Tudo da boca pra fora
Nós abrimos nossos olhos e somos invadidos por cobranças e ameaças. Abrimos nossas
caixas de correio e somos atacados por cobranças e ameaças. Abrimos nossos corações e... isso,
cobranças e ameaças. Desse jeito não sobra gente para tanta cobrança e tanta ameaça. A
iniciativa nos será um conceito tão apavorante que iremos preferir ficar quietinhos e escondidos
no canto do quarto, atrás da porta para não incomodar, e ainda assim pedindo desculpas pelo
barulho de nosso nariz respirando.
Seria a atitude mais fácil. Construir um horizonte formado pela parede, a televisão e a
mesa de trabalho, e deixar todo o resto para uma alçada superior, qualquer uma, já que nos
limitaríamos mesmo ao exercício de não sermos ninguém. Vez por outra, quando ficássemos
cansados (inexistir também cansa), poderíamos abrir a boca e proferir um ou outro arremedo de
protesto, decorado e repetido de algum jornal. Para que a coisa ficasse mais organizada,
estabeleceríamos uma cota mensal de indignação, com um número x de manifestações verbais contra
esse sistema malvado e feio.
Ficaríamos, enfim, livres! Livres de culpas, livres de cobranças, livres de ameaças.
Livres de pensar em soluções para tudo e lembrar de que, para funcionar, o planeta precisa de
iniciativas. Danem-se as iniciativas! Iniciativas são dispendiosas e estressantes, quase sempre
infrutíferas e não raro imprestáveis. Vamos nos aconchegar no sofá do comodismo e sintonizar o
canal da pasmaceira, vamos ficar o dia inteiro, a semana, o mês, o resto de nossas vidas
aplaudindo fascistas e cínicos e todos os tipos de assassino que o mundo, que esse belo e
colorido e cheiroso mundo nos oferece embrulhado em papel celofane! Vamos olhar as crianças, que
falar de crianças sempre confere ao ser falante um atestado de grandiosidade instantânea! Vamos
pronunciar todas as palavras-chave de sucesso imediato, não importa se é tudo da boca pra fora!
A sociedade quer isso mesmo! Aparência! O resto é decadência!
* * *
E quem comete a loucura de juntar-se a nós nesses tempos cada dia mais bicudos é o
Claudio
Parreira, debochado editor do bem humorado blog PPC que, num momento de desatenção, foi
capturado pelo Cisco Tonitruante, o melhor sítio de opinião, cultura e humor do bairro das
Laranjeiras do mundo. Agora, para nossa sorte, seus textos poderão ser apreciados também pela
legião de meia dúzia de leitores que nos acompanha fielmente. Bem vindo, Claudio, pode se
acomodar e tomar um cafezinho por nossa conta.
Temos mais novidades. A partir dessa edição, todos os textos publicados no Cisco
(inclusive esse editorial) poderão ser comentados em tempo real por nossos leitores. Graças ao
Blogger, que disponibilizou o serviço, o leitor pode estreitar seus laços com os autores, com o
sítio e com ele mesmo. A partir de agora estamos todos enlaçados no mesmo nó, e esperamos que
não seja muito desconfortável na hora de irmos, todos juntos, ao banheiro.
A outra novidade é a seção
Resenhas, dentro dos Livros do Cisco, que o nosso
outro Cláudio, o Beserra, nos dá a honra de estrear. Neste mês, Cláudio comenta Consagrados e
Malditos, livro de Luiz Renato Vieira sobre a Editora Civilização Brasileira e seu principal
editor, Ênio Silveira. Confira, que vale a pena.
* * *
Com a frase "Guerra preventiva é tentação de Satanás", Karol Wojtila, o Papa, revelou o mistério
do homem mais poderoso do planeta: George W. Bush está possuído pelo diabo.
* * *
Depois da perseguição aos muçulmanos residentes nos EUA, os americanos agora começararam a
perseguir os franceses. Por essas e outras que dá vontade de torcer para o Iraque dar uma surra
nessa gente.
* * *
Desfrutando de tanta importância quanto um pedaço de sabão, dizem que Kofi Annan foi perguntar à
funcionária que cuida da limpeza de seu escritório na ONU se não seria melhor trocar a marca do
tira-manchas, pois o utilizado estava corroendo a sua mesa. A mulher fingiu que não ouviu.
Considerando-se desrespeitado, o Secretário Geral mandou chamar o responsável pelo departamento
de Recursos Humanos. Após esperar um dia inteiro, foi falar pessoalmente com ele. Falou, falou,
falou, até perceber que o interlocutor preparava uma lista de supermercado, e não lhe dava a
mínima. Furioso, Kofi Annan saiu bufando do prédio da Organização das Nações Unidas e, na rua,
esbarrou com um senhor que, ao vê-lo, arregalou os olhos. "O senhor!", exclamou o transeunte.
"Mas isso é uma honra! Cruzar com tão importante figura! O senhor poderia me dar um autógrafo?".
Sentindo-se lisonjeado, Kofi Annan tratou de pegar sua caneta folheada a ouro enquanto pensava
que enfim alguém reconhecia e admirava o seu trabalho em favor da paz. Isso até o tal admirador
concluir: "Muito obrigado, muito obrigado! Minha mulher não vai acreditar, quando eu chegar em
casa e disser que esbarrei no MORGAN FREEMAN!"
* * *
Não tem limites a crueldade e a falta de respeito para com o ser humano nos tempos de guerra. De
um lado os Estados Unidos não esperaram nem o fim do jogo do Fluminense e saíram atacando o
Iraque. Do outro, a Rede Globo nos obrigou a suportar o insuportável, que é a disfunção
cerebral da apresentadora Ana Paula Padrão.
* * *
Até o momento, estamos todos sós.
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