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05.09.2004
Nossa salvação
Haroldo P. Barboza
Regularmente temos ouvido, com insistência, uma frase negativa sobre nossa pátria: "Este
país não tem mais jeito". E muitas vezes nos surpreendemos repetindo-a, por mais que sejamos
conhecidos como otimistas. E motivos não faltam para isto. Os desmandos governamentais que se
sucedem em cascata não oferecem outra alternativa. Uma reportagem mostrando TODOS os Vereadores
de São Leopoldo (RS) combinando a forma de se apropriar do dinheiro público não nos dá
esperanças no momento da escolha dos nossos representantes.
No entanto, esta terra ainda tem salvação. Nossas crianças. Filhos, netos e bisnetos. Nós
já desaprendemos a escolher bons nomes para a administração pública. Nos acomodamos e estamos
com preguiça e sem ímpeto para combater os ratos que se encastelaram no poder. Em muitos casos
votamos em amigos na esperança (em função de promessa velada dele) de que ele possa arranjar um
bom emprego para nossos herdeiros. Realmente com este comportamento não mudaremos nada nos
próximos 20 anos. Já fomos engolidos pela lama que desce do planalto e nos habituamos a respirar
um pouco somente quando a marola da podridão abaixa em função de algum escândalo que se torna
público. Devido a isto, os roubos são reduzidos por uma semana, até que o impacto das denúncias
diminui em função das mordaças que controlam a mídia pesada.
No entanto, não podemos pronunciar aquela frase fatal acima na frente das nossas
crianças. Seria confessar uma dose de egoísmo profundo tendo em vista que, bem ou mal, usufruímos
alguns bons momentos em passado recente e que aproveitamos as últimas gotas de boa qualidade de
vida que ainda restava. Ou então estaremos passando um atestado de incompetência para os jovens
que estão surgindo, declarando que eles não terão gabarito para alterar este cenário podre. E
ainda poderemos disparar uma seqüência de suicídios entre jovens descrentes de seus futuros.
Deixemos que pelo menos desfrutem de alguns anos brincando antes de mergulharem na triste
realidade a partir de uns 15 anos talvez.
É preciso dar-lhes esperanças. Mas não basta que cuidemos de cada um individualmente
dentro de nossa casa, ensinando-o a praticar o "salve sua parte e que se dane o resto". O tal
"resto" logo se transformará num horrendo monstro que os atropelará sem cerimônia. É esta a
herança que vamos deixar para nossos herdeiros? Então é melhor lutar logo pela 4ª guerra mundial
para eliminar 75% da humanidade e iniciar um novo ciclo de prosperidade que sucede as grandes
catástrofes.
Mas se desejarmos que a evolução seja menos traumática, temos de pensar nos grupos de
jovens. Criar para eles as situações de convivência pacífica, solidária e humana. Acostumá-los
à conversa sobre as melhores condições para seus futuros. Agrupá-los em torno de interesses
comuns enquanto jovens. Formando cidadãos conscientes que ao seguirem novos rumos carreguem uma
mesma forma de comportamento. O tempo urge e as forças maléficas controlam as finanças e a mídia
e usam as drogas para aliená-los. É uma luta desigual que nos consome ao extremo. Só passaremos
a ter vantagens se enfileirarmos milhares de legiões de abnegados dispostos a correr altos
riscos numa luta desconfortável.
Não resta dúvida que a Cultura é o principal caminho para dar início a esta limpeza
depois dos destroços que restarão após um primeiro tratamento de choque. Seria altamente
positivo que cada entidade que hoje organiza concursos literários pelo Brasil, promovesse
anualmente um para jovens entre 10 e 20 anos. As escolas também precisam rever seus conceitos de
uso do tempo no ensino. Não devem ficar esperando normas do Mi(ni)stério da Educação, onde os
dirigentes estão sonhando com a área financeira ou a próxima eleição. Cortem 5 minutos por dia
da parte "gordurosa" de cada matéria e usem o tempo acumulado em atividades culturais coletivas.
Leituras de obras, desenhos, pinturas, concursos relâmpagos de trovas (sem muita exigência no
início). As famílias que abram mão de 10 minutos diários da tv contaminada para conversar com
seus filhos. Mostre-lhes como é gostoso cultivar o amor e o bem querer, sem mesquinharias.
Não estou inventando nenhuma fórmula mágica nem a pólvora. Só estou pedindo que nos
unamos enquanto a areia movediça da imoralidade não nos faça esquecer o que é viver com
dignidade e felicidade. Nossos herdeiros têm direito de usufruir deste tesouro. Não precisamos
aguardar nenhum decreto para dedicar-lhes uma parcela de nosso tempo para brincar com eles,
ouvir suas dúvidas, fornecer nossa melhor visão de como o mundo pode melhorar com nossa união.
Só não podemos permitir que eles sejam ensinados pelas forças que espreitam nas esquinas escuras
de cada curva de nossas vidas.
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