O Jogo
|
Você acaba de escapar com vida de um tiroteio dentro de uma universidade carioca situada
aos pés do morro. Quando vai atravessar a rua, um carro desgovernado tendo em seu interior o
cantor Alexandre Pires, o jogador Edmundo, o ator Felipe Camargo e o ex-Big Brother Alan, quase
te atropela, atingindo a velhinha que vinha atrás de você empurrando um carrinho de bebê. Nessa
brincadeira você chega em casa se sentindo mal e, sem dinheiro nem plano de saúde, vai se tratar
num hospital público. É atendido por um residente que não consegue te dar uma resposta sequer
sem sair para consultar alguém que está escondido atrás de uma porta no final do corredor, e que
termina a consulta dizendo que o que você tem é "uma virose", e que você pode escolher entre
uma injeção de Benzetacil ou uma caixa de Ampicilina. Você ainda espera para ver se ele te dá
uma terceira opção, uma bala, um chiclete, quem sabe uma bananada. Mas nessa hora já tem outro
infeliz sendo atendido, e te dispensam como se você fosse um pivete fazendo malabarismo no
sinal. Quando chega em casa, o telefone que só recebe chamadas (porque você ainda não pagou a
conta) toca de novo, e é uma menina de voz enjoada perguntando se você não estaria interessado
em fazer uma assinatura do jornal O Globo. Você tenta dizer que não, mas ela não permite, não
antes de dizer todas as vantagens de ser assinante do jornal O Globo. Até cartão de crédito você
ganhará do jornal O Globo se desembolsar uma grana para receber, em sua casa ou em seu trabalho,
um exemplar diário do jornal O Globo. Você não agüenta mais ouvir o nome do jornal O Globo, e
desliga o telefone na cara da menina.
Logo depois entram dois agentes da justiça na frágil tranqüilidade do seu lar e lhe
informam que você não é filho da sua mãe, pois ela o seqüestrou na maternidade quando você
nasceu, deixou uma bacia cheia de cebolas no seu lugar e só agora, trinta e quatro anos depois,
a sua mãe biológica se deu conta de que aquela bacia cheia de cebolas não poderia ser o seu
filhinho. Tomado de uma crise horrível de identidade (você é um homem ou uma cebola?), você foge
dos agentes da justiça, foge do vizinho que veio cobrar o dinheiro emprestado no mês anterior,
foge do evangélico que quer saber se isso no seu ombro é um encosto. Tenta fugir da realidade e
do caos, mas este o secretário da segurança já disse que está sem controle, e enquanto desvia de
rajadas de metralhadora e bombas de fabricação caseira você encontra uma militante estrangeira
perdida e doidona que tomou o avião errado, e no lugar da França veio parar no Brasil com uma
faixa contra a reunião do G8. Você nem vê quando o carro pilotado por Alexandre Pires surge na
esquina e a atropela, pois já foi engolido por uma passeata contra a violência e uma placa com a
foto de Tim Lopes acertou-lhe o crânio. Você cai desfalecido no asfalto para acordar dentro de
um trator prestes a derrubar uma habitação irregular, mas por solidariedade humana recusa-se a
botar abaixo a casa condenada, sendo preso em seguida pelos dois agentes da justiça que estavam
lá na sua casa dizendo que você é uma cebola. Na cadeia, você é violado por um negão que sequer
deixou o telefone para contato e filmado por um diretor de cinema que quer transformar a vida
dos presos num auto de natal. Mas antes disso você consegue escapar saindo pela porta da frente
da prisão sem ser importunado.
Você aproveita a visitinha que o Presidente da República está fazendo ao que resta do
seu Estado e vai até ele dizer que não agüenta mais a instabilidade dentro e fora do seu
coração, mas quando consegue furar o bloqueio da segurança uma mulher maluca passou na sua
frente e já está fazendo um discurso em favor do Fernandinho Beira-Mar. Você fica mais uma vez
sem entender o que se passa nesse diabo de planeta, enquanto assiste um motorista sair correndo
de um ônibus incendiado e gritar, a plenos pulmões, que a culpa é da alta dos juros. Com cuidado
para não pisar na placa de "Aluga-se" colocada na entrada de um bueiro, você sai de fininho
antes que alguém venha exigir a sua contrapartida social por este texto estranho.
* * *
"Até que enfim", dirão alguns, e com razão, ao verem as estréias desse mês. Uma é a
talentosíssima escritora cearense residente em São Paulo
Joyce Cavalccante, presidente da
REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras, que estréia no Cisco de Olho. A outra é da gaúcha
Patrícia Ferreira, a Ticcia, autora do sensível blog
Não Discuto, que estréia na
seção Poesia. Não somos Milton Nascimento nem este sítio chama-se "Pietá", mas também andamos
acompanhados de mulheres maravilhosas.
Como alguns leitores e colaboradores estavam encontrando dificuldades em encontrar os nomes
daqueles que participam do Cisco, a partir dessa edição o menu ao lado passa a conter também um
link para a relação de todos os autores que nos honram com suas contribuições. Isso já existia,
mas realmente ficava meio escondido nas seções Cisco de Olho e Poesia. Agora está bem aqui do
lado.
* * *
O povo argentino bateu na madeira e correu pra dizer que estava só brincando, quando colocou
Carlos Menem em primeiro lugar na corrida presidencial. Vendo que ia tomar a maior lavada da
história do país, Menem disfarçou, disse que ia ali comprar um cigarrinho e não voltou mais. O
resultado é que
Nestor Kirchner (foto), o vencedor solitário da eleição dos vizinhos aí
do lado, é não apenas o novo Presidente da República Argentina, mas também o responsável por
soterrar de vez a carreira de mais um farsante sul-americano. Quem será o próximo?
* * *
Uma coisa é o líder do Partido da Frente Liberal (pela primeira vez na oposição em toda
sua história), Jorge Bornhausen, dizer que o governo Lula é "perdulário, que cria ministérios
para colocar companheiros derrotados". Outra coisa é o vice-presidente José Alencar aparecer
mais do que umbigo de vedete para criticar a política econômica do governo do qual faz parte. E
outra coisa é o Flamengo ir ao Paraná e levar dez gols em dois jogos.
* * *
Ninguém pode dizer que o Presidente Lula não se esforça para fazer as pessoas felizes.
Sua proposta na reunião do G8 + uns penetras, na França, de usar a indústria bélica pra
financiar o combate à fome, provocou tantas gargalhadas nos donos do mundo que até George Bush
foi visto abraçado com Jacques Chirac.
Charge: Claudio Parreira
parreirapontocom@yahoo.com.br
www.blogppc.blogger.com.br
Comente esse texto:
comentário (s) até agora.
Editoriais anteriores