Deus nos Acuda
Não deve ser à toa que a junção das palavras "fé" e "dor" resulta na palavra "fedor". A
crença do ser humano de que amanhã será um dia melhor, mesmo para aqueles já desenganados pela
medicina, vem sendo usada como passaporte para botar o homem um degrau acima na escala
evolutiva. Melhor para a bicharada (antes que alguma minoria se sinta ofendida, pode trocar
para "animalada", se quiser), que fica só nos olhando e morrendo de rir de nossa pretensão.
Enquanto a ciência manda pelos ares (no sentido mais explosivo do termo) um ônibus espacial,
aqui embaixo a fé que remove montanhas também removeu a liberdade de opção. Ligue a TV, se você
não acredita ou discorda. Em quantos canais há um pastor ou padre falando o que você deve fazer?
Quantas vezes por dia a fé tenta entrar na sua casa, seja através de papeizinhos empurrados na
rua, de cantorias de fiéis ou de mensagens enviadas por e-mail? No que a fé torna melhor uma
pessoa, se para isso ela deve antes virar um chato de galocha abusado e autoritário? O que
fariam esses paladinos da fé, se a eles fosse entregue o governo de um país?
(Essa última é fácil de responder. Basta voltar os olhos para Israel e o Oriente Médio.)
Depois que a razão tornou-se uma piada contada por um gago tímido e sem qualquer vocação para a
graça, e a sensibilidade virou motivo de agressão, já podemos olhar para trás, forçar a vista,
recorrer a um binóculo, e mesmo assim não encontrar em nossa história recente nenhum traço
relevante de civilização. Nos tornamos um bando de selvagens incapazes de balbuciar duas
palavras que não sejam para ofender ou fazer fofoca. Retornamos finalmente ao seio siliconado da
barbárie, e daqui para o fim é só uma questão de tempo. Podem ligar os seus cronômetros, porque
a viagem sem retorno já começou. Quando o tal Jesus Cristo retornar à Terra, todo alegrinho,
limpinho e cheirosinho, vai olhar o imenso campo devastado e perguntar aonde foi todo mundo,
achando tratar-se de uma pegadinha. Quem sabe? Deus, bonachão, segurará seu microfone celestial
e perguntará à platéia de anjos: "E agora? Será que ele vai pegar a nota no chão ou vai deixar
o cego cair no precipício?". E a platéia irá rir.
De que tanto ri essa platéia?
* * *
Por motivos alheios à nossa vontade de entreter e provocar você, ficamos durante dois meses sem
dar as caras por aqui. Agora que voltamos com (quase) tudo, tratemos de colocar a conversa em
dia. Quem estréia nesse mês em nossas páginas é a carioca
Luciane Lucas, professora na
área de Comunicação Social que nos presenteou com uma análise do pintor Edward Hopper, no Cisco
de Olho. Também estréia por aqui o autor e ator teatral
André Faxas, também do Rio de
Janeiro, com um texto sobre a atual condição do teatro brasileiro. E quem retorna em grande
estilo e debaixo de aplausos, é
Marcos André Tavares. Tavares vem em dose dupla, com
um conto maluco para o Cisco de Olho e um texto sobre o dramaturgo Roberto Gomes.
Nessa edição do Cisco homenageamos o cineasta
Martin Scorsese, o injustiçado favorito
do cinema americano. Com a colaboração de
Marcos Roberto Magalhães de Sá, comentamos
não apenas seu filme mais recente,
Gangues de Nova York, mas também dez dos títulos mais
representativos de sua obra, comentada ainda no texto
Martin Scorsese, o Touro Indomável
do cinema americano. Confira.
* * *
Hoje, para transmitir uma mensagem não basta ter o que dizer. Se você não tiver um bom jogo de
cena, você não existe. Da torta na cara ao escudo humano, o lema "Falem mal, mas falem de mim"
nunca esteve tão na moda. Fora o fato de que a palavra escrita tem cada dia menos valor, o que
podemos concluir disso tudo? Nada.
* * *
Enquanto pede a paciência que não teve quando era oposição, o Presidente Lula Henrique Cardoso,
o LHC, vem promovendo um aumento da própria barriga. Espera, assim, empurrar melhor a resolução
de abacaxis como salário mínimo, juros, previdência social, Antônio Carlos Magalhães, xiitas
radicais, FMI.
* * *
Seria bom que a Petrobrás não saísse por aí alardeando a descoberta de um poço gigante de um
tipo de petróleo mais valioso. Se George W. Bush, a égua pocotó do apocalipse, descobrir, vai
querer declarar guerra ao Brasil.
Voltar a Editoriais Anteriores