Lost in Translation,
EUA, 2003.
Com BILL MURRAY, SCARLETT JOHANSSON, GIOVANNI RIBISI,
ANNA FARIS, AKEKIKO TAKESHITA, CATHERINE LAMBERT, YUTAKA TADOKORO, NÃO ASUKA, FUMIHIRO HAYASHI.
Música: BRIAN REITZELL, KEVIN SHIELDS.
Produtor associado: MITCH GLAZER.
Fotografia: LANCE ACORD.
Montagem: SARAH FLACK.
Co-produção: STEPHEN SCHIBLE.
Desenho de produção: K. K. BARRETT, ANNE ROSS.
Produção executiva: FRANCIS FORD COPPOLA, FRED ROOS.
Produção: ROSS KATZ, SOFIA COPPOLA.
Escrito e dirigido por SOFIA COPPOLA.
Estréia no RJ: 23.01.2004.
Sinopse e comentário.
Drama. Recém chegado a Tóquio para gravar um comercial de uísque, o
ator Bob Harris atravessa a crise de meia idade. Sem muita certeza quanto ao que faz ali ou o
que o espera na volta para casa (tem mulher e dois filhos nos EUA), ele passa a maior parte do
tempo no bar do hotel. Paralelamente, a bela Charlotte, jovem que acabou de formar-se em
filosofia e veio para o Japão acompanhando o marido fotógrafo, sente-se sozinha e desesperançada
por não saber que rumo dar à sua vida. Os freqüentes e casuais encontros pelas dependências do
hotel, mas principalmente no bar, terminarão aproximando os dois.
Com toda a sua superpopulação e toda a sua exagerada tecnologia e
riqueza, o Japão deve ser o lugar ideal para sentir-se perdido. Das caminhadas solitárias que os
protagonistas de Encontros e Desencontros cometem pela capital japonesa, muito do que se
vê são pessoas diante de máquinas reproduzindo sensações. O filme mostra - de maneira muitas
vezes caricata - uma sociedade danificada pela divisão entre as facilidades ocidentais e a
tradição oriental. De um lado a futilidade quase agressiva impondo um regime de sorrisos e
autopromoção; de outro, instantes de contemplação de costumes exóticos. Para a diretora e autora
Sofia Coppola parece não haver meio termo. Pelo estado de espírito em que se encontram
("Sinto-me estagnada", diz Charlotte a certa altura), não há sofisticação ou transcendência
capazes de trazer algum alívio aos personagens. Em suas vidas o tempo que passa não acrescenta
nada além de horas.
Do mesmo problema quase padece este filme. Ao exibir pessoas largadas num
quarto de hotel com suas vidas "estagnadas", sem nada a fazer além de encarar o vazio,
Encontros e Desencontros por pouco não se torna um filme tedioso sobre o tédio. Elogiada
pela delicadeza com que narra essa história da solidão que atinge e aproxima gerações
diferentes, a diretora atola na falta de assunto e, até a metade do filme, dá a impressão que
irá mesmo afundar. A tal da delicadeza narrativa é melhor percebida nas seqüências
protagonizadas por Charlotte, pois o que se vê na parte que aborda o universo masculino é uma
sucessão de exageros com o intuito de dar mais leveza e humor, para que a história não fique
amarga demais. No entanto, cenas como a de Harris com a prostituta que simula um estupro, ou da
corrida na esteira, só conseguem aborrecer. Por sorte o personagem tem um ótimo intérprete (a
idade está fazendo muito bem a Bill Murray, que esbanja talento e sensibilidade seja gravando o
comercial ou desafinando no karaokê), que resolve com sutileza os excessos do roteiro.
Mas Sofia Coppola tem em mãos um belo material humano, e é no momento em
que começa a mostrá-lo que seu filme cresce. Quando Bob e Charlotte enfim se deixam conhecer (um
ao outro e os dois ao espectador), a história ganha em profundidade e credibilidade. É nos
detalhes que os atores vão deixando pelo caminho, e principalmente naquilo que não é dito
verbalmente, que a necessidade do outro vai adquirindo a urgência da paixão, mal disfarçada nas
gentilezas e nos sorrisos. Ressalte-se a bonita trilha sonora e a fotografia de tons escuros,
que proporcionam o clima intimista exigido pela história, sem o qual iria tudo por água abaixo.
Mas, principalmente, atenção para o grande trunfo do filme que é a encantadora Scarlett
Johansson. Ela é aquele tipo de mocinha que marmanjos como esse pobre missivista vêem aos
montes por aí e ficam duvidando que o miolo seja tão bonito quanto a casca. No caso dela, é.
(M.L.)
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