Principal
   Editorial
   Tonitruâncias
   O Cisco de Olho
   Colunas
   Cinema & TV
   Filmoteca
   Programação
   Teatro
   Poesia
   Quadrinhos
   Ciscando
   Galeria
   Livros do Cisco
   Todos os Autores
   Grupo de Discussão
   Piadas
   Doações
   Serviços
   Créditos
   E-mail

  Busca



No Cisco Na web

                 Fornecido por FreeFind


leitor(es) de bom gosto
onl
ine
    
Olhos que Calam
Diracy Vieira


    O relógio marcava uma da tarde quando entrei correndo no quarto. Vi minha mãe aos berros em cima da cama. Não me contive, gritei desesperada: morreu? Não. Os olhos dele encontraram os meus com espanto. Morri eu. Seus olhos fixos no nada. Talvez quisessem dizer alguma coisa. Não conseguia mais falar nada. Olhava para mim. Aquele olhar que pedia socorro e deixava-nos em pânico. Seu corpo sedado, apenas esperava a hora de ir embora para nunca mais. As pessoas se batiam dentro do quarto. Uns choravam, outros se afligiam em silêncio. Eu contemplava a sua face calma, enigmática, observando cada movimento nosso.

    Seus olhos pareciam procurar os meus. E talvez tentassem entender o nosso desespero. Suas mãos, espalmadas na cama, pareciam entregar os pontos, entregar os minutos, entregar os bons e maus momentos que vivemos, os dias frios, os dias sem graça nenhuma. As brincadeiras de criança, esqui nas corredeiras da chuva, os casamentos de bonecas de papel com pilhas ray-o-vac médias. Casinha de boneca no fundo do quintal. Comidinha feita em panelas de barro compradas na feira. O sonho de ser gente grande. A nossa infância atropelada.

    Enfermeiras verificavam o seu pulso minuto a minuto. Ele lutava, ia e vinha numa luta desigual contra a doença. Podia ainda ouvir a sua vozinha, na noite anterior, pedindo-me para dormir com ele. Era minha folga. Estava indo para casa. Ele insistia: dorme comigo, dizia numa voz quase infantil. Um menino grande com voz infantil.

    Nunca tivemos uma festa de aniversário quando crianças. Fomos obrigados a crescer logo. Mas lembro de minha mãe a entrar no quarto em cada aniversário com uma rosa nas mãos.... Nunca esqueceu nenhum dos três. Três irmãos. Onde será que havíamos perdido a nossa infância?

    Enquanto me lembrava do seu último aniversário, observava seus olhos vagantes indo e vindo, como se resistisse ao inevitável. No dia do seu aniversário, não pensamos em comemorar. 31 anos. Ninguém agüentava. Apenas o cumprimentamos. Sábio, escondido dentro de si mesmo, ele apenas fechou os olhos naquele quarto e fez-se de morto, com a antiga mania de avestruz a enterrar a cabeça na areia. Era um domingo sem graça. Na quarta-feira, resolvi que não podíamos deixar de festejar. E fizemos um bolo. No quarto do hospital, dormi abraçadinha a ele, com medo de que os médicos me mandassem sair de cima de sua cama. Aproveitei que conseguiu dormir às cinco da manhã e corri a pregar bolas e cartazes por todo o quarto, voltando em seguida para a cama. Fiquei quietinha, esperando-o acordar. Abriu os olhos ainda na! penumbra do quarto e observou lentamente as bolas coloridas. Esfregou os olhos. Outra vez. Não acreditava no que estava vendo. Sussurrou algo como: nunca tive uma festa de aniversário. E eu chorei caladinha. Ele sabia que algo não estava bem. Parecia que compreendia que estava indo embora. Passou a quarta-feira distribuindo fatias de bolos aos médicos e às enfermeiras. Estava feliz na sua condição de adulto que voltava a ser criança. Onde será que havíamos perdido a nossa infância?

    As horas se passavam. Seu olhar ainda vivo. Parecia me contar os seus segredos. Eles falavam. Ele morria. Era muito esquisito eu não conseguir chorar. Ele ia embora e eu ouvia os sons das crianças brincando no pátio do hospital, alheias ao que se passava dentro do quarto. Minha mãe chorava desesperada. Meu pai, viajando em seu mundo pessoal, falava amenidades. Acho que ele tinha medo de aterrizar. Acho que meu pai sempre teve medo, a vida toda, de crescer e ser mais adulto que nós. E o olhar dele, perdido, contemplava o quarto inteiro. E o movimento aflito das enfermeiras que o tratavam com um carinho quase materno.

    No pátio do hospital, crianças brincavam. Eu não entendia porquê.. Minha mãe me mandava fazê-las calar. Elas sorriam, brincavam com o meu pai como se fossem da mesma idade. Elas não entendiam o que se passava no quarto. Eu não entendia o que se passava no pátio. As crianças não aceitavam o fato de não poder entrar. Ali, apenas esperávamos, desde as três da manhã, que tudo aquilo terminasse. Ou que a noite chegasse e nós pudéssemos acordar ilesos daquele pesadelo. Na verdade, eu queria tomar sorvete de creme com passas com ele. Onde será que havíamos perdido a nossa infância? Estava confusa.

    Seus olhos iam e viam. Seu pulso também. Médicos se movimentavam, e seu corpo lutava. Ele morria; seus olhos não. Nunca esqueci aquele olhar. Nunca ninguém falou tanto enquanto morria. Também, nunca vi alguém morrer. Sempre fingi ser criança nessas horas. Mas agora, ninguém me impedia de ser adulta, eu precisava sê-lo. Quando a hora chegou, eram três da tarde. Seus movimentos eram os mais terríveis. Eu o olhava fixamente. Eu podia consolar a minha mãe, e cobrir o menino, que perdia a luta e entregava os pontos. Mesmo aí, não parou de olhar tudo. Acompanhava-nos atentamente. O corpo inerte, apenas seus olhos gritavam. E eu voltava a ser criança. Por que não conseguia chorar como todos ali no quarto? Eu acompanhava o olhar do menino, enquanto segurava a sua mão, com força, e agrade! cia a nossa infância interrompida, quando a vida nos obrigou a ser adultos. Senti que não me segurava. Não me conformava de perder a luta. Peter Pan crescendo e dando adeus à vida. Poderia ter parado ali de sonhar. E de falar. E entregar-me ao choro coletivo. Mas só consegui chorar, quando seus olhos se fecharam e não falaram mais nada. Emudeci, calando a alma quando ele parou de sonhar. E fechei os olhos tentando acompanhá-lo nessa viagem sem volta, onde adultos não sabem sonhar.




Saiba mais sobre a autora





Volta a O Cisco de Olho



 
 
      

Mala direta

Digite seu e-mail:
   
 







  Criação e edição:


     Volta ao Topo

   Principal    Editorial    Tonitruâncias    O Cisco de Olho    Colunas    Cinema & TV    Filmoteca    Programação    Teatro    Poesia    Quadrinhos    Ciscando    Galeria    Livros do Cisco    Todos os Autores    Grupo de Discussão    Piadas    Doações    Serviços    Créditos
   E-mail

  Busca



No Cisco Na web

                 Fornecido por FreeFind


leitor(es) de bom gosto
onl
ine



Melhor visualizado com o navegador Internet Explorer 5.0 ou superior,
com resolução de 800x600.



Vergonha na cara não é vírus.