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Manhã Esquisita
Diracy Vieira




   O silêncio da madrugada era assustador. Alguém respirava ao longe. Sentia o ressonar. Sensação de pânico, abandono, torpor. Os olhos, esbugalhados, procuravam alguma resposta no teto branco. Ouvia até mesmo a respiração pesada de alguém na casa vizinha. Um homem.

   Lembrou-se da arma apontada para a sua cabeça. A vida passando diante dos seus olhos, como um filme. Passado, presente...o que viria depois? - Comece a rezar! A ordem veio brusca a tomar-lhe a atenção.

   - Não sei rezar - Disse baixinho com medo que o seu algoz pudesse ouvir.

   O homem ao seu lado parecia não entender o que se passava. Tinha medo do próprio medo. Medo de suas reações. Ouvia o barulho dos carros de polícia ao redor da casa. Estava cercado. Sua vida cercada por carros de polícia, seus sonhos, sua emoção. Não teria a menor chance de sair vivo dali. Ela, a refém dos medos do homem, não conseguia imaginar uma palavra sequer de reza. Um branco total se instalava dentro de si. Balbuciava alguma coisa. Tremia. Estava imóvel com a arma apontada para a sua cabeça. - Entregue-se! Gritava alguém no megafone.

   - De forma alguma. Se alguém entrar, mato a mulher.

   A cabeça dela girava. O cano frio do revolver acariciava-lhe a pele. Seis longas horas. E agora, em minutos, sentiu o corpo do homem ao seu lado cair inerte no chão. Não sabia se gritava, parecia sem vida. O corpo caindo ao seu lado... a sua vida caindo com ele. Olhos esbugalhados olhando para o teto branco e a sensação de que o mundo inteiro caiu com aquele corpo estendido ao seu lado. O homem parecia jovem. Provavelmente de família boa. Não parecia alguém sem estudo. Falava um bom português. Tinha coordenação, ritmo, diria que tinha melodia na voz. Seu timbre era de alguém que tinha cultura. Não entendia como alguém como ele estaria metido nisso. Mas agora, era apenas um corpo inerte aos seus pés. E ela nem compreendia.

   Flashes iluminaram a sala. Seu ventre, sua alma expostos na primeira página. Poderia voltar no passado por exemplo, e imaginar-se como teria chegado até ali. Um corpo caído ao chão seria apenas o começo do seu desespero. Sofia, seu nome era soletrado aos jornalistas. O sonho de Sofia. Seu próprio nome ecoando no seu pensamento. Sofia. Apenas uma estatística nas páginas policiais. O que será que tinha exatamente acontecido?

   Virou-se lentamente. Sentia calor. Mexeu os pés. Virou o corpo na esperança de sentir-se viva. Parecia que sim. Ouvia vozes de desconhecidos. Quem poderia ser essa gente? Examinavam o quarto, vasculhavam gavetas, armários, tiravam impressões digitais. Parecia um daqueles filmes que via no cinema. Mas não via o mocinho. Seria o bandido, o corpo estendido no chão?

   - Foi um acidente. Bandido e refém mortos - alguém narrava para a imprensa.

   - Morta? Eu? - Gritava descontrolada. Estou viva, num tá vendo? Só um pouco atordoada, mas viva, e lúcida. Gritava sem compreender o que se passa, mas tentando assimilar a situação.

   Onde estaria a sua voz? As pessoas olhavam, batiam fotos, tocavam em suas mãos. Verificavam seu pulso. Do torpor, passava ao desespero. E não tinha mexido os pés? Claro. Até conseguiu virar-se. Havia sido assim a vida inteira. Raramente conseguia que alguém lhe desse atenção. Morava sozinha, ela e um computador bastante antigo. Era o seu único amigo. O companheiro inseparável de todas as noites. Ficava por horas à frente do monitor, tentando conversar com alguém. A frase que mais lia era: "como está vestida?" Ela ria solto. Imaginando a cara de quem fazia aquela tão batida pergunta. Era a mesma do conteúdo de: de onde tc? Como você é? Era engraçado. As pessoas tentavam criar fios que pudessem descrever quem estava por trás do monitor. Como se isso pudesse ser possível. Ela mentia... ah... como mentia. Mentia solto... por compulsão. Poderia ser tudo o que quisesse, mas não era nada.

   Mortadela, um gato de rua que adotou, pulava no teclado, jogava-se na frente dela, enquanto, solitária, entediada com a noite, procurava alguém pra falar. Varava noites tentando estabelecer contatos com alguém do outro lado do mundo. Parecia que as pessoas haviam perdido a noção da realidade. O mundo virtual era o único mundo real em que habitava. Através daquele mundo, poderia estabelecer mundos paralelos. Um dia foi adolescente, no outro, desempregada. Não tinha parentes nem aderentes, e por vezes, foi uma esposa insatisfeita a procura de carinho. Ah... personagens que a fizeram por vezes rolar de rir na frente do monitor. Dispensava qualquer convite para sair na noite para estar colada ao computador. No outro dia, chegava no banco com olheiras e um cansaço visível e quase incontrolável. Mas era feliz assim. Navegava por chats e chats em busca de companhia. Encontrou príncipes, sapinhos adoráveis, amigos sem face.

   Ouviu um barulho subindo as escadarias... barulho de pessoas subindo apressadas. Pessoas falavam, reclamavam, gritavam. Não entendia o que eles diziam. - Peguem-na. Mais flash iluminava o ambiente. Fotografias do seu medo de não acordar.

   - Podem sair. Levem os corpos para o IML. Procurem por parentes, testemunhas. Tentem levantar dados sobre a vítima.

   Uma porta fechou. Porta de carro. Lembrou-se de ter aberto para o entregador de pizza. O homem que não a ensinou a rezar. Agora tudo fazia sentido. O sonho fazia sentido, as horas na frente do computador, não faziam sentido. A tentativa de gozo solitário compartilhado pelo monitor e palavras que se formavam alí na frente. O sonho sendo levado numa caixa de latão. A solidão se esvaindo nos flash dos jornalistas. Agora não tinha mais jeito. Abriu seu mundo, como uma página, e agora ele era invadido por um vírus real. A sua vida se deletava lentamente, enquanto a porta se fechava. Continuava sozinha, como a vida toda. No momento, apenas o entregador de pizza poderia acompanhá-la nesse caminho sem volta. Cansada, o corpo pesado entregava os pontos. Não fechou os olhos, desconfiava que não poderia abri-los novamente. Estava bem, apenas cansada, prestes a se desligar da vida. Abriram a porta do carro. Fechou os olhos. Despediu-se da vida, como quem aperta um interruptor de luz.

   Quem sabe quando desligasse o monitor, acendesse a luz do sol invadindo a sala. Talvez fosse tarde, ou cedo demais para bater asas e voar, aos braços do Cristo, que passivamente estendia-lhe os braços pela janela da sala de lá do Corcovado.







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Vergonha na cara não é vírus.