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05.12.2004

Alegrete
Fabrício Carpinejar


"Aquela única janela acesa
no casario
sou eu"

Mario Quintana, Noturno IV



   Ando de madrugada por Alegrete como quem entra por engano em um poema de Mario Quintana. Desvario de estrelas. O céu é tão pesado que parece perto. O céu pedala pampa abaixo, com colisão certa. O jornaleiro arremessa o jornal de costas. Guardas jogam carteado na praça Getúlio Vargas. Os casarões antigos, filhos do mesmo latifundiário, cochicham ancestrais e traficam retratos ovalados. Cada casario, uma carta de letra difícil, uma boca aberta. Os pátios são por dentro. Apoiados nas muretas, os telhados balançam suas pernas. Os cataventos orientam os pássaros, que atravessam o crepúsculo em fila indiana. Carros rodam pião nas pedras lisas. As verduras crescem em degraus. Alegrete tem cheiro de chá. Os namorados casam rápido porque não há como amar na rua ou na praça com o minuano. O vento faz cabelo no ouvido. Não existem muitos restaurantes de noite, a vida atende a porta de pijama. A casa onde Quintana nasceu e morou virou papelaria. O papel em branco ainda é árvore. A eternidade foi comprar cigarro e não voltou. Ficou a placa, o epíteto, não a lápide. A residência do poeta não foi tombada. Emprestaram o milagre, esqueceram o santo. Alegrete é mais um lugar na oração. O terço é âncora do quarto. Não existem cores para separar os retalhos da colcha. A luz é despertador das paredes. O galo engoliu o campanário. A mosca não trabalha durante a sesta, vende asas usadas. Bem que poderia ter lampiões na esquina para as carroças que passam. A mola é a primeira a fugir do relógio. Vi um homem varrendo o teto, algum fantasma não tirou sapatos ao entrar. Vi uma mulher lendo uma moeda como se fosse um anúncio fúnebre. Quem sofre de pudor não é cínico. Eu me senti só e sentei em uma cadeira alta no Quiosque. Cadeira alta em lancheria me dá autoridade de infância para pedir pão com ovo. Lembrei que fiquei triste quando o barbeiro da infância dispensou a almofada e disse: "agora estás grande!" Crescer custa osso. A panela parada é um avental. Os rituais transformam a humildade em orgulho. Eu não sei mais esperar. Alegrete espera, um cavalo que não saber onde ir quando solto.







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