A eleição de Lula para a Presidência significou a entrada do Brasil na modernidade.
Realizada a operação plástica que enxertou esperança na cara do brasileiro, o cidadão agora
siliconado pela fé pode enfim morrer de fome na segunda-feira, mas com a certeza de que na terça
o prato vai estar cheio. Bem feito. Quem mandou morrer cedo.
Enquanto os cartunistas se desesperam com a hipótese de ter de fazer humor a favor, o
Cisco Tonitruante permanece na vanguarda, na contra-mão e em todos esses rótulos
pretensiosos, para dizer que não nos interessa a quem pertence o traseiro refestelado na
poltrona presidencial. Havendo governo, somos contra. Não havendo, somos contra também.
E dizem que o Lula, nessa sua obsessão em acabar com a fome, acordou no meio da
madrugada com os olhos arregalados, a boca espumando, os braços estendidos ao vazio e os nove
dedos numa agitação furiosa, enquanto a voz rouca rosnava que o Presidente precisava comer,
comer, comer. Animada, a companheira Primeira Dama Marisa Lula da Silva foi logo desamarrando o
lacinho do decote da camisola, numa euforia trêmula decorrente da espera de vinte anos de
campanha, quando viu que era na direção da cozinha que o companheiro marido avançava, a fim de
quebrar o protocolo da geladeira. "É sempre assim", teria dito D. Marisa, enquanto amarrava de
novo o lacinho da camisola. "Um índice desse tamanho, uma conjuntura favorável e uma transição
civilizada, mas na hora de reunir as bases e aumentar a liqüidez com um enrijecimento do produto
interno bruto, a economia amolece e o câmbio despenca".
Recebemos algumas críticas de eleitores de José Serra, que revoltaram-se com a edição
anterior (dedicada ao candidato derrotado) e acusaram esta revista eletrônica, a maior e mais
importante do bairro das Laranjeiras, de ter perdido a isenção. É bem possível. Já perdemos o
nosso tempo, a nossa paz, o nosso dinheiro, a nossa segurança, a nossa saúde e a nossa confiança
nos outros, que provavelmente a isenção foi junto com o pacote. Mas os reclamantes podem ficar
sossegados, pelo menos neste mês, pois a presente edição é dedicada a Carlos Drummond de
Andrade. A menos que aqueles que preferem João Cabral de Melo Neto se sintam incomodados, não
estamos esperando nenhum puxão de orelha.
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Uma de nossas grandes alegrias em fazer o Cisco é descobrir leitores talentosos, que nos
enviam trabalhos e autorizam a publicação. Nesse mês duas leitoras nos presenteiam com seus
textos. Uma é a Ana Flor, carioca que os mais atentos já viram numa edição passada,
reclamando em O Leitor se manifesta a ausência de contos no Cisco. Pois agora ela está
aqui de novo, mas dessa vez no Cisco de Olho, e com um conto de sua autoria. A outra é uma poeta
trazida para cá pela Tê Soares, a Maria Helena Maia. Boas vindas a ambas.
A outra novidade é a estréia, na seção Serviços, da coluna Em Defesa do Consumidor. Já
há algum tempo estamos recebendo o boletim do sítio de mesmo nome, a cargo do advogado e
ex-deputado estadual Átila Nunes, que nos autorizou a republicar os textos. Confira.
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Quando Enéas Carneiro, presidente do Partido da Reedificação da Ordem Nacional, PRONA, e médico
que se elegeu deputado federal pelo Estado de São Paulo com a maior votação da história do
país, disse que escolhia "a dedo" seus correligionários, muita gente ficou animadinha, ainda
que o Dr. Enéas não seja proctologista. Com a denúncia da cobrança de cinco mil reais para quem
quisesse entrar no partido e se candidatar a algum cargo eletivo, fica-se sabendo que é a conta
corrente dos incautos que o dedo do Prona vai cutucar.
A propósito, o Doutor Enéas é cardiologista.
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Estamos muito preocupados com o estado de saúde do deputado José Dirceu, principal nome no
governo Lula. Desde os tempos de Fernando Collor, todo presidente eleito tem às suas costas um
homem forte responsável pelas negociações de bastidores e costura de alianças, e todos morreram.
Foi assim com P.C. Farias, braço direito de Collor, e foi assim com Sérgio Motta, o trator de
Fernando Henrique Cardoso. José Dirceu que fique de olho aberto.
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Alguém já se perguntou onde estavam Suzane Louise von Richtofen, a patricinha assassina, e seus
dois cúmplices, há quinze anos atrás, quando o menino Pedrinho foi seqüestrado na maternidade?
Sei não, mas acho que tem dedo (nada a ver com o Dr. Enéas) dessa gangue aí.