Whale Rider,
Nova Zelândia / Alemanha, 2002.
Com KEISHA CASTLE-HUGHES, RAWIRI PARATENE, VICKY HAUGHTON,
CLIFF CURTIS, GRANT ROA, MANA TAUMAUNU, RACHEL HOUSE, TAUNGAROA EMILE, MABEL WHAREKAWA-BURT,
RAWINIA CLARKE, TAHEI SIMPSON, ROI TAIMANA.
Música: LISA GERRARD.
Co-produção: REINHARD BRUNDIG.
Fotografia: LEON NARBEY.
Montagem: DAVID COULSON.
Produtor associado: WITI IHIMAERA.
Produção executiva: BILL GAVIN, LINDA GOLDSTEIN KNOWLTON.
Produção: JOHN BARNETT, FRANK HÜBNER, TIM SANDERS.
Baseado no romance de WITI IHIMAERA.
Escrito e dirigido por NIKI CARO.
Estréia no RJ: 27.02.2004.
Sinopse e comentário.
Drama. Austrália. Na antiga tradição dos índios Maori, conta a lenda
que, para guiar seu povo de volta à sua terra de origem, o guerreiro Paikea viria montado numa
baleia. Obcecado pelas tradições e pela espera de um novo líder, Koro Apirana depositou todas as
suas esperanças no nascimento de um neto, já que seu filho Porourangi afastou-se dos costumes
Maori. Para aumentar sua amargura, o novo primogênito é uma menina, única sobrevivente de um
casal de gêmeos, num parto que custou também a vida da esposa de Porourangi. A menina (que,
contra a vontade de Koro, foi batizada de Paikea) cresce solitária, abandonada pelo pai que foi
viver na Europa e pelo avô, que a rejeita por não ser um homem. E rejeitará ainda mais quando
ela , a fim de provar seu valor e confirmar o que acredita ser seu destino, passa a estudar as
lutas e os cantos sagrados, restritos aos homens da aldeia.
Embora no conflito tradição / modernidade não haja vencedor (há perdas e
ganhos para ambos os lados), em Encantadora de Baleias a fantasia leva vantagem sobre a
realidade. Narrada quase como fábula, a história da pequena Paikea não economiza em licenças
poéticas para defender a tolerância e a igualdade num meio social onde a mulher permanece como
elemento subordinado ao homem. Isso tudo sem jamais negar ou desmerecer a história e a cultura
Maori, revelada tanto em sua linguagem quanto nos cantos, nos rituais e mesmo na guerra.
Como elemento narrativo, o personagem de Koro tem assim uma dupla e
importante função: é ele o responsável por criar a tensão dramática do filme, assumindo posição
antagônica a Paika e levando-a, mesmo sem se dar conta, ao treinamento que fará da criança um
líder. Mas Koro é também a ferramenta que faz com que através da história um povo seja capaz de
renascer. Abandonados naquilo que vêem com "buraco", os maoris do filme levam uma vida tediosa e
sem futuro, onde o único projeto de vida é ir embora da aldeia, como fez Porourangi e como
espera fazer Hemi, o jovem amigo de Paikea. Pobreza, marginalidade e desagregação: por muito
pouco a população da aldeia não se auto-declara morta. O filme exibe didaticamente tal condição,
o que torna emocionante a seqüência final, onde os costumes são retomados e é possível ver, nos
olhos arregalados dos homens e mulheres que cantam e dançam de forma tão esquisita, o orgulho de
sua própria origem.
A direção da neozelandesa Nikki Caro (responsável também pelo roteiro
adaptado) é melhor sucedida nos momentos de maior impacto emocional, geralmente ao ar livre e
onde há vários personagens reunidos. Veja-se a fortíssima e angustiante cena das pessoas
reunidas lutando para salvar as baleias encalhadas na praia, onde a câmera quase documental
expõe o esforço e a dor dos seres humanos contra a morte. Os momentos intimistas, no entanto,
parecem prejudicados pela indecisão da diretora entre o distanciamento e a identificação, e se
não perdem de todo a dramaticidade é por causa do talento dos atores, seja a simpatia dos
coadjuvantes ou a força de Rawiri Paratene e Vicky Haughton, que fazem os avós de Paikea. Mas
não há nada nesse filme que chame mais atenção, nem as seqüências submarinas, do que sua
protagonista. Aos 11 anos na época das filmagens,
Keisha Castle-Hughes é uma criança de aparência frágil, com um sorriso que custa a
aparecer e um olhar profundo como o oceano ao qual está sempre direcionado. Ainda assim, escapa
de qualquer estereótipo de criança infeliz transmitindo uma força que surpreende e impressiona.
A dolorosa seqüência em que profere um discurso na escola, engolindo o choro por causa da
ausência do avô, é dessas que nos levam a confirmar que há de fato seres humanos diferentes,
dotados de algum tipo de iluminação que a nós, mortais, só resta saber reconhecer e admirar.
(M.L.)
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