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Manhã Esquisita
Diracy Vieira




   Acordei cedinho naquele dia. Corri para o sótão a fim de fazer a limpeza mensal. Há séculos que não o limpava. Casas antigas possuem essas magias de quartos fechados e desejos guardados.

   Ao entrar, percebi o cheiro de passado entrando violentamente pelas narinas. Na parede coberta pela poeira, fotos escondidas e amareladas. Uma mesinha com um castiçal prateado. Um baú daqueles de filme antigo. Roupas empacotadas em cima de uma cadeira de palhinha. Um buquê de rosas vermelhas desidratadas em cima da mesinha de vime, encostada na parede. Utensílios para chá em cima do móvel. Livros que líamos juntos espalhados pelo chão. Abri o baú, onde guardava as nossas cartas. Cartas de amor aos montes. Umas que nem chegaram a ser enviadas, outras lidas e relidas e amareladas pelo abandono. Onde você está, será que se lembra delas?

   Lembranças ocultas que guardei para sempre dentro de mim, sem que precisasse relê-las todos os dias.

   Revi os nossos passos na calçada em noites de lua cheia. Escondidos, furtávamos a vida que nos subtraiam todos os dias. Nunca fomos tão felizes e tão livres. Pulávamos os muros vizinhos, os muros que se impuseram por tantas vezes entre nós. Mas a jovialidade do amor que suportava tudo, pulava os muros, escalava o sótão e corria rua à baixo, mãos dadas com a felicidade.

   Sei que à noite, às luas cheias, nossos fantasmas tomam chá sentados na janelinha que dá para o fim da rua. Sei disso porque um dia, ao chegar tarde da faculdade, puxando as crianças (que não são as nossas) trazidas da creche, vi uma vela acesa na janelinha, sua silhueta a segurar a xícara de chá, exatamente como você fazia, quando tomávamos nosso chá de erva-doce depois que nos amávamos a noite inteira. Depois, sei que os fantasmas dançam a nossa música, pois ouço os passos no telhado e as minhas risadas loucas, ao ouvir você dizer que sou sua pequenina.

   Melhor sair dali rapidinho para não profanar o templo do nosso amor. Toques suados, conversas olhando o olho do outro a contar os sonhos, imagens poéticas dos sentimentos puros. Adolescentes em fase adulta. Desejos que não morreram conosco, ficaram no sótão, a perpetuar nossa cumplicidade de amantes.

   Melhor fechar a porta, deixando os nossos fantasmas sozinhos, como sempre quisemos. Eles não precisam reler nossas cartas, nem reviver nossos sonhos. Todas as noites, sei que se amam muito, porque observo da calçada as borboletas coloridas que saem do sótão em plena noite. Não sabia que borboletas saem à noite. Essas saem.

   E quando o dia amanhece, vejo que caíram pétalas na calçada, milhares delas. Pétalas vermelhas, da cor das primeiras rosas que um dia você me deu. Nunca disse a ninguém, mas o cheiro de erva-doce é intenso nas luas cheias, misturado ao cheiro do seu corpo que invade todo o quarteirão. Nunca nossos fantasmas foram tão felizes. Nem nós.







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