre teve medo, a vida toda, de crescer e ser mais
adulto que nós. E o olhar dele, perdido, contemplava o quarto inteiro. E o movimento aflito das
enfermeiras que o tratavam com um carinho quase materno.
No pátio do hospital, crianças brincavam. Eu não entendia porquê.. Minha mãe me mandava fazê-las
calar. Elas sorriam, brincavam com o meu pai como se fossem da mesma idade. Elas não entendiam o
que se passava no quarto. Eu não entendia o que se passava no pátio. As crianças não aceitavam o
fato de não poder entrar. Ali, apenas esperávamos, desde as três da manhã, que tudo aquilo
terminasse. Ou que a noite chegasse e nós pudéssemos acordar ilesos daquele pesadelo. Na
verdade, eu queria tomar sorvete de creme com passas com ele. Onde será que havíamos perdido a
nossa infância? Estava confusa.
Seus olhos iam e viam. Seu pulso também. Médicos se movimentavam, e seu corpo lutava. Ele
morria; seus olhos não. Nunca esqueci aquele olhar. Nunca ninguém falou tanto enquanto morria.
Também, nunca vi alguém morrer. Sempre fingi ser criança nessas horas. Mas agora, ninguém me
impedia de ser adulta, eu precisava sê-lo. Quando a hora chegou, eram três da tarde. Seus
movimentos eram os mais terríveis. Eu o olhava fixamente. Eu podia consolar a minha mãe, e
cobrir o menino, que perdia a luta e entregava os pontos. Mesmo aí, não parou de olhar tudo.
Acompanhava-nos atentamente. O corpo inerte, apenas seus olhos gritavam. E eu voltava a ser
criança. Por que não conseguia chorar como todos ali no quarto? Eu acompanhava o olhar do
menino, enquanto segurava a sua mão, com força, e agrade! cia a nossa infância interrompida,
quando a vida nos obrigou a ser adultos. Senti que não me segurava. Não me conformava de perder
a luta. Peter Pan crescendo e dando adeus à vida. Poderia ter parado ali de sonhar. E de falar.
E entregar-me ao choro coletivo. Mas só consegui chorar, quando seus olhos se fecharam e não
falaram mais nada. Emudeci, calando a alma quando ele parou de sonhar. E fechei os olhos
tentando acompanhá-lo nessa viagem sem volta, onde adultos não sabem sonhar.
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