Brasil, 2002.
Com ARY FRANÇA, ETTY FRASER, ISABELA GUASCO, MARISA ORTH,
LETÍCIA SABATELLA, RITA LEE, ANDRÉ ABUJAMRA, THEO WERNECK, BETO MELLO, BICUDO JUNIOR,
CHICO AMÉRICO, CLAUDIA JULIANA, FÁBIO SLEIMAN, KADU TORRES.
Direção de arte: ANA MARA ABREU.
Fotografia: JACOB SOLITRENICK.
Montagem: VÂNIA DEBS.
Produção executiva: MARIA IONESCU.
Produção: SARA SILVEIRA.
Roteiro e direção: ANNA MUYLAERT.
Estréia no RJ: 18.04.2003.
Sítio oficial: http://www.durvaldiscos.com.br
Sinopse e comentário.
Drama urbano. Durval é um "garotão" de 40 anos que mora com a mãe,
Dona Clara, em cima da loja de discos de vinil que leva o seu nome. Com a vida dividida entre
os raros fregueses, o convívio com a mãe idosa e as esporádicas visitas da balconista da doceria
ao lado, Durval sugere a contratação de uma moça para executar os serviços domésticos obtendo a
aprovação de Dona Clara. Contratam então a bela Célia, que, embora demonstre disposição e
competência, já no primeiro dia pede para sair mais cedo. A moça, no entanto, não só não
retorna no dia seguinte, como deixa na casa a pequena Kiki, uma criança de seus seis anos de
idade. A menina cai nas graças de Dona Clara, e também do relutante Durval, que dão-lhe
presentes e praticamente a adotam, até descobrirem a verdadeira razão de a menina ter ido parar
ali.
Seria uma ótima idéia fazer um filme sobre um sujeito perdidão que
estaciona nos anos 1960/70 e não sabe muito bem o que fazer em 1995, época em que se passa a
ação, vivendo às custas da mãe. Melhor ainda seria a idéia de construir uma trama que, partindo
de instantes de graça e leveza, fosse pouco a pouco desandando num drama de violência e
claustrofobia. Durval Discos tenta ser as duas coisas, mas fica no meio do caminho. Tem
um cenário delicioso e extremamente bem filmado por uma direção que, além de competente,
demonstra virtuosismo na interessante abertura com os créditos iniciais inseridos na paisagem
urbana (placas, cartazes) enquanto a câmera passeia pelas ruas paulistas até chegar na loja do
título. Interessante, curioso, mostra bem o quanto nossas vidas estão tomadas pela publicidade
e o quanto nossa paisagem está emporcalhada, mas que não cabe no filme. Com esse recurso,
Durval Discos promete algo que o filme não é, uma crônica da diversidade urbana de uma
grande metrópole, o que o roteiro ameaça com os personagens que surgem na loja (pontas de Rita
Lee, Theo Werneck e André Abujamra), mas não vai adiante.
Bons são os personagens principais e, mais ainda, seus intérpretes. Ary
França, ator dotado de ótima veia cômica, não encontra dificuldades para expressar o beco sem
saída em que Durval vai se enfiando, e mostra que seu lado dramático não deixa a dever. Mas é
Etty Fraser quem rouba todas as cenas em que aparece, como a mãe carinhosa e obsessiva, muito
carinhosa e muito obsessiva, tão carinhosa e tão obsessiva, aliás, que não admite qualquer
obstáculo a seu carinho e a sua obsessão. É ela a responsável pela guinada que o filme dá rumo
ao suspense, e que seria o grande achado de Durval Discos não fosse a fragilidade do
roteiro, escrito pela própria diretora Anna Muylaert. Para atingir seus objetivos a autora
força demais a barra, e deixa que seus personagens ajam de forma pouco convincente para chegar
ao ponto pretendido. Exemplos disso estão na reação de Durval após descobrir no telejornal quem
é a menina, e a exagerada incapacidade em tomar decisões, mesmo depois da constatação óbvia de
estar lidando com alguém com a sanidade abalada. O roteiro, assim, jamais flui com a
espontaneidade necessária, tornando-se apenas ferramenta para atingir cenas curiosas, algumas
interessantíssimas, não importando a que preço.
(M.L.)
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