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03.10.2004
Porta giratória, bolacha recheada e explicações pela metade
Fabrício Carpinejar
Há tanta coisa que amei sem entender. Acho que amo para não explicar. Amo
para deixar de me explicar. Amo para me contradizer de explicações. Eu me
sinto difícil, um texto difícil, eu me sinto burro quando me leio. Cada
vez mais burro. É a pressa de minha letra. Eu sou embaralhado de desejos,
os desejos são dúvidas que o corpo responde e não explica. Responder não
significa explicar. Explicar mesmo é quando dedicamos uma vida por uma
pergunta. Mas quem faria isso? Já é penoso dedicar uma vida inteira para
ter uma resposta. Se não entenderes o que quero dizer, estamos quites. Eu
sou mais o desaforo do que o elogio. Somos todos vulgares, mas alguns são
vulgares na hora certa e outros vulgares a toda hora. Uma mulher vulgar no
quarto é muito educada para a memória. Um homem vulgar fora do quarto é
muito educado para o esquecimento. Vulgaridade é como religião, quem reza
sem parar não sabe nem mais para o que está rezando. Rezar exige esquecer
de rezar. Rezo no automático e de vez em quando já estou pensando em
amoras, em doces, em minha mulher dobrando o lenço, em pornografia. Sei
lá, já estou orando para outra coisa que não a minha promessa. Eu rezo
para lembranças emprestadas, alheias. Não se fica no mesmo lugar do
pensamento nem para escovar os dentes. O pensamento migra. Um dos meus
pânicos é chamar o garçom e ele não me enxergar. Levantar o dedo
impulsivamente e ficar com o braço ao alto, sem contrapartida. Um braço
erguido me faz ser insignificante, como um náufrago. O garçom olha para
todos os lados, menos para mim. Ameaça virar o pescoço e o rosto não o
acompanha. Sou uma parede falsa. Depois que se levanta o dedo, não adianta
coçar o ouvido. Coçar o ouvido é mais feio do que não ser reparado pelo
garçom. O garçom deveria ter sido aluno da minha professora no ensino
fundamental. Alçava-se o dedo e ela chamava rapidamente meu nome. O nome
faz a maior diferença quando não se entende o que se quer dizer. Há
pessoas que somente escutam uma conversa quando seu nome é citado. Mas meu
interesse não pode ser reduzido ao meu nome. Quanto mais se explica, mais
se confunde. Como esclarecer o relacionamento no fim de noite. Acerta-se a
primeira provocação e depois se erram as seguintes, tenta-se corrigir e
nos atrapalhamos com as palavras. Confessamos o que não foi pensado e de
vítima a agressor é um passo. Quantos casamentos ruíram pela mau uso dos
sinônimos, apesar das melhores intenções do casal? Arrancar um pedido de
desculpa custa caro. E a discussão do relacionamento não termina porque
não se tem mais como escapar dela de uma forma digna, restando o choro ou
o cinismo. Acho que amo para não explicar. Amo para deixar de me explicar.
Amar é como uma porta giratória para uma criança. Ao empurrar a porta, a
criança retoma o seu local de partida, não entrará no novo ambiente.
Porque não há lógica em dar uma meia volta. Ninguém quer uma paixão pela
metade, uma passagem pela metade, uma amizade pela metade. Porta giratória
é um crime. Assim como todo amor. Ele me sugere que vou sair para fora de
mim, porém no fundo eu fica mais preso em mim. Na verdade, giro para
regressar ao lugar que sai. É complicado? Pensa então nas bolachas com
recheio. Eu abria com cuidado cada uma delas, separava em dois blocos e
raspava com os dentes o chocolate ou o morango. Havia tanta concentração
para não quebrá-las antes de finalizar o ritual. Não admitia parar no
meio. Virava um sonâmbulo da boca. Sempre me falaram que não é
aconselhável acordar um sonâmbulo. O sonho sabe melhor o caminho de volta
do que o próprio sonhador.
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