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Dogville


Dogville,
Dinamarca / Suécia / França / Noruega / Holanda / Finlândia / Alemanha / Itália / Japão / EUA / Reino Unido, 2003.


Com NICOLE KIDMAN, PAUL BETTANY, PHILIP BAKER HALL, HARRIET ANDERSSON, LAUREN BACALL, JEAN-MARC BARR, BLAIR BROWN, JAMES CAAN, PATRICIA CLARKSON, JEREMY DAVIES, BEN GAZARRA, THOM HOFFMAN, SIOBHAN FALLON HOGAN, JOHN HURT, UDO KIER, CLEO KING, MILES PURINTON, CHLOË SEVIGNY, SHAUNA SHIM, STELLAN SKARSGARD.

Fotografia: ANTHONY DOD MANTLE. Montagem: MOLLY MARLENE STENSGARD. Co-produção: GILLIAN BERRIE, BETTINA BROKEMPER, ANJA GRAFERS, LIISA PENTTILÄ, ELS VANDEVORST. Desenho de produção: PETER GRANT. Cenografia: SIMONE GRAU. Co-produção executiva: LENE BORGLUM, PETER GARDE, LARS JÖNSSON, MARIANNE SLOT. Produção executiva: PETER AALBAEK JENSEN. Produção: VIBEKE WINDELOY. Escrito e dirigido por LARS VON TRIER.

Estréia no RJ: 16.01.2004.






Sinopse e comentário.



    Drama. EUA, década de 1930. Isolada no alto das montanhas, Dogville é um vilarejo minúsculo e sossegado no sul do país. De seus poucos habitantes, o único a não demonstrar satisfação com a rotina do lugar é o jovem Thomas Edison Jr.. Filho do médico local, com pretensões de tornar-se escritor e filósofo, Thomas vive organizando reuniões moralistas com a comunidade com o intuito de tornar o mundo melhor, e está convencido da necessidade de um "exemplo" para que os moradores possam dedicar-se ao exercício de fazer o bem. O exemplo parece vir numa noite em que, logo após ouvir tiros vindos da floresta, Thomas e os demais abrigam e escondem a bela Grace, desconhecida que estaria sendo perseguida por gângsters e cujo passado é mantido em segredo. Em sinal de agradecimento, fica acordado que a recém-chegada, criatura doce e amável que logo conquista a todos, irá dedicar uma hora diária a cada morador, trabalhando para eles. O convívio entre Grace e a população de Dogville, no entanto, não tardará a revelar as faces verdadeiras de cada um, gerando uma situação de autoritarismo e crueldade.


    Chama a atenção, logo no início, a curiosa maneira utilizada pelo diretor-autor Lars von Triers para exibir a cidade que dá nome ao filme: mais do que filmar Dogville em estúdio, Triers aboliu cenários e manteve apenas riscos no chão, indicando ruas e casas, com apenas um ou outro objeto cenográfico. Os atores circulam sobre uma planta da cidade, atravessando portas invisíveis e admirando paisagens que não existem. Teatral ao extremo, o recurso, aliado ao ritmo lento da narrativa, provoca estranheza e pode até irritar gostos mais tradicionais, mas assim que o espectador se acostuma é possível reconhecer que isto não só se adequa ao clima introspectivo do filme, mas o enriquece. Numa das cenas de violência cometida contra Grace vê-se o quanto a idéia é eficaz, pois ao exibir simultaneamente o interior de todas as casas, a estratégia tanto acentua momentos de densidade dramática quanto serve à proposta de desnudar o que há de falsidade e egoísmo nas relações sociais.


    A trama, a que a narrativa em "off" e a divisão em capítulos emprestam uma leveza de fábula, é conduzida em cada detalhe de maneira segura e sensível. Triers, que também é operador de câmera, estabeleceu com o espectador um jogo tão bem sucedido de aparências que a impressão inicial é a de que o filme quer justamente mostrar a beleza da alma humana. As preocupações de Thomas, a simplicidade comovente de cada morador, a discussão ética que resulta na decisão pela ajuda à desconhecida recém chegada, e o comportamento da própria Grace, sugerem a existência de um ser humano naturalmente bom, bastando para isso uma oportunidade para demonstrá-lo. Que na verdade é a teoria que Thomas tenta pôr em prática. No entanto, a mesma oportunidade que permite ao cidadão conceder o que quer que seja, dá-lhe poder. Quando concede, o indivíduo se coloca numa posição de superioridade ao que recebe (principalmente se este, como Grace, depende literalmente da bondade dos habitantes de Dogville - de suas bocas fechadas), e a partir do momento em que esta posição se repete dia após dia, o mesmo indivíduo passa a enxergar no outro obrigações que sequer chegara a imaginar. Vão-se embora o desinteresse e a benevolência, o outro passa a ser um devedor, e daí para tornar-se uma propriedade é um pulo.


    E neste pulo a narrativa comete exageros. Ainda que intencionalmente, a transformação brusca no comportamento dos personagens retira um bocado da cumplicidade na relação com o espectador, conquistada com tanto zelo pela direção. Tirando o amargo personagem Chuck, o desenvolvimento dos demais moradores parece sofrer uma quebra por demais visível, quase forçada. Por mais que o roteiro seja um exercício excelente de pessimismo cínico e de feroz anti-americanismo (revelado ao final, e durante os créditos, nas fotos que ilustram a canção Young Americans, de David Bowie), não seria de todo mau que se mantivesse a sutileza usada até então e se deixasse para o epílogo a violenta ruptura com o que até então vinha sendo feito. Na versão original do filme, de quatro horas (reduzidas para 2h57), cuja última exibição mundial deu-se no Festival do Rio, talvez tal mudança transcorresse de forma gradual. Mas isso só pode saber quem viu o filme na íntegra. Quem sabe quando sair em DVD eles acrescentem o que cortaram.


    O primoroso elenco (onde está bem até o menino que faz o insuportável Jason, filho de Chuck) quase esconde nomes como Lauren Bacall e James Caan, revelando no entanto um excepcional Ben Gazarra no papel do cego e recluso Jack McKay. A voz mansa e os olhares vazios porém discretamente emocionados, ao descrever imagens retidas na memória como a sombra que em determinada hora se projeta sobre determinado local da cidade, são elementos dignos de grandes atores. A responsabilidade de manter-se à frente de tal elenco e com ele contracenar é assumida com talento por Nicole Kidman, que seduz a platéia da mesma forma com que Grace conquista Dogville. No centro da trama, como causa e vítima da transformação dos que a cercam, Kidman mostra-se frágil, gentil, mas sempre trazendo no olhar a sugestão de um mundo maior carregado sobre os ombros, daí submeter-se sem reclamar a tudo o que lhe é imposto. Dogville, o filme, fica na lembrança pelo que tem de denso e ousado. Denso por exercer uma crítica sustentada na fragilidade dos valores que regulam o convívio social. E ousado por fazer essa crítica através de um experimentalismo narrativo utilizado como expressão do sarcasmo, do cinismo diante de um mundo sem soluções aparentes. (M.L.)





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