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Mediocridade
Foi um belo dia para o presidente. Marcara quatro gols, um deles de calcanhar, na
vitória de seu time de peladeiros governamentais. No corpo, doía o cansaço dos felizes, dos
vitoriosos. O sorriso despontando no meio da barba grisalha denunciava: Lula estava radiante.
O mundo poderia se acabar debaixo de um surto de conjuntivite, que ele iria às gargalhadas ao
paraíso. Êita. E ainda havia gente que dizia não gostar do poder.
Mas o humor presidencial, inalterável mesmo com ameaças de CPI, maluquices de aliados,
taxas de juros, não resistiria à multidão de ex-funcionários de bingos
que, sem ter pra onde ir com o fechamento das tais instituições, vieram protestar na sede do
governo. Cartazes, faixas e palavras de ordem. Coisas que Lula conhecia bem, e que julgava
fazerem parte de um passado distante, estavam todas ali, na porta da sua casa. Fosse há um ano
atrás, e Lula desceria do carro para unir-se aos companheiros. Hoje a reação é diferente:
- Faz a volta - ele diz ao motorista. Entra pelos fundos.
Raça miserável, pensa o presidente. Parecem formiga, cupim. Nunca se satisfazem. Quando
era metalúrgico, Lula jamais imaginou que a mediocridade humana, de que tanto falava o amigo
Fernando Henrique Cardoso, pudesse chegar a tal ponto. Na verdade, naquela época ele nem sabia
o significado de tal palavra. Mas hoje ele sabe bem. Basta olhar na janela para saber. Lula seria
capaz de apostar toda a sua aposentadoria milionária como cada um daqueles manifestantes lá
fora queriam mesmo era estar no seu lugar. Num instante esqueceriam essa besteira de saúde,
educação, arroz e feijão. Nada como uma presidência para abrir os olhos de um homem.
- Mas vão procurar outra, companheiros - murmurou o presidente da República do Brasil. Que
essa presidência aqui já é minha.
Lula entrou no gabinete presidencial, onde já estava o ministro da Casa Civil, José Dirceu,
sentado em sua cadeira.
- E aí, Zé? - perguntou. Quais são as novas?
Sem terminar de preencher uns cartões de loteria, o ministro respondeu:
- O Ibama está atrapalhando o início de umas obras só porque não possuem licença ambiental.
A Polícia Federal continua em greve. O nível de desemprego já chegou aos dois dígitos. A oposição
reclama que não temos nenhum projeto de infra-estrutura nem tomamos qualquer ação social de
relevância. Aqueles caras da Venezuela estão cobrando a grana que emprestaram pra campanha.
- Pô, Zé - resmungou Lula. Que saco. Gente chata. E o que é que eu faço agora?
- Você senta aí e não faz nada.
Obediente, o presidente da República sentou e não fez nada.
* * *
Não satisfeita com a beleza que ganhou dos pais, Simone Maia, paulista de Santo André,
ainda resolveu que teria de escrever bem. E escreve, a prova irrefutável está no Cisco de Olho.
Além dela, quem estréia em nossas páginas é José Augusto Gonçalves, poeta incansável
e ativo jornalista madeirense, dono de produção extensa que não se limita a divulgar seus
próprios trabalhos, mas de boa parte da literatura portuguesa. Nem precisamos dizer a honra que
é receber esses dois. Mas dizemos assim mesmo.
A má notícia é que o Cisco Tonitruante, a partir dessa edição, deixa de ser mensal. Por falta
de tempo e de uma equipe fixa para dividir o enorme trabalho que é manter o sítio, as
novas edições sairão bimestralmente, com alguns apêndices quando der.
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"Que tal sugerir que a próxima convenção do PT seja logo realizada em Las Vegas?"
José A. Corleón, na seção de cartas do Jornal do Brasil de 19.03.2004
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Num flagrante jornalístico, vemos na foto ao lado um modelo de
Christian Dior desfilando a nova coleção do estilista francês. Ao fundo, é possível ver o que
sobrou do senador evangélico Marcelo Crivella, após pôr a mão no fogo pelo seu colega, o
deputado Bispo Rodrigues, envolvido com corrupção.
* * *
- Após filmar de forma realista e violenta a Paixão de Cristo, o cineasta sádico Mel Gibson
levará para o cinema outra história de mártir, agora um brasileiro. Seu próximo filme contará
a vida e a morte de Tiradentes, com detalhadíssimas cenas do esquartejamento.
- Depois de tentar por vias judiciais resolver os problemas com seus cônjuges, o cantor
Latino, o empresário Eike Batista e a cervejaria Schinkariol vão fundar um Clube dos Cornos.
Mas serão todos processados pelo cantor Falcão, que teve a idéia primeiro.
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