Sem mais nem menos um desconhecido que você jamais viu em toda a sua vida
aparece na televisão lhe apontando o dedo e afirmando: "Você me conhece". Conheço nada, você
tenta argumentar, repelindo a falsa intimidade e a arrogância com que ele, e os que vêm depois,
invadem a sua vida. Muda de canal, e lá está o sujeito de novo. "Você me conhece", repete
confiante, e desanda a ler rapidamente um texto no ponto eletrônico. No final, um convite para
juntos fazermos isso ou aquilo. "Eu hem, sai pra lá que eu tenho compromisso", você diz,
desligando a televisão e saindo de casa, satisfazendo uma necessidade incontida de ser um
pouquinho livre.
Mas na rua você dá de cara com o sujeito de novo, a cara dele pregada num poste (antes
fosse o próprio, pendurado pelo pescoço, mas não é), distribuída em papeizinhos, estampada em
tudo quanto é lugar dessa infeliz cidade carente de espaço. Há uma imagem, gigantesca, na
lateral de um edifício. Outra, num carro que passa tocando uma musiquinha que lhe tiraria o
apetite, caso estivesse na hora do almoço. Não há mais escolha. Seu campo de visão está
inteiramente tomado por propaganda. Seu horizonte se resume a uma mensagem colorida de consumo.
Um sorriso diabólico dizendo "Você me conhece". E o pior é que você acaba conhecendo.
Dizer que isso é abuso já caiu no lugar comum. O espaço público virou brinquedo na mão
de pessoas irresponsáveis a quem daremos a responsabilidade de nos governar. Não há coisa mais
fácil do que perturbar o outro, da mesma forma que não há coisa mais difícil do que reagir
legalmente a essa perturbação. Por isso vê-se exemplos de homens públicos fazendo o que bem
entendem: de um lado um deputado como Roberto Jefferson ameaça um candidato a presidente com
umas boas bolachas; de outro, um líder religioso como o Reverendo Moon coloca no jornalzinho
dele em Washington (o Washington Times) que se fulano for eleito o Brasil virará pousada de
terroristas e se tornará uma sucursal do "Eixo do Mal". Hoje todo mundo pode tudo, até
construir, de dentro da cadeia, uma mansão com o nome da mãe escrito no fundo da piscina. E a
conta, quando vem?
Para a mídia, essa entidade obscura que deveria nos informar e conscientizar, tudo é
muito normal, desde que não mexam com nenhum de seus jornalistas, porque isso fere a liberdade
de imprensa. Em tempos de "Você me conhece" (expressão que ilustra bem a nossa sociedade, pois
serve tanto para definir a aflição em tornar-se conhecido, quanto a posição em que se colocam
aqueles que têm grana, espécie de suavização do grosseiro "Sabe com quem está falando?"), o
cidadão comum que já vive naturalmente debaixo de um atropelo, se vê igual à coitada da vaca
que foi atropelada em Birigüi por um avião da TAM: não tem tempo nem de mugir, antes que o céu
lhe caia sobre a cabeça. A conta, que o parágrafo anterior perguntou quando vinha, é essa.
O caro leitor eleitor deve ficar atento aos aviões de carreira, aos Fokker-100 (que o
alucinado jornalista José Simão chamou de Fucker-100) e aos "Você me conhece" da vida. Apesar do
espetáculo circense de nossas eleições, apesar de todo mundo estar adorando ver os candidatos se
estapeando na TV, é preciso não esquecer que há mais interesses em jogo, que essas firulas todas
não passam disso, firulas, e não levam a nada. Tem mais gente sendo eleita, tem senadores,
deputados estaduais, federais. É nesses que você tem que prestar atenção, porque são estes que,
na verdade, vão governar. Entendeu, leitor? Vê se presta atenção. E vota direito.
* * *
A gente quer não apenas mostrar o talento de gente que tem talento pra mostrar. Nosso
objetivo não é só divulgar trabalhos e parar por aí. Também queremos unir, ultrapassar
fronteiras, incentivar, construir um público leitor e consumidor de cultura, dar um chega pra lá
na mesmice e na mediocridade, reclamar do que achamos errado, elogiar o que achamos certo,
lembrar o que não deveria ser esquecido, ganhar dinheiro fazendo o que gostamos, dominar o
mundo. Por isso, e só por isso, fomos pegar lá em Portugal um dos estreantes desse mês, o
desenhista lusitano
Álvaro, que, além de reinaugurar a seção Quadrinhos (parada há meses por
falta de material - autores, onde estão vocês?), também comparece nos Livros do Cisco.
Além dele, encontramos dois leitores que nos deram a honra de enviar por email seus
textos, e que agora são também colaboradores:
Jacquelline Jucá e
Lindolpho Cademartori. A
primeira é uma cearense que já vem nos acompanhando há algum tempo e que estréia na seção de Poesia;
o segundo é um garotão goiano de 20 anos apenas, mas que aparece no Cisco de Olho com um ótimo
texto sobre a importância da leitura, que, não por acaso, coincide com os objetivos do parágrafo
acima. Tapete vermelho e abraços a todos.
* * *
Não tá meio óbvio que Fernandinho, o presidiário sorridente, não passa disso mesmo que seu
sobrenome diz, um "beira mar"? Não estaria na hora de as autoridades e a imprensa irem procurar,
nas profundezas, o verdadeiro chefão do crime organizado?
* * *
Da mesma forma que não se deve aceitar um convite para sair vindo de algum membro da banda O
Rappa (pelo menos, não sem estar vestindo um colete à prova de balas), e nem se deve ficar na
frente de José Serra em nenhuma pesquisa, também não é recomendável fazer parte de nenhum
acordo que envolva os Estados Unidos da América. Por isso, se o leitor estiver andando pela rua
e se deparar com George W. Bush, e o sujeito vier com um papo estranho sobre fazer parte da
Alca, diga "Não, obrigado" e vá saindo de fininho, pois, além de não ser boa coisa, o citado
transeunte certamente estará armado.
Charge: Gilmar
gilmar@canbras.net
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