The Age of Innocence,
EUA, 1993.
Com DANIEL DAY-LEWIS, MICHELLE PFIFFER, WINONA RYDER,
GERALDINE CHAPLIN, MICHAEL GOUGH, RICHARD E. GRANT, MARY BETH HURT, ROBERT SEAN LEONARD, NORMAN
LLOYD, MIRIAM MARGOYLES, ALEC McCOWEN, SIÂN PHILLIPS, JONATHAN PRYCE, ALEXIS SMITH, STUART
WILSON.
Produtor associado: JOSEPH REIDY.
Co-produtor: BRUCE S. PUSTIN.
Abertura: ELAINE & SAUL BASS.
Música: ELMER BERNSTEIN.
Figurino: GABRIELLA PESCUCCI.
Montagem: THELMA SCHOONMAKER.
Desenho de produção: DANTE FERRETTI.
Fotografia: MICHAEL BALLHAUS.
Baseado no romance de EDITH WHARTON.
Roteiro: JAY COCKS & MARTIN SCORSESE.
Produção: BARBARA DE FINA.
Direção: MARTIN SCORSESE.
Estréia no RJ:
Sinopse e comentário.
Drama. Nova York, década de 1870. Faltando um ano para o casamento
do promissor advogado Newland Archer com a jovem e angelical May Welland, promovendo a união de
duas das mais tradicionais famílias novaiorquinas, a alta sociedade local recebe com reservas a
chegada de Paris da condessa Ellen Olenska, prima de May que, devido a um mau casamento, está
sendo sutilmente marginalizada por seus pares. Discordando do tratamento dispensado à futura
"prima" (a quem já conhecia desde a infância), Archer aproxima-se de Ellen com o intuito de
ajudá-la, indo até a residência dos poderosos e influentes Van Der Luyden solicitar que
intercedam em favor da condessa, após o fracasso de uma festa dada em sua homenagem. Com as
seguidas visitas e as longas conversas, a admiração de Archer pela bela, independente e
solitária Ellen acabará se transformando numa paixão proibida, visto que não apenas ele está
comprometido, mas ela, oficialmente, ainda é uma mulher casada (situação que Archer,
anteriormente, aconselhara a manter, a fim de evitar os constrangimentos a que seria submetida
pela sociedade uma mulher divorciada). Ainda que correspondido, ele terá de concordar com que
se afastem, principalmente ao saber que a família de May aceitou a antecipação do casamento
(para o qual ele mesmo chegara a insistir). Até que Archer e Ellen voltem a se encontrar, haverá
a cerimônia de casamento, a lua de mel na Europa e vários desencontros, para que ambos descubram
que o sentimento em nada se arrefeceu, por mais que não possa prosseguir.
"Um mundo de um equilíbrio tão precário, que um sussurro poderia
destruir toda a sua harmonia". A frase, apenas uma das muitas observações mordazes feitas no
decorrer deste filme, tanto resume o ambiente social da classe dirigente novaiorquina da década
de 1870, quanto sugere a obsessão temática do cineasta Martin Scorsese, explorada das mais
diferentes formas em mais de uma dezena de filmes. Agora, depois de lidar com a inadaptação
social do indivíduo, e com a violência explícita que surge como conseqüência, Scorsese recuou
no tempo para procurar algumas das origens desse desequilíbrio. E, de fato, muitas delas estão
aqui. No rigoroso jogo de aparências que se esconde por trás dos luxuosos jantares, dos teatros,
das óperas, das roupas e das decorações exuberantes, da elegância e da sofisticação, revela-se
uma sociedade fechada e excludente, mantida através de um rígido controle de regras não
pronunciadas que valem mais do que as leis oficiais. Trata-se de um universo, como dito no
filme, "hieroglífico", onde a verdade jamais é dita em público, mas representada por sinais e
propagada através de uma meticulosa rede de comunicação entre seus membros (entenda-se, através
da fofoca e da hipocrisia). Tão rigorosa é a classificação social nascida desse sistema, que o
indivíduo, por mais que procure manter-se independente ou discordante, a ela acaba se curvando,
como no caso de Archer. Para ele, a teia social formada de compromissos firmados e relações
envolvidas era tão forte que mesmo a sua própria felicidade precisaria ser relegada a segundo
plano. Da mesma forma que Ellen, por mais que a busca da mesma felicidade e da realização
amorosa a fizesse quebrar uma ou outra regra de convívio estabelecida, a posição de ser
marginalizado num grupo, quase banido, terminaria forçando-a a aceitar as imposições de parentes
e amigos.
Para reproduzir esse ambiente de exuberância, e de conspiração por trás
da beleza, era preciso impressionar. E o espectador fica mesmo impressionado com a suntuosidade
dos banquetes, dos detalhes que a narradora vai discorrendo não apenas quanto a costumes, mas
tipos de pratos, de talheres, de decoração e mesmo da disponibilidade dos salões de uma mansão.
Tudo da maneira mais elegante e de forma a jamais entediar o interlocutor. Em entrevista,
Martin Scorsese confessou ter realizado A Época da Inocência para conhecer a Nova York
do século XIX, e vendo-se o filme percebe-se o quanto se aprofundou em pesquisas. Sua câmera,
ainda que nas seqüências iniciais não pare quieta, movimenta-se com desenvoltura pelos salões
como um figurão, captando tanto imagens belíssimas como pequenos e esclarecedores detalhes,
quase sempre acompanhada da música de um inspirado Elmer Bernstein, que compôs uma delicada
partitura para acompanhar o romance entre os protagonistas.
Há que se lembrar de que existe uma história de amor no centro de toda
essa discussão. E antes que se pense que as preocupações sociais do diretor possam ser
incompatíveis com a sensibilidade necessária para narrar tal romance, Scorsese surpreende com
um lirismo e uma sutileza raras vezes encontrados em sua filmografia. Os encontros furtivos de
Archer e Ellen são exibidos com lentes apaixonadas, e carregados de uma intensidade erótica que
não se vê no cinema contemporâneo. Há mais tesão nas trocas de olhares e cumprimentos, nas
conversas interrompidas ou no simples "Quando posso vê-la?" sussurrado num corredor, do que em
todos os filmes protagonizados por Sharon Stone. Essa sexualidade reprimida chega quase a
explodir na cena da carruagem, quando ele abre a luva dela para beijar-lhe a pele do pulso, e
deve muito ao casal de protagonistas Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer. Day-Lewis, ótimo,
cria um Archer elegante e contido, obrigado a manter as convenções que fazem de seu amor um
gesto imoral e repreensível. Pfeiffer, por sua vez, é vista num dos raros momentos (os outros,
também filmes de época, são Ligações Perigosas e Ladyhawke) em que conseguiu
juntar sua beleza a algum talento dramático. A destacar, a escolha de Winona Ryder como a
nojentinha May. Ninguém melhor do que ela para representar a "inexpressiva juvenilidade"
exigida pelo texto.
(M.L.)