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Um país de Berzoinis
O exemplo vem de cima, e está mais do que integrado à nossa cultura. Descontadas as
obrigatórias exceções, estamos vivendo numa sociedade que não nutre pelo outro o menor respeito,
e que considera o espaço público um anexo do quarto, do banheiro ou do sofá. Constatação
revoltante e assustadora, mas de fácil verificação, bastando para isso sair de casa. Se você
segue numa calçada estreitíssima e vem alguém na direção contrária, você é quem deve se entortar
todo para evitar o esbarrão ,visto que o outro não se afasta, é incapaz, um milímetro sequer.
Dentro do ônibus, um lugar é do passageiro espaçoso que senta com as pernas escancaradas, e o
outro é da sacola de compras que ele carrega, ainda que no corredor haja gente de pé. Isso sem
falar nas conversas ao celular em locais impróprios, no som alto no meio da rua, nas abordagens
inconvenientes, nos pichadores, no telemarketing. É como se, de repente, toda aquela ideologia
de "paz e amor" e de uma convivência harmoniosa entre os seres fosse substituída por um velado
"que se danem os outros".
Seja por obediência incondicional a regras, seja por desprezo mesmo, o bem estar do
vizinho e a idéia de "tratar o semelhante da maneira como gostaríamos de ser tratados" perderam
completamente o valor. E isso não acontece apenas nos pequenos contratempos do dia-a-dia, nem só
entre pés-rapados prolifera o egoísmo. Há tempos não se vê, de maneira tão desavergonhada,
exemplo de descaso e humilhação como esse do Estado brasileiro para com os idosos. Ao baixar
uma lei obrigando o indivíduo com mais de 90 anos a ir, pessoalmente e em prazo estipulado por
uma mente doentia, aos bancos efetuar um recadastramento para provar que ainda não está morto e
que, portanto, merece continuar recebendo a sua pensão, o governo do Presidente Lula não cometeu
só uma gafe. As imagens das agências bancárias invadidas por velhinhos, alguns mal podendo se
locomover, chocou um país que a cada dia se choca menos com a própria desgraça.
Então veio a declaração de Ricardo Berzoini. Criatura que lembra vagamente um ser
humano e é titular do Ministério da Previdência Social, Berzoini disse a um repórter não ser
necessário pedir desculpas pelo constrangimento provocado, por tratar-se de um fato isolado.
Foi preciso que a arrogância e a insensibilidade do Ministro repercutissem negativamente na
mídia, para que ele se apressasse em voltar atrás. Pediu desculpas duas vezes e ampliou o prazo
para recadastramento. Logo depois viria o Presidente falar do assunto. Para Lula, Berzoini é um
de seus melhores ministros ("Imagine os piores", apressou-se em dizer um inspirado senador da
oposição), e teria apenas cometido um deslize, "um gol contra".
Por aí vê-se o tamanho do inchaço que o poder provocou nessa gente. Dignidade não
vale mais nada. Gestos como o de Berzoini, por mais que o Ministro não tenha agido sob
inspiração de alguma força das trevas, revela um desapego pelo indivíduo que é aterrador. Seja
pela vivência, pela história ou pela teimosia, nossa sociedade deveria ser obrigada a considerar
o sujeito que chega aos 90 como algo acima do bem e do mal. Ele já sofreu tudo o que tinha para
sofrer, sua vida daqui para frente deve, no mínimo, ser vivida em paz. Paz que tanto o Estado
quanto a iniciativa privada devem proporcionar. Por mais que motoristas de ônibus e ministros
da Previdência não concordem.
Talvez Ricardo Berzoini não tenha mãe ou avó, não conviva com idosos ou os odeie. Ou
talvez ele não esteja nem aí. Mas o Ministro é novo (tem só 42 anos), saudável, bem alimentado,
ainda tem tempo para aprender e formar uma consciência sem precisar da ajuda das câmeras de TV.
O que ele fez é triste de chorar, mas não é pior. O pior é que seu mau comportamento, ao
contrário do que sentenciou sobre o caso dos velhinhos, não é fato isolado, e se reflete a todo
instante ali mesmo, na esquina.
* * *
Mês atípico, esse dezembro. Além da volta de colaboradores que há muito não dão as caras no
Cisco, como Walter Galvão e Luiz Felipe Vasques, fomos surpreendidos por nada
menos do que seis estréias. Vamos a elas. Rafael Lima é carioca, engenheiro
mecânico e autor do blog Na Cara do Gol, de onde veio o ótimo texto sobre Wilson Simonal. Também
carioca é o escritor, poeta, artista plástico e ator Nadam Guerra, que entra na seção
de Poesia.
Trazidos pelo co-editor Marcos Roberto Magalhães de Sá, apresentamos mais três cabeças
pensantes, todos estreando na seção Cisco de Olho: o escritor e jornalista Gabriel Lopes
contribui com o conto A Lei de Silvia, enquanto que o casal Roberto Bitencourt e
Mariana Lopes, ele cientista político, ela psicóloga, entram na discussão sobre a redução
da maioridade penal para 16 anos. Finalizando, de São Paulo vem juntar-se a nós o jornalista
e escritor Luiz Carlos Lucena, falando de cinema. A todos eles, nossas mais calorosas
boas vindas.
Outra novidade é a seção de piadas, que lançamos atendendo a pedidos e já preparando o leitor
para o que está por vir em janeiro. Quem viver, verá. Ou não.
* * *
Por si só, fazer lista de melhores já é exercício de pretensão e futilidade. Agora, em
pesquisas recentes realizadas pelo mundo, One, do U2, foi eleita a melhor canção já
gravada; as machadadas de Jack Nicholson em O Iluminado, o momento mais assustador da
história do cinema; e o vôo de bicicleta do E.T., o mais mágico. Todos encabeçaram listas de
dezenas de títulos. Resta saber quando esse setor da imprensa, que se diz cultural, vai fazer
uma lista com as listas mais imbecis de todos os tempos.
* * *
Realizou-se em Genebra um Fórum Mundial da Mídia Eletrônica e não convidaram o Cisco Tonitruante.
Depois reclamam de falta de credibilidade.
* * *
- Depois de escrever um livro contando as intimidades de seu casamento com o jogador de futebol
Ronaldinho, Milene Domingues será eleita para a Academia Brasileira de Letras, vencendo com
facilidade o seu adversário, o historiador José Murilo de Carvalho.
- Daqui a nove anos, quando estiver precisando pagar umas dívidas, a viúva de John Lennon,
Yoko Ono, irá liberar para o público novas imagens inéditas do ex-beatle. Sob a justificativa de
que "o mundo, hoje, precisa mais do que nunca da mensagem dele", Yoko mostrará cenas de Lennon
se limpando na privada, cheirando o dedão do próprio pé, imitando o a risada do Pica-Pau,
além da cena mais longa, que mostra durante 15 minutos o artista dormindo.
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