Hollywood Ending,
EUA, 2002.
Com WOODY ALLEN, TÉA LEONI, TREAT WILLIAMS, GEORGE HAMILTON,
DEBRA MESSING, MARK RYDELL, TIFFANI THIESSEN, BARNEY CHENG, LU YU, JODIE MARKELL, PETER GERETY.
Fotografia: WEDIGO VON SCHULTZENDORFF.
Montagem: ALISA LEPSELTER.
Desenho de produção: SANTO LOQUASTO.
Co-produção: HELEN ROBIN.
Produção executiva: JACK ROLLINS, CHARLES H. JOFFE,
STEPHEN TENENBAUM.
Produção: LETTY ARONSON.
Escrito e dirigido por WOODY ALLEN.
Estréia no RJ: 08.08.2003.
Sinopse e comentário.
Comédia. Ao receber o roteiro de "A Cidade que Nunca Dorme", Ellie
indica a seu noivo, o executivo Hal Yeager dos estúdios Galaxie, o nome de Val Haxman para a
direção. Ex-esposa de Val, Ellie considera o diretor, tido como difícil e afastado há anos dos
sets de filmagem, o único capaz de transformar o roteiro num grande filme. Ele, por sua vez,
contando com uma retomada de sua carreira, resolve engolir o trauma por ter perdido a esposa
para o futuro patrão e aceita o convite. A dois dias do início das filmagens, porém, o
hipocondríaco Val é acometido de uma cegueira psicológica, mas com a ajuda de seu agente, Al Hack,
planeja esconder de todos o problema, dirigindo o filme mesmo sem enxergar um palmo diante do
nariz, apenas guiando-se pelos conselhos do agente. Isso até o momento em que a presença de Al
é proibida nos locais das filmagens.
Para alguns, a revolta faz um bem danado. Depois de brigar com a
produtora, mudar de estúdio, fazer dois filmes que deixaram a desejar e amargar a queda de
público nos EUA, o diretor-autor Woody Allen parece ter recuperado a forma que todos adoramos.
Sua maior aptidão, a capacidade de transpor para a tela os prazeres e as agruras de sua vida
particular, volta e meia gera acusações de repetição e desgaste de fórmula. E, de fato, o ritmo
de trabalho que o leva a realizar um longa-metragem por ano nem sempre resulta em boa coisa.
O Escorpião de Jade e Trapaceiros, os dois anteriores (e primeiros pelo estúdio
Dreamworks, de Steven Spielberg), não passam de marcação de ponto. Pouco inspirado e com
aparente necessidade de agradar o grande público, o autor mandou duas comédias despretensiosas
que, ainda que se ache em uma ou outra cena a mão brilhante de Allen, não fazem rir.
Dirigindo no Escuro é ótima recuperação. A língua afiada, de onde
brotam comentários mordazes sobre a política e a cultura norte-americanas, voltou das "férias"
revigorada. Nesse aspecto o filme lembra um dos clássicos do diretor, o recente
Desconstruindo Harry, pela velocidade com que vai beliscando tudo e todos, incluindo o
próprio Allen. Aqui, o protagonista, que vinha de dirigir comerciais de fraldas geriátricas,
mal é convidado para o novo projeto e já quer fazer tudo "em preto-e-branco e com trilha sonora
de Cole Porter". Contrata um fotógrafo chinês que ninguém entende, e um diretor de arte que
quer reconstruir Nova York inteira em estúdio. Não faltam farpas à imprensa na figura da
jornalista que acompanha as filmagens (e serve também de narradora), nem aos atores burros,
como a namorada que só pensa em malhar e leva uma noite inteira para decorar um único gesto.
Mas o filme não é só crítica. Há também melancolia em Woody Allen, que
volta a tratar dos desmantelos das relações amorosas. Extremamente feliz é o diálogo entre
Ellie e Val, quando ela diz que "dois terços dos casamentos são mantidos pela inércia", ao que
ele responde: "É. Mas o resto é amor mesmo". Em imagens visualmente mais trabalhadas do que de
costume, Allen discorre mais uma vez sobre relacionamentos desfeitos e refeitos, sobre a
necessidade de olhar o passado e saber reconhecer tanto as mudanças quanto as permanências,
principalmente se entre aquilo que permaneceu está o amor. O amadurecimento que leva à
reconciliação é visto também no contato de Val com o filho punk, cuja amizade / amor andava
abalada.
A outra notória paixão do autor, a cidade Nova York, é aqui reafirmada
na linda cena em que Val recupera a visão, dando de cara com a cidade banhada de sol. Bom
exemplo de beleza sem maquiagem. Nada, no entanto, que se compare à beleza da protagonista
Téa Leoni, um espetáculo a que não se resiste. Olhar muito para esta mulher chega a ser
perigoso, atordoante, e causa sérios riscos de paixão desenfreada. Depois desse filme, Woody
Allen até pode fazer, nos próximos dois anos, alguns filmes menores, que seu público (seja
americano, francês ou brasileiro) saberá entender. A destacar, ainda, a hilária seqüência da
reunião (a sós) do diretor cego com o executivo Yeager, e a referência ao Brasil.
(M.L.)
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