Fausto Rodrigues Valle
Perguntaram-me: por que você escreve? Respondi sem piscar: gosto de palavras. Resposta que
atendia a minha mania de escrever mas, nem de longe satisfez o interlocutor. Não direi como
muitos: para mim, escrever é como respirar. Se não escrever, morro. Ou, tenho coisas para dizer.
É uma compulsão. Nasci escritor. Nada disso. Escrevo porque gosto de palavras e escrevo porque
gosto de ler. Neste particular, estou com Jorge Luís Borges que disse orgulhar-se muito mais dos
livros que lera do que dos que escrevera. Sou um leitor compulsivo, isso sim. Herdei isto de meu
pai que nem o curso primário tinha e era o maior ledor que conheci.
Apenas alfabetizado, agarrei um livro e nunca mais me despreguei de um. Era ler o tempo todo.
Durante o dia, durante a noite à luz de lamparina, na hora do almoço, nas salas de aula. Peguei
a mania de ler dois, três livros ao mesmo tempo. Cansava de um, pegava outro. Os que estavam de
lado não ficavam fechados, eu os colocava de bruços, abertos na página em que eu havia parado,
para não ter dificuldade na retomada da leitura. O que lia? Tudo. Desde gibis (ó que beleza!)
até livros que hoje eu não teria mais vontade nem coragem de encarar. Por exemplo: quando eu
tinha treze/quatorze anos, encontrei um livrinho de porte pequeno, letra miudinha, que tinha o
título de Mahabarata, acho que era isto. Meu Deus, era a história milenar da Índia! Em seu bojo,
estava o Baghavad Gita, ao qual muitos anos depois dediquei-me à nova leitura (só dessa parte),
quando estava me instruindo em coisas do misticismo. Até hoje não entendo como uma criança de
treze/quatorze anos teve a pachorra de entrar numa leitura tão pesada e tão insólita para um
pré-adolescente.
Anos depois, um de meus filhos, ao fazer um desenho do pai, a pedido da professora, na escola,
desenhou uma figura portando um livro, com aqueles traços próprios de uma criança na fase
primária do ensino. Aí me dei conta de que, definitivamente, o livro fazia parte de minha
personalidade.
Disse que escrevo porque gosto de palavras. Sou viciado em dicionários. Vocês já viram alguém
ler dicionário, página por página? Eu lia. No meu tempo de estudante, havia uma revista mensal
muito boa, A Cigarra, que oferecia duas páginas para charadas, controladas por Sylvio Alves. Eu
era freqüentador e colaborador desta seção, com o pseudônimo de Xofrango (águia pesqueira quando
nova). As charadas eram de bom nível e o manuseio do dicionário para a lida com elas aumentou
muito o meu vocabulário. Se encontro alguma palavra desconhecida, em qualquer leitura, vou ao
aurélio para confirmar o significado, ou simplesmente para ver se ela existe mesmo.
O que me encanta nas palavras é a sonoridade e o significado delas nas frases. Fico um tempo
enorme namorando um vocábulo, apreciando a sua extensão semântica, a sua relação com a coisa
nomeada. Um dia, de tanto fixar os olhos e de me concentrar numa palavra, fiquei surpreso com o
que ocorreu: ela adquiriu concretude, tornou-se, ela própria, palavra-coisa - e começou a pulsar
à minha frente. Podem rir, mas é verdade. (Essa experiência pode ser feita com detalhes
anatômicos de uma pessoa. Se nos concentrarmos numa orelha, por exemplo, a um dado momento essa
orelha torna-se o próprio indivíduo. O detalhe pelo todo, uma verdadeira metonímia).
De vez em quando eu cismo com uma palavra, por um detalhe qualquer, pela sonoridade, pela
estranheza que ela me provoca ou por algum insólito significado. Aconteceu com a palavra
penetrais, não a segunda pessoa do plural, presente do indicativo, do verbo penetrar, mas
o substantivo masculino, somente usado no plural, significando
a parte mais íntima, o
interior. Não descanso enquanto não utilizo tais palavras em algum texto. Aí mora o perigo.
Se forçar a barra para o seu uso, a frase fica deselegante, sem espontaneidade. Há de haver um
jeito em que ela entre na frase como quem não quer nada û e que não dê a sensação de estar ali
colocada à força.
Não há palavras feias. Algumas são lindas. Em poesia, quem escreve terá sempre o prazer de fazer
o jogo dos sons e do ritmo, encompridar o significado delas pelas idéias afins, criando a
sutileza nos versos. Essa é uma das razões porque a poesia não pode ser lida como um texto
informativo qualquer.
Afinal, escrevo porque gosto de palavras. O gosto pela palavra me levou à poesia a que, bem ou
mal, eu me dedico. Não é uma obsessão, uma psicose. Essa mania não interfere em nenhuma outra
atividade. O resultado é um grande prazer íntimo, inarrável, só conhecido por quem, biruta como
eu, ocupa-se com estas coisas tão inúteis, nesse mundo em que só tem valor o que dá dinheiro.
Não é
vero?
Outros textos do autor
Volta a O Cisco de Olho