Fausto Rodrigues Valle
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, quase um dodecassílabo. Nasceu na cidade de Goiás,
antiga capital do Estado, agora patrimônio da humanidade. Em 20 de agosto. Signo de Leão. Cora
Coralina, uma leoa, mulher valente e corajosa.
Procurei na internet o que já haviam falado de Cora Coralina, a doceira de Goiás, a poetisa que
o Brasil reverencia, a mulher de quem dissera Drummond ser a pessoa mais importante de Goiás.
Já haviam dito tudo. Dizer mais o quê?
Cora deixou a cidade de Goiás ainda jovensinha, para se casar, voltando anos depois, viúva,
para ali viver na Velha Casa da Ponte, fazer seus doces e seus poemas. Foi como doceira que a
conheci. Diziam que em Goiás uma mulher fazia uns doces que eram uma beleza. Fui conferir.
Morava ali mesmo naquela velha casa, fotografada por turistas e pintada por um sem número de
artistas plásticos. É a casa mais fotografada de Goiás, que quase foi destruída pela última
grande enchente do Rio Vermelho. Mas, felizmente restaurada. Ali funciona o Museu Cora Coralina.
Muitas coisas perderam-se, Especialistas em restaurações de velhos alfarrábios debruçaram-se
sobre os seus ricos cadernos de rascunhos atingidos pelas águas e salvaram preciosidades,
textos talvez ainda inéditos.
Para mim, pessoalmente, e acredito que para quase todo mundo, foi como uma bomba o aparecimento
de Cora Coralina na seara da literatura brasileira. Pois apareceu já na idade em que outros
já aposentaram a pena ou se dedicavam aos chás das academias.
O que fez de Cora Coralina tão falada, em toda a imprensa brasileira e dela tomou conhecimento
todo intelectual patrício? A sua poesia? A sua prosa? Ou foi a personalidade forte, a vida que
emanava dela? Foi tudo isto? Foi tudo isto. No entanto, acredito que a idade já avançada à
época do primeiro livro, aliada à sua forte presença, à eloquência comovente ao dizer seus
poemas, tenha influenciado a sua rápida subida no meio literário brasileiro.
De sua obra isento-me de falar, porque em jornais, revistas e sites da internet, ocupam-se
desta tarefa vários autores autorizados. Mas, transcrevo a seguir o final de uma análise feita
pelo professor José Fernandes, crítico literário, Mestre em Letras pela Universidade Federal de
Santa Catarina, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e
Professor Titular de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Goiás, publicada no
livro "Dimensões da Literatura Goiana - 1992":
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Analisando, rapidamente embora, o discurso poético de Cora Coralina, podemos concluir
que sua simplicidade lingüistica, muitas vezes condenada, tem, na realidade, suas
raízes na própria palavra, na medida em que ela cria e cristaliza o mito. A
simplicidade se lhe impõe, porque lhe interessa, antes de tudo, o que a liga à terra e
aos homens que nela trabalham, além da própria vastidão que domina o seu eu. Sua fusão
com a terra e os outros provém de sua grandeza interior que, ao tocar os objetos,
através da palavra, os expande ao infinito.
Deste modo, o telurismo que a domina, em vez de mantê-la nos estreitos espaços dos
becos e do leito do Rio Vermelho, a eleva à vastidão do Cosmos, fazendo com que ela se
confunda com o todo e com o tudo que compõe a totalidade do universo. O espetáculo
exterior contribui para a revelação de sua vastidão íntima. A imensidão íntima da
poetisa dos becos de Goiás é uma intensidade, uma intensidade do ser, a intensidade de
um ser que se revela no telurismo e na integridade do Cosmos.
Finalmente, encerramos com as palavras de Baudelaire que, acreditamos, resume o espírito
e os símbolos que compõem a obra de Cora Coralina: "Em certos estados de alma quase
sobrenaturais, a profundidade da vida se revela integralmente no espetáculo, por mais
comum que seja, que se tem sob os olhos. Transforma-se em símbolo."
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Cora Coralina saiu de Goiás ainda mocinha, talvez nem 16 anos completados, na garupa do cavalo
de um oficial do exército que ali fora a serviço e por quem se apaixonara. Já então era uma
mulher forte, deixando claro ao seu enamorado que só se entregaria após o casamento. E foi o
que aconteceu. Casou-se, constituiu família. Depois viúva, filhos pequenos, fazia doces para
vender. E vendia livros de porta em porta para o complemento da subsistência. E os lia. Sempre
teve vontade de escrever, mas não escrevera nada ainda. Filhos adultos, casados, Cora deu por
cumprida a missão de mãe e voltou para a Cidade de Goiás, de onde jamais se ausentara, em
espírito. Já então havia seus cadernos de rascunho, onde rabiscava seus escritos. Daí para a
frente, todo mundo sabe o que aconteceu: surge a extraordinária personalidade dessa mulher
poeta, logo reverenciada por todo o país.
O professor e poeta Aldair da Silveira Aires foi amigo pessoal de Cora Coralina. Pedi-lhe que
definisse em poucas palavras a personalidade de Cora: "ela era forte, às vezes um tanto amarga,
mas sempre doce. Suas atitudes eram muito objetivas, muito verdadeiras, muito diretas."
Um fato que ele me narrou: Em 1968, estava em Goiânia, o filólogo Antenor Nascentes, para a 1ª
Semana de Estudos Luso-Brasileiros, promovida pela Universidade Federal de Goiás. Constava do
programa social uma visita à velha capital. Naturalmente, Cora Coralina foi visitada. Ao vê-lo
entrar em sua casa, ela disse
não acredito que meu mestre esteja entrando em minha casa.
Durante a conversa, Cora mostrou ao mestre algo que julgara errado em um de seus livros. O
grande filólogo nada disse, no momento, mas ao sair, já sobre a ponte sobre o Rio Vermelho, ao
lado de sua casa, na presença de vários intelectuais, observou:
foi preciso vir à Goiás para
uma matuta goiana me mostrar um erro que vocês não viram.
Cora Coralina era também uma mulher saudável de corpo, tanto que chegou à idade avançada com
toda a lucidez de jovem. Infelizmente, houve uma fratura de bacia. Levada à cirurgia,
vaticinaram os médicos que possivelmente não voltaria a andar. Voltou a andar sim. Primeiro,
em cadeira de rodas. Depois, amparada em duas muletas. Em seguida, em apenas uma muleta e
finalmente, sem muletas.
Poetas e escritores de Goiás escreveram poemas, crônicas e outros textos sobre a doceira-poeta
da Cidade de Goiás. Seu nome é muito reverenciado pelos goianos e aparece em muitos lugares, em
nossa Capital. A última homenagem oficial foi a inauguração de uma nova Avenida no Setor Sul,
setor nobre, com o nome de Avenida Cora Coralina. Antes, de grande importância, foi o
recebimento do Troféu Juca Pato, conhecido nacionalmente û e, grande honraria, foi o título de
DOUTORA HONORIS CAUSA, concedido pela Universidade Federal de Goiás.
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